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from Nomos

obra de Wantaya Thitipaisal, artista contemporânea tailandesa cuja produção explora temas de percepção, diálogo e ambiguidades da vida social Recentemente está rolando um debate contra o chamado “marxismo ocidental” no meio webcomunista. Alguns influenciadores marxista-leninistas ou maoistas tendem a tratar marxismo ocidental como sinônimo de Escola de Frankfurt. Menosprezar a escola de Frankfurt já seria um problema por si só, porque implica descartar autores como Adorno ou Marcuse como se não tivessem nada a oferecer ao pensamento marxista. Mas a simplificação é ainda mais grave.

O marxismo ocidental nunca foi apenas a Escola de Frankfurt. Nele encontramos autores tão diversos quanto Lukács, Gramsci, Korsch, Sartre, Merleau-Ponty, até Althusser e Poulantzas, e vários outros que procuraram recuperar aspectos da dialética de Marx que haviam sido empobrecidos pelas leituras mais ortodoxas do marxismo do século XX (cada um ao seu próprio jeito e de formas diferentes). Reduzir toda essa tradição a uma caricatura “identitária”, “culturalista” ou “acadêmica” é demonstrar desconhecimento da própria história do pensamento marxista.

É inclusive irônico porque se nem mesmo os autores da escola de Frankfurt são totalmente coesos e concordam entre si, quando ampliamos para o “marxismo ocidental” fica pior ainda, pois há autores que tecem várias críticas e discordam em vários aspectos entre si. Uma categoria criada para descrever uma tradição intelectual extremamente diversa acaba sendo utilizada por alguns influenciadores como instrumento de demarcação ideológica, criando um “nós” e um “outros” dentro do próprio marxismo, transformando em suspeitos todos aqueles que se recusam a identificar marxismo com a ortodoxia soviética ou maoista.

Parte do problema está na transformação de Materialismo e Empiriocriticismo, de Lenin, em uma espécie de catecismo filosófico. Muitos marxistas heterodoxos viram nessa obra um retorno a formas de materialismo anteriores não apenas a Marx, mas também à revolução filosófica promovida por Kant e Hegel. O conhecimento aparece ali como um espelhamento cada vez mais preciso de uma realidade objetiva, e o marxismo tende a ser apresentado como a ciência capaz de revelar as leis fundamentais da história.

A partir daí, não é difícil incorrer numa visão mecanicista do devir histórico, na qual o futuro já estaria inscrito nas estruturas do presente e a vitória do proletariado apareceria não como uma possibilidade política a ser construída mas como o desfecho inevitável de um processo governado por leis históricas.

Mais tarde, nos Cadernos Filosóficos, Lenin realiza uma retomada muito mais rica da dialética hegeliana que se afasta significativamente do mecanicismo presente em Materialismo e Empiriocriticismo. O problema é que a tradição marxista-leninista posterior frequentemente combinou esse reencontro com Hegel a uma filosofia da história excessivamente confiante em suas próprias conclusões. A dialética deixou de ser um método para compreender contradições abertas e passou a funcionar, muitas vezes, como garantia antecipada do triunfo histórico do proletariado.

É justamente contra essa tentação que boa parte do marxismo ocidental se insurgiu. Lukács, Gramsci, Sartre, Merleau-Ponty e mesmo autores da Escola de Frankfurt insistiram, cada um à sua maneira, que a história não entrega garantias antecipadas. A práxis política ocorre em um mundo contingente, ambíguo e imprevisível. Não existe ponto de vista privilegiado fora da história a partir do qual possamos enxergar seu destino final.

Talvez seja exatamente isso que incomode tanto certos setores do webcomunismo. A ideia de que a política exige julgamento, revisão constante dos próprios pressupostos e responsabilidade pelos resultados concretos da ação é muito menos confortável do que a crença de estar marchando inevitavelmente em direção a uma vitória já inscrita nas leis da história. A primeira posição exige reflexão crítica permanente e a segunda oferece a segurança psicológica da certeza doutrinária.

O “marxismo ocidental” vira sinônimo de “desvio burguês/acadêmico” para que a ortodoxia não precise lidar com questões difíceis.

Para Marx, como se pode observar inclusive nesse vídeo do Gustavo Machado, a “totalidade” dialética não é um molde pronto, que você aplica à realidade, para explicá-la à força, é um horizonte que se reconstrói na busca por compreender a síntese de múltiplas determinações em movimento e serve para nos lembrar de olhar para as conexões ocultas e para o movimento do real, não para engessar o mundo em uma verdade imutável.

Minha preocupação é que essa deturpação produza militantes mais preocupados em defender verdades prontas do que em compreender a realidade concreta. Isso, na história, pode até ter se mostrado uma potência para comover as pessoas a fazer revolução, guerra e matar com convicção, como um meio justificado para se atingir esse fim histórico glorioso e inevitável. Mas a dialética de Marx é muito mais que colocar a dialética de Hegel de cabeça para baixo. A dialética marxista não possui a confiança hegeliana de que a história possa encontrar sua reconciliação final em uma totalidade plenamente realizada.

Formar pessoas politicamente nesses moldes cria pessoas impermeáveis à experiência, guiadas por uma paixão de nostalgia dessa totalidade absoluta e já conquistada, tornando-as incapazes de refletir sobre suas práticas e ações políticas. Sobre isso, deixo o que considero uma avaliação brilhante de Sartre sobre esse tipo de pessoa, que no caso foi associado ao antissemita, ao fascista, mas também se aplica a fundamentalistas de qualquer espectro político:

O homem sensato busca gemendo, sabe que seus raciocínios são apenas prováveis, que outras considerações hão de pô-los em dúvida; nunca sabe muito bem onde vai; está “aberto”, pode passar por vacilante. Mas há pessoas que se sentem atraídas pela permanência da pedra. Querem ser maciças e impenetráveis, não querem mudar: aonde as conduzirá a mudança? Trata-se de um temor original de si próprio e de um temor da verdade. E o que as amedronta, não é o conteúdo da verdade, que nem sequer suspeitam, porém a própria forma do verdadeiro, este objeto de indefinida aproximação. É como se suas próprias existências estivessem eternamente em sursis. Mas desejam existir ao mesmo tempo e incontinenti. Não desejam opiniões adquiridas, querem-nas inatas; como têm medo do raciocínio, querem adotar um modo de vida em que o raciocínio e a busca exerçam tão somente um papel subordinado, em que jamais se procure exceto aquilo que já se encontrou, em que a gente só se torne aquilo que já era. E para tanto só há a paixão. Apenas uma forte prevenção sentimental pode dar uma certeza fulgurante, apenas ela pode manter o raciocínio à margem, apenas ela pode permanecer impermeável à experiência e subsistir durante toda uma vida.

Essa paixão doutrinária mais parece um escudo dogmático, prevenindo práticas, investigações e até material reflexivo que contradiga o marxismo adotado como canônico: se a realidade contradiz a linha do partido ou a “lei histórica”, pior para a realidade!

Se você se interessa pelo marxismo, se se compreende como socialista ou comunista, meu conselho é que não limite seu horizonte de percepção. Não exclua de sua vida fontes literárias tratadas como não oficiais. Ninguém vai tomar sua carteirinha de marxista porque você decidiu ampliar seus estudos. Recomendo que leia autores do marxismo seja ocidental, soviético, oriental, inclusive não apenas os marxistas, leia inclusive filósofos e autores não-marxistas, tudo o que permita que você amplie seus horizontes.

As obras de Marx estão repletas de textos literários de Honoré de Balzac. Marx adorava Balzac. Embora fosse politicamente conservador, monarquista e profundamente nostálgico da aristocracia francesa, conseguiu retratar as transformações sociais de seu tempo com uma profundidade que o próprio Marx admirava.

Merleau-Ponty, em “As Aventuras da Dialética”, ao resgatar o conceito de totalidade no jovem Lukács, constata que mesmo as distorções ideológicas revelam o real:

Até mesmo os fantasmas têm um significado e exigem interpretação, pois sempre aparecem no contexto de uma relação vivida com a realidade social e, portanto, não são coisas mentais e opacas, separadas do resto. Ao contrário, como as expressões faciais ou a fala, carregam consigo um significado oculto que os desmascara; não escondem algo a menos que o revelem.

e

a literatura nunca expressa os postulados de uma única classe, mas sim o encontro e, se necessário, o contraste com os outros: é, portanto, sempre um reflexo do todo, mesmo que a perspectiva de classe a distorça.

Merleau-Ponty e Lukács (pelo menos o de 1923, do História e Consciência de Classe), concordam que a dialética histórica não é impermeável à experiência. Nenhuma experiência histórica deve ser descartada de antemão por razões doutrinárias. Até os erros e derrotas precisam ser compreendidos como momentos do processo histórico: “O falso é um momento do verdadeiro, simultaneamente falso e não falso.”

Essa atenção a experiência permite que o Marxismo seja plural e atento às conjunturas e movimentos sociais distintos. Não concordo com o uso do marxismo soviético como receituário do marxismo para o contexto histórico do Brasil atual… Isso é antimarxista em alguma medida, visto que Marx, no 18 Brumário, já explicava que não devemos conjurar espíritos do passado a fim de encenar um momento distinto da história venerando revolucionários do passado como se tivessem uma receita pronta e acabada:

Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem por livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com as quais se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar a si mesmos e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, eles conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestados os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de encenar a nova cena da história mundial nesse disfarce venerável e nessa linguagem emprestada.

Sei que soa muito mais fácil angariar uma militância engajada a dotando de certezas… É realmente mais difícil convidar pessoas a fazer uma revolução falando: “Vamos nos unir para construir o novo, o futuro é incerto, nossa vitória não está garantida, mas vale a pena o risco por essa causa”, mas dentro de uma análise concreta dos movimentos reais da história, é isso o que temos. O sistema que durante décadas se apresentou como a realização histórica inevitável do marxismo acabou implodindo por dentro. A União Soviética se dividiu e a Rússia foi revertida à economia de mercado de uma forma repentina, traumática, que causou danos relevantes ao seu tecido social e a de parceiros, como Cuba.

A China caminhou para uma forma peculiar de capitalismo de Estado ou, para seus defensores, de socialismo de mercado, na qual coexistem planejamento estatal, grandes empresas públicas e uma poderosa classe capitalista privada (inclusive com uma expressiva classe de bilionários privados operando segundo as dinâmicas tradicionais da acumulação capitalista). A classe gerencial chinesa, a burocracia estatal, tem mais autonomia em relação a classe dominante capitalista e maior capacidade de planejamento, de coordenar o desenvolvimento estratégico do País, em relação a todos os outros estados-nações sob o modo de produção capitalista.

O que eu poderia dizer para o marxismo das possibilidades, é que embora o socialismo não seja uma certeza histórica, seja uma possibilidade, mesmo que experiências socialistas plurais, prolíficas e diferenciadas marxistas sejam derrotadas, o empenho da militância em criar o novo não é em vão.

Um humilde exemplo que sempre ofereço e tento lembrar, que escapa totalmente do marxismo soviético canônico, é a da pequena municipalidade da Viena Vermelha no período entre Guerras, como consta do Livro V, da história do Marxismo, de Hobsbawm.

Os austromarxistas fizeram uma leitura brilhante de seu contexto histórico e das possibilidades políticas que se abriam com a recente ampliação do sufrágio. Por meio das vias eleitorais, conquistaram o governo municipal de Viena e desenvolveram uma forma criativa de gestão socialista que transformou profundamente a cidade. A tributação progressiva e os programas sociais ergueram, em pouco mais de uma década, durante o período entre guerras, um verdadeiro monumento ao socialismo democrático.

Milhares de trabalhadores foram retirados de cortiços insalubres e passaram a ter acesso a moradias de qualidade inédita para a época. Conjuntos habitacionais como o Karl-Marx-Hof permanecem de pé e continuam cumprindo sua função social até hoje. Ao mesmo tempo, a Viena Vermelha expandiu o acesso à saúde pública, às creches, à educação e a diversas outras políticas sociais, antecipando iniciativas que mais tarde se difundiriam por diferentes países europeus.

Após a derrota da experiência austromarxista diante do avanço do austrofascismo, e depois da anexação da Áustria pelo nazismo, muitos poderiam imaginar que aquela experiência havia desaparecido completamente da história. No entanto, após a derrota do regime nazista, a Constituição austríaca (cuja elaboração contou também com a participação dos austromarxistas) foi restabelecida, e muitas das instituições, políticas públicas e conquistas sociais da Viena Vermelha continuaram presentes na vida urbana vienense.

A experiência da Viena Vermelha tornou-se uma importante referência para diversas políticas sociais implementadas na Europa do pós-guerra, especialmente nas áreas de habitação, saúde e planejamento urbano.

A história não precisa garantir o triunfo inevitável do socialismo para que a luta por transformações sociais valha a pena. O simples fato de que algo novo possa surgir, alterar a experiência humana e permanecer vivo para além de seus criadores já é razão suficiente para agir.

#Marxismo #Dialética #MarxismoOcidental #Filosofia #História #MaterialismoHistórico

 
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from Sirius

Haaland, Messi e Mbappé Após as atuações de gala de Mbappé, Messi e Haaland por suas seleções, com dois gols do francês contra Senegal, um hat-trick do argentino diante da Argélia e dois gols do norueguês contra o Iraque, resolvi fazer algumas ponderações futebolístico-filosóficas, ao estilo do futebol filosófico do Monty Python.

Messi, Mbappé e Haaland encarnam a exemplaridade atlética máxima em suas seleções. Na visão de Sloterdijk, que propõe uma ordem antropotécnica, eles seriam os “aristocratas do esforço” no topo da acrópole competitiva global. Mas acho que o treino e o esforço explicam nossa admiração em apenas uma dimensão.

O Messi do hat-trick de ontem, por exemplo, já não depende tanto do vigor físico; ele é como uma entidade incorporada ao campo, dotada de uma percepção das possibilidades que excede a dos demais, exibindo uma graça que escapa à pura força e agilidade do Haaland ou Mbappé.

Tenho a teoria de que o futebol cativa tantas pessoas porque indivíduos assim convertem a superação humana numa plasticidade sublime, uma potência que comove, arrebata e causa espanto. Isso se manifesta nos gritos de espanto da torcidaa, com um sonoro “– OOoooooohhh” coletivo, quando esses craques atravessam as linhas de defesa ou quando um Messi encontra um passe invisível para os demais, produzindo uma ruptura momentânea nos limites do que julgavam possível.

Os espectadores na arquibancada experimentam algo próximo do espanto filosófico: “como isso foi possível?” E Sócrates, segundo Platão, já nos lembrava que a filosofia nasce justamente da nossa capacidade de se espantar (thauma).

#Futebol #Filosofia #Antropotécnica #Estética #Sublime

 
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from Dr. Sbaitso

Do you have a new/new-to-you/used Windows device that needs a fresh start? Here's the process I've refined for myself over the years to get the best, most usable device possible. Start with zero added crap like McAfee or manufacturer sales programs.

You'll need a couple of USB flash drives for this process. Grab one that's at least 16 GB (install media) and one that's at least 32 GB (data backup). If you're going to be doing this often, you can replace the install media flash drive with an IODD device. I've got one with a 1TB SSD with a bunch of Windows and Linux ISOs, a separate folder for drivers, and a little 1 GB FAT32 partition specifically for holding BIOS updates.

Step 0: BACK UP YOUR DATA. On a separate, external device like the 32 GB or larger flash drive. Copy your user profile(s) and set it aside. You can just copy C:\Users and get 99% of things you'll care about. Get one that's visually distinct, label it, and put it somewhere else so you don't overwrite it. Do this even if you have multiple drives in the system. Don't count on your ability to keep internal storage devices straight. You can skip this step if you're pulling the device straight out of the box.

Step 1: Prepare Media. This requires a working computer.

Microsoft provides clean (for Microsoft) Windows 11 ISOs directly on their website: https://www.microsoft.com/en-us/software-download/windows11 Download the ISO directly from Microsoft. Don't download the ISO from any third-party sites. You can also use the Microsoft “Create Windows 11 Installation Media” program which will automate a lot of the process.

With the Windows 11 ISO, you can use Rufus to create your Win11 install flash drive. Rufus can do some fun things like kill the Microsoft Account requirement.

MAKE SURE YOUR INSTALL USB DEVICE ISN'T YOUR BACKUPS USB DEVICE

You can also just dump multiple ISOs on your IODD. I keep older versions of Win11 install ISOs around specifically so I can just use the bypassnro trick to create a local account, but there will probably always be some option to get around the online account requirements.

Step 2: In addition to Windows, there are a couple of other things you want to grab.

Check to make sure you have the latest UEFI (AKA/FKA BIOS) version for your device. Get this from the vendor with their name on the box directly from their website. Download the version specific to your model/serial number.

Also grab the latest system/platform, graphics, and network/wifi drivers from the manufacturer's website. 90% of these “executables” will be zip files that you can extract and point Windows at the folders later.

Lastly, you want to grab other stuff you want to install immediately. For me, that's Privacy.Sexy, WinAeroTweaker, Vivaldi browser, a Copilot Killer Script and the latest releases of PowerShell, Windows Terminal, and PowerToys.

After you create your install USB, you can copy the BIOS update, drivers, and miscellaneous programs to it.

Step 3: Update UEFI/BIOS. Specifics are going to depend on your device and its process. Make sure you're on the most recent version, especially because of the Secure Boot certificate expirations.

Step 4: Boot Windows 11 Installer. Start fresh, blow away everything on the existing internal drive. The default manufacturer programs are almost never worth saving. The restore partitions are going to have old crap that will be replaced almost immediately when you start updating.

Modern devices won't have a Windows license sticker; the key is baked into the UEFI. Sometimes the Windows installer will pick up the right edition (home/pro/enterprise), sometimes you have to select it yourself. Either way, you can install Win11 without needing to provide a license key at this step. See also the MAS further down.

Step 5: Install drivers for devices Windows didn't handle during installation. The old Device Manager still exists. Right-click on the Start button/Windows logo, and select “Computer Management”. There you can see devices, including ones that don't have working drivers. Either run the executables you downloaded earlier, or right-click on the problem device and “Update Driver”, pointing it at the folders you unpacked.

Step 6: Kill the annoying semi-setup bullshit Windows pulls after updates. Settings app –> System –> Notifications –> Additional Settings –> Uncheck “Suggest ways to get the most out of Windows and finish setting up this device” and “Get tips and suggestions when using Windows”. These are the terrible interruptions Microsoft has started imposing after some updates that will do the absolute bullshit like tricking you into using Onedrive or switching your browser back to Edge. They're gross and terrible and if we had working antitrust enforcement they'd get another deserved crotch-kicking over it.

Step 7: Run the RemoveWindowsAI script. Kill it all, roll back to “classic” Paint/Notepad/Snipping Tool. Uninstall a bunch of MS garbage like Onedrive, Teams, the Office stub, and whatever else you don't need.

Step 8: Install PowerShell7/Terminal/PowerToys, configure to taste. You can install MS Office here too, if you need it. If you don't, we'll install LibreOffice later.

Step 9: Update Windows. Settings –> Windows Updates –> Check for Updates and Advanced Options –> Optional Updates. Just grab everything, get to the latest version. Check “Receive updates for other Microsoft products” too. This covers MS Office and PowerShell. This will take a while, and make sure the bullshit in step 6 didn't get re-enabled.

Step 10: Run the RemoveWindowsAI script again, because “no” isn't a term Microsoft understands.

Step 11: Install Vivaldi, set as default browser, configure as desired. For me that's a dark mode theme, crank the built-in ad-blocker to max, make Settings a tab instead of its own window, setting the search engines to DuckDuckGo, and install the extensions for 1Password, PrivacyBadger, and uBlock Origin.

Step 12: Install/run Privacy.Sexy and WinAeroTweaker.

Privacy.Sexy can break things, so I normally just use the “Standard” setting. I've had good luck with its revert options when it DID break things, but your mileage will vary.

WinAeroTweaker will restore some older Windows defaults to their better options. Once you find settings you like you can save and load those settings to a simple file.

Step 13: Verify Windows activation. Settings –> System –> About –> Product Key and Activation. The system has probably already activated itself in the background. If not, do it now. Or not. I'm not the software police. You can also use the MassGrave Activation Scripts, at your own risk.

USE AT YOUR OWN RISK: Massgrave.dev has published the “Microsoft Activation Scripts (MAS)” on MassGravel GitHub: https://github.com/massgravel/Microsoft-Activation-Scripts These can be used to activate Windows and Office through a couple different methods.

Step 14: Everything else. I've used Ninite for decades to bootstrap a bare computer into usability. Check the boxes, get an executable that will download and install the apps with the best defaults. Only criticism is the free version dumps a bunch of icons on your desktop.

My personal absolute minimum app list is this: Vivaldi Firefox WinDirStat 7-Zip VLC Notepad++

For utility, I'll add these: Paint.NET IrfanView LibreOffice FileZilla

You can keep the Ninite executable around and rerun it later to update existing installs. The EXE isn't locked to a specific machine, so if you're doing several machines you can just dump it on the install flash drive and run it directly.

Manufacturer utilities like Dell's SupportAssist can be okay, but you've got to keep a close eye on them to make sure they don't do something dumb like install McAfee for “free”.

Step 15: Restore your documents/pictures/music/miscellaneous backed-up data. Now's a good time to make sure you have a comprehensive and tested backup scheme for your data too.

Now you should have a usable, fast Windows 11 device with the minimum Microsoft bullshit hanging around.

#Windows #Microsoft #Laptop #PC #Security #Reinstall #Copilot #Malware #Dell #HP #Lenovo #ASUS #Acer

 
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from Security Through the Looking Glass

This is the second entry in a series. If you haven't read the previous one, now might be a good time. If you're all caught up, then let's get into it.

Viable systems exist within an environment. They adapt to the environment, but they may also change the environment as they adapt and grow. Beavers evolved to build dams, and in doing so they changed the ecosystems in which they evolved. A successful company will change the market. A successful non-profit will change their domain. But even a stable company is only one entity within the environment. Other companies, NGOs, consumers, and the public sector all exist within this same environment. Regulations, technological advancement, and customer tastes all shift the environment.

Within this dynamic environment, what are you doing to track changes that impact your viability? How are you connecting environmental changes, such as regulation, to internal constraints, such as those that drive compliance enforcement and verification?

A security program will need to focus on a specific subset of this question. How do you monitor threat actors? The evolution of threat actors and their attack profiles must inform your risk model and prioritization. As defenses evolve, threat actors adapt and their attack patterns change. How do you collect data? How do you process it into intelligence that's actionable by people on your team?

Similarly, a security program will need a mechanism to track external changes to its attack surface in the form of supply chain risk management. What mechanisms do you have in place to track vulnerabilities in third party libraries, applications, and appliances that you use? How do you make sure that information (and specifically that information, not a flood of false positives) gets to people who can act on it?

We will come back to threat actors and vulnerability management in other articles.

Keeping track of you constraints as they evolve is only half of the constraint management equation. The other half is algedonic signaling. How do you know when constraints are violated?

In the body, an algedonic signal is a basic “pleasure or pain” signal, like those we started with. When your body is hungry, you feel it. When you get hungry enough, it hurts. The signal isn't detailed. It doesn't provide much information. It's simple and generally easy to investigate. Many signals, such as hunger, are intuitive. We learn to understand them immediately and without investigation.

All constraints should be tied to “algedonic” signals that trigger when they violated. But are they? If you've recorded your constants (as described in the previous article) then you can perform a gap analysis.

For each constraint you have identified, write down the signals that fire when those constraints are violated. For any gaps you identify, and figure out a plan to close them. Are there constraints you have listed that you would feel comfortable not being alerted of in case they are violated? Those are not really constraints (at least not at your level) and they should be removed from your constraint list.

Anyone who has worked in tech long enough has seen some variation of alarm fatigue. Perhaps it has even been you who has had an email filtering rule that dumps alerts into a folder that is periodically cleared without any messages ever being read. Many security engineers will have had the experience of pointing to a vulnerability found by some automated scanner or other, a vulnerability which has since been then verified by a security engineer, and asking, “why was this been marked as a false positive?” Perhaps you've observed to someone frantically clicking through a series of dire warnings, recognizing that the warnings intended to stop them have simply trained them to click fast without thinking. Too many signals can overwhelm a system. Notice that I'm not specifying spurious signals. Accuracy is also a problem, but sheer volume of accurate signals can be enough.

Then what is the mechanism by which signals are reduced? Common frameworks can address common vulnerabilities. Many security programs will look for security violations: insecure software being used, vulnerabilities in software being developed, and so on. There are infinitely many ways to implement software insecurely. There may well be as many ways to implement software securely. Sorting between these sets requires tremendous knowledge and has a high probability of failure. By restricting the definition of “secure” as complying with a specific set of vetted patterns, software, hardware, configurations, and the like, the verification work is reduced.

Security Engineering can work on identifying common problems, addressing them with vetted patterns, and ensuring deployed patterns are updated as needed. This internal optimization work helps make the external signals around supply chain risk into something manageable. These restrictions are enforced not by complete refusal to use software, hardware, or configurations not explicitly allowed, but by adding friction, in terms of additional auditing or monitoring requirements, for teams trying to use them. Critical deviations will still be possible, at a cost, and most users will choose the path of least resistance.

Compliance work may revolve around understanding what regulations apply to software, what assets regulatory bodies need, and making sure those assets can be delivered. But it can be easy to miss that compliance can reduce regulatory risk through early intervention. By providing guidance that allows software to be designed in a way that avoids falling under regulation, or by concentrating regulatory risk in a smaller set of components, complexity, and the risk of signal overwhelm, can be reduced.

While cybernetics foregrounds the importance of complexity management, encapsulated as Ashby's Law of Requisite Variety, security program leadership can struggle to see the forest for the trees. In the frantic struggle to fight all the fires, it can be difficult to even notice the larger patterns. This is exactly where cybernetics can help us most.

The VSM defines a set of metasystemic subsystems that manage any system. In the first article we talked about the system itself as an entity surviving within and adapting to an environment. We connected that to the Identity subsystem, and how invariants inform constraints through identity.

In this article, thus far, we have talked more about that dynamic environment and how we need an Awareness subsystem to track environmental changes. We've also talked about managing complexity through synergy using an Optimization subsystem. This leaves two more metasystemic components to cover: Internal Audit and Learning, and Harmonization. Before we talk about those, let's jump down the stack one more time. What are these subsystems learning about, auditing, and harmonizing? All of these metasystemic functions exist to support the Operational Units. Operational Units “do all the work that keeps the system alive.” In the body these are the muscles and organs that breath air, find food, digest food, and remove waste.

While the brain, the metasystem, directs the activity, it is the rest of the body that realizes that activity. It is important to keep this fact in mind as we try to understand the role of security in an organization. With this in mind, let's return to where we were.

The Optimization subsystem can passively coordinate optimization opportunities that are identified by subsystems, but it can also look actively collect data. Internal Audit and Learning is a subsystem of optimization that performs audits and looks for anomalies. Security folks may well be taking notice, recognizing some of our own work in this subsystem. But it's a little more complex than that. Let's talk about the Harmonization subsystem.

The function of the Harmonization subsystem is, essentially, to keep operating units from interfering with each other. If Operational Units are sharing compute resources, for example, Harmonization would include things like permissions and quotas. The VSM says that operational units should have maximal autonomy, but each Operational Unit must be prevented from threatening the viability of the system itself.

Now we, security, can really see ourselves in our familiar role with our familiar problem. Each operational unit may be trying to create a product, ship software or hardware, or to provide a service, but in doing so they can increase the attack surface. Promotion driven development may push team leads to compete to get software out faster and cheaper, incentivizing them to cut corners wherever they can. They ask if they can reduce the scope of a review, or push now and fix later. They may even push features that change the threat model but are, somehow, also “too minor for a security review.”

They each individually peruse their own objectives, and in doing so threaten the security of the organization as a whole. But when vulnerabilities are found, and perhaps even exploited, within a team's code the company as a whole bears the burden. Isn't it interesting that security tends to behave similarly to police, when, in actuality, our job is that of commons management.

Customer trust and internal funds are parts of the internal commons threatened by through a company's collective attack surface. The job of security is to coordinate teams across the company to ensure attack surface is minimized. Security works to protect customer trust from reputational threats, and funds from regulatory action and illegitimate compute usage.

Companies mature enough to understand that “policy enforcement” needs to have teeth, often become too big for that same enforcement role to maintain visibility. Companies that haven't reached that level of maturity simply don't give “policy enforcement” the tools to actually “enforce” anything. “Policy enforcement” creates an adversarial relationship between security and operational units that makes everyone's job harder. By recognizing security as a support role, rather than an authority that demands obedience, we can focus on building the relationships we need to protect the organization that we all share.

The economist Elinor Ostrom worked extensively on commons management, but the rules she developed are outside the scope of this work. That said, we will briefly touch on five rules for commons management will help simplify our work:

  1. Commons must have clearly defined boundaries.
  2. Commons must be monitored.
  3. Those who abuse the commons must be sanctioned.
  4. Commons management must have authority.
  5. Commons management works better when the specific commons exists within a larger commons framework.

We have already touched on both the “authority” and “abuse” elements, though we'll need to come back to those later. In the next section we'll align all of these into a process that's driven by a new threat modeling methodology. This new methodology will pull from the information we established in the first section, and the program we build around it will revisit many of the concepts we've introduced in this section.

 
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from Security Through the Looking Glass

If you are unable to get yourself food or water for a long enough period, you will die. We all know this. Our bodies tell us this with hunger and thirst. After a while we start to hurt, a headache or aching stomach. We will be compelled to do something about it, perhaps anything, to survive. You may even feel a bit of anxiety now even just thinking about it.

Some people override these signals consciously. They fast for religious reasons. They go on hunger strikes to resist oppression in the only way they can, or raise awareness about a problem that isn't getting attention. What self-control, one might say, imagining Kafka's Hunger Artist sitting stoically in his cage as he wastes away. (I mean, no one would say that, but I'm not going to miss such a good opportunity to throw in a Kafka reference.)

Control, including both the signals the body sends to the mind and the ability of the mind to override them and dictate the body, is precisely the subject of the study of cybernetics. But cybernetics, of course, isn't specific to biological system. It abstracts concepts into models that can be applied to plants, animals, machines, social systems, and many other things. One such model is the Viable System Model (VSM).

The VSM describes the abstract control components that a system needs in order to “remain viable.” The “viable” part of that is defined by a specific set of invariants. For biological things that means “have enough water,” “have the right nutrients,” “have enough food,” etc, while for businesses that generally means something like “have employees” and “remain solvent.”

All viable systems exist within environments and viability can only be described within the context of these environments. Their existence within an environment necessarily changes that environment, and changes to the environment may influence their viability.

The VSM, as a model, helps us think about the mechanisms which must exist, and the ways in which they must exist, within a system in order to maintain viability. Positively it tells us how to make a system viable or check that a system is viable. But that necessarily means it also happens to be useful for modeling.

So let's take these concepts and begin to think about how we can leverage the power of cybernetics to design or improve a cybersecurity program.

We need to start at the heart of the matter: viability. Whatever you're trying to protect either is a system that must remain viable, or exists within a system that must remain viable. Things that threaten that viability are called “threats,” where a “security threat” is a subset of those threats such that the threat may be intentionally realized by an actor. Now, by “remain viable,” we mean “must maintain a set of invariants.”

A company, as we have discussed, needs (at least) employees to work and money to pay them (if no others). These are the minimal viability invariants of a company. A department within a company may have constraints, perhaps based on metric targets or goals: must maintain 10% customer growth, must achieve positive cash flow for product sales by the end of the year, etc. Subsystems, teams, subteams, individuals, software, will all derive their own constraints (explicitly or implicitly) from these root invariants.

A system's invariants are enforced by the parent system (directly or through inheritance, say, from the laws of physics). Constraints are derived by the system or parent system in order to protect the system against violating the invariant within a specific environmental configuration. As the environment changes, constraints will also need to change; invariants must remain true as a property of the system across all possible environments.

So then, what are those invariants for the highest level system for which you are responsible? List them.

A system does specific things, generally in a specific way, in order to avoid violating these invariants. This defines the system identity. A store sells things within a specific market niche. A manufacturer makes stuff, from specific materials, with specific tools, for a specific market niche. I am a security engineer. I am writing about security. I may be able to pivot between security engineering work and technical writing, but if I try to be a baker tomorrow, and a landscaper next Tuesday, and a carpenter the following Friday, I will quite likely threaten my income. Without income, I will struggle to maintain the housing and food I need to maintain the constraints of temperature and caloric intake that keep me viable. As difficult as it would be for me, as an individual, to rapidly pivot, all the more-so for the shoe store to become a butcher or the cabinet factory to pivot to pharmaceuticals.

Identity informs constraints. What then is the identity of the system for which you are responsible? Are you responsible for a subsystem, such as a department or team, where your identity is derived from a parent system? If yes, how so? Write these things down.

What are the constraints that keep you from violating these invariants? List them.

These constraints may be things like “service and labor spend must be lower than customer provided income,” “services must comply with all applicable regulations to avoid fines,” or “the business must operate in a way consistent with the ethical framework of the community in order to retain employees and reduce retaliatory risk.”

Constraints will be derived from invariants, through various levels of system identity. If you are mapping constraints for a subsystem, you should be able to contextualize these constraints at least within the context of the next level of parent system above yours. A team should understand the department it's working it, a shop should understand regional goals.

You have been asked to record other peaces of information, such as invariants, identity, and derived constraints. This specific information will be useful in the future. But while invariants won't change, and Identity should rarely or never change, constraints are a product of invariants interfacing with a dynamic environment through identity.

This introduces us to the highest level cybernetic metasystemic function, and the dynamic environment within which a viable system must exist. This will set us up to talk in the next essay about the remaining metasystemic functions that allow our system to adapt to this dynamic environment, internally regulate, and manage complexity. In the third essay, we will revisit what you have written down here and use it to think differently about threat modeling.

For many organizations today, threat modeling lies somewhere between theater and magical thinking. Design remains uninformed by threat models, and threat models become dead documents that are written once and thrown away. Assets that should be related to threat models, such as incident response plans, remain disconnected. What should be a tightly-knit living web of knowledge about the risk lifecycle of software becomes an archipelago of dead and disconnected data.

This dead chaos breeds complexity, complexity that can be absorbed by a living knowledge system and a process that builds and leverages that knowledge. By putting the “cyber” back in cybersecurity, we will be able to build a security program that is actually able to consume the complexity we are experiencing today, and not choke. Keep your notes from this section. You will need them for the section on threat modeling.

 
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from Nomos

Por George Herbert Mead em A Filosofia do Presente (EUA, 1932)

O tema desta conferência encontra-se na proposição de que a realidade existe em um presente. O presente, naturalmente, implica um passado e um futuro, e negamos existência a ambos. A sugestão de Whitehead de que, à medida que os presentes especiosos variam em extensão temporal, pode-se conceber um único presente capaz de abranger toda a realidade temporal, aparentemente nos deixaria a passagem, mas eliminaria o passado e o futuro. Seja o que mais fosse, isso não seria um presente, pois aquilo de que ele tivesse passado não teria deixado de existir, e aquilo que está por existir já estaria nesse presente inclusivo. Poder-se-ia duvidar se isso ainda preservaria o caráter da passagem, mas, em todo caso, a natureza essencial do presente e da existência teria desaparecido. Pois o que caracteriza um presente é o seu tornar-se e o seu desaparecer. Enquanto o clarão do meteoro atravessa nossos próprios presentes especiosos, ele está inteiramente ali, ainda que apenas por uma fração de minuto. Estender essa fração de minuto a todo o processo do qual ela é um fragmento, conferindo-lhe a mesma solidariedade de existência que o clarão possui na experiência, seria apagar sua natureza como evento. Tal conspecto da existência não seria um presente eterno, pois não seria um presente de modo algum. Tampouco seria uma existência. Pois uma realidade parmenidiana não existe. A existência envolve a não-existência; ela efetivamente ocorre. O mundo é um mundo de eventos.

Há pouco propósito ou proveito em estabelecer antinomias e derrubar uma por meio da outra, ou em relegar a permanência a um mundo subsistente e atemporal enquanto o evento, no qual nada existe além de passagem, é transformado no elemento substancial das coisas existentes. O caráter permanente que nos interessa é aquele que permanece na existência, e diante do qual a mudança também existe. Há, isto é, o passado que se expressa na irrevogabilidade, embora jamais tenha existido na experiência um passado que não tenha mudado com o passar das gerações. Os passados nos quais estamos envolvidos são ao mesmo tempo irrevogáveis e revogáveis. É inútil, ao menos para os propósitos da experiência, recorrer a um passado “real” dentro do qual fazemos descobertas constantes; pois esse passado deve ser contraposto a um presente no qual o emergente aparece, e o passado, que então precisa ser considerado do ponto de vista do emergente, torna-se um passado diferente. O emergente, quando aparece, é sempre encontrado como decorrente do passado, mas antes de aparecer ele não decorre do passado, por definição. É inútil insistir em caracteres universais ou eternos pelos quais eventos passados possam ser identificados independentemente de qualquer emergente, pois estes ou estão além de nossa formulação ou tornam-se tão vazios que não servem a nenhum propósito de identificação. A importância do infinito no pensamento matemático antigo e moderno ilustra essa impotência.

Permanece a possibilidade de empurrar toda a realidade efetiva para um mundo de eventos em um espaço-tempo minkowskiano que transcende nossos referenciais, e os caracteres dos eventos para um mundo de entidades subsistentes. Até que ponto tal concepção da realidade pode ser logicamente elaborada eu não pretenderei discutir. O que me parece interessante é o significado que um conceito como o de irrevogabilidade possui na experiência.

Não gastarei tempo nem retórica apresentando o quadro em movimento das histórias que sucederam umas às outras desde os mitos das eras primitivas até o relato de Eddington ou Jeans sobre “O Universo ao Nosso Redor”. Interessa apenas notar que a rapidez com que esses passados se sucedem aumentou continuamente com o aumento da exatidão crítica no estudo do passado. Há uma ausência completa de finalidade em tais apresentações. É, naturalmente, implicação de nosso método de pesquisa que o historiador, em qualquer campo da ciência, será capaz de reconstruir o que aconteceu como um relato autenticado do passado. Contudo, aguardamos com vivo interesse a reconstrução, no mundo que será, do mundo que foi, pois percebemos que o mundo que será não pode diferir do mundo que é sem reescrever o passado para o qual agora olhamos retrospectivamente.

E, no entanto, o caráter de irrevogabilidade jamais se perde. Aquilo que aconteceu foi além de qualquer possibilidade de recuperação e, seja o que tenha sido, seu deslizar para o passado parece colocá-lo além da influência de eventos emergentes em nossa própria conduta ou na natureza. É o “o que ele foi” que muda, e esse título aparentemente vazio de irrevogabilidade liga-se a ele, venha ele a tornar-se o que for. A importância de ser irrevogável liga-se ao “o que ele foi”, e o “o que ele foi” é precisamente aquilo que não é irrevogável. Há uma finalidade que acompanha o desaparecimento de cada evento. A toda descrição desse evento essa finalidade é acrescentada, mas toda a importância dessa finalidade pertence ao mesmo mundo da experiência ao qual essa descrição pertence.

Ora, contraposta a essa incidência evidente de finalidade em um presente está a suposição habitual de que o passado que nos determina está lá. A verdade é que o passado está lá, em sua certeza ou probabilidade, no mesmo sentido em que o enquadramento de nossos problemas está lá. Parto da suposição de que a cognição, e o pensamento como parte do processo cognitivo, é reconstrutiva, porque a reconstrução é essencial para a conduta de um ser inteligente no universo. Isso é apenas parte da proposição mais geral de que mudanças estão ocorrendo no universo e de que, como consequência dessas mudanças, o universo está se tornando um universo diferente. A inteligência é apenas um aspecto dessa mudança. Trata-se de uma mudança que é parte de um processo vivo contínuo que tende a manter-se. O que é peculiar à inteligência é que ela constitui uma mudança que envolve uma reorganização mútua, um ajuste no organismo e uma reconstituição do ambiente; pois, em seus termos mais elementares, qualquer mudança no organismo acarreta uma diferença de sensibilidade e de resposta, e uma diferença correspondente no ambiente. É dentro desse processo que surge a chamada inteligência consciente, pois a consciência é tanto a diferença que surge no ambiente em razão de sua relação com o organismo em seu processo orgânico de ajustamento quanto a diferença no organismo em razão da mudança que ocorreu no ambiente. Referimo-nos à primeira como significado, e à segunda como ideação. O reflexo do organismo no ambiente e o reflexo do ambiente no organismo são fases essenciais na manutenção do processo vital que constitui a inteligência consciente.

Considerarei o significado da consciência em uma conferência posterior. No momento, meu interesse é apenas localizar aquela atividade à qual a cognição pertence e da qual o pensamento é uma expressão. Estou distinguindo, em particular, aquela existência do mundo para o organismo individual e social que corresponde ao uso mais geral do termo consciência daquela situação que corresponde ao termo “consciência de”. É esta última que, a meu ver, conota cognição. A distinção entre ambas coincide com aquela que sugeri entre o problema e o seu contexto.

O contexto dentro do qual ocorre o ajustamento é essencial para esse ajustamento e se insere naquilo que pertence ao “campo da consciência”, tal como esse termo é geralmente utilizado — especialmente quando reconhecemos as implicações daquilo que está mais definidamente no campo da consciência. O termo “campo da percepção” às vezes é usado no mesmo sentido, mas é mais propenso a carregar consigo o valor de “percepção de” do que o termo “consciência”. Em outras palavras, no conhecimento há sempre a pressuposição de um mundo que está aí e que fornece a base para o processo inferencial e ideacional da cognição. Isso, naturalmente, restringe a cognição ou a “consciência de” àquilo que contém em si uma dimensão inferencial.

Ora, o mundo que está aí em sua relação com o organismo, e que estabelece as condições para o ajustamento do organismo e a consequente mudança nesse mundo e desse mundo, inclui o seu passado. Abordamos toda questão de caráter histórico com um certo aparato, que pode ser cuidadosamente definido, e esse material mais tecnicamente definido — documentos, testemunhos orais e vestígios históricos — sustenta um dado passado que se estende retroativamente a partir das memórias de ontem e de hoje, e que não colocamos em dúvida. Utilizamos esse aparato para responder hipoteticamente às questões históricas que nos pressionam e para testar nossas hipóteses quando estas foram elaboradas.

Compreende-se, naturalmente, que qualquer parte desse aparato e do passado no qual ele está inserido pode ela própria tornar-se objeto de dúvida, mas mesmo o ceticismo mais radical, em sua própria formulação, não consegue escapar da memória das palavras e ideias que formulam a doutrina cética. Algum passado dado desse tipo está implicado nas questões referentes ao passado. E esse passado dado amplia o presente especioso. É verdade que o acordo último entre os significados de dois documentos pode residir na experiência de um presente especioso, mas apenas sob a suposição da comparação que anteriormente fizemos entre os documentos. Essa comparação se estende para trás de nós e permanece inquestionada até que alguém aponte nela um erro e assim a coloque em questão, mas então apenas com base no passado dele próprio e de outros.

Tomemos a engenhosa sugestão — creio que do pai de Gosse — de que Deus criou o mundo com seus fósseis e outras evidências de um passado remoto para pôr à prova a fé dos homens; e atualizemos a sugestão para meia hora atrás. Suponhamos que o mundo tenha vindo à existência, com sua estrutura presente exata, incluindo os chamados conteúdos de nossas mentes, há trinta minutos, e que tivéssemos alguma evidência ulterior, análoga às concepções fundamentalistas do Sr. Gosse, de que isso tivesse ocorrido. Poderíamos examinar a hipótese apenas à luz de algum passado que estivesse aí, por mais reduzido que ele tivesse se tornado. E esse passado se estende indefinidamente, pois nada o interrompe, uma vez que qualquer momento dele, sendo representado, possui o seu próprio passado, e assim sucessivamente.

O que queremos dizer, então, com a afirmação de que existiu algum passado real com todos os seus eventos, independentemente de qualquer presente, cujos conteúdos estamos lenta e imperfeitamente decifrando? Retornamos, naturalmente, às próprias correções que fazemos em nossa pesquisa histórica e ao grau mais elevado de evidência daquilo que foi descoberto em comparação com o que podia ser oferecido pela descrição descartada. Graus mais altos de probabilidade e evidências adicionais implicam que há ou houve alguma realidade ali que estamos trazendo à luz.

Há, portanto, uma referência palpável ao passado inquestionado por meio de cuja evidência investigamos e solucionamos os problemas que surgem. E o próprio fato a que me referi — o de que qualquer descrição aceita do passado, embora não esteja agora em questão, pode concebivelmente vir a ser posta em dúvida — parece implicar algum passado inquestionável que serviria de pano de fundo para a solução de todos os problemas concebíveis. Admitamos isso provisoriamente e façamos a pergunta ulterior: esse passado independente de qualquer presente entra de fato em nossas investigações — quero dizer, como uma pressuposição que desempenha algum papel em nosso pensamento? Se retirássemos essa pressuposição, nosso aparato e sua operação na pesquisa histórica seriam afetados de algum modo?

Certamente não, se nos ocuparmos apenas dos problemas com os quais os historiadores da história social ou científica se ocupam. Aqui a referência é sempre e exclusivamente ao passado dado do qual surgiu um problema; e os contornos do problema e os testes aos quais as hipóteses apresentadas são submetidas encontram-se nesse passado dado. Como vimos, esse passado dado pode ele próprio, em uma data posterior, ser afetado pela dúvida e trazido à discussão. E, no entanto, a possível dubiedade do passado dado não afeta de maneira alguma a empreitada. Esta é outra maneira de dizer que a dubiedade de todos os passados possíveis jamais entra no pensamento do historiador.

A única aproximação a tal entrada é a exigência de que todos os passados anteriores sejam explicados e incorporados à formulação mais recente. E cada passado anterior, na medida em que é reconstruído, é nessa mesma medida mostrado como incorreto. Nas implicações de nosso método parecemos aproximar-nos de uma formulação-limite, ainda que no infinito, que preencheria todas as lacunas e corrigiria todos os erros. Mas, se estamos fazendo correções, deve aparentemente existir alguma descrição que seja correta; e mesmo se contemplarmos um futuro indefinido de pesquisa científica empenhada nessa tarefa, jamais escapamos dessa implicação.

Há outra maneira de dizer isso: nosso trabalho de pesquisa é um trabalho de descoberta, e só podemos descobrir aquilo que está lá, quer o descubramos ou não. Penso, contudo, que esta última afirmação está errada, se se supõe que implica haver ou ter havido um passado independente de todos os presentes, pois pode haver — e sem dúvida há — em qualquer presente com seu próprio passado uma vasta quantidade de coisas que não descobrimos, e, ainda assim, aquilo que descobrimos ou deixamos de descobrir assumirá um significado diferente e terá uma estrutura diferente como evento quando visto de algum ponto de vista posterior.

Há erro semelhante na concepção da correção do erro passado e na sugestão de que ela implica o absolutamente correto, ainda que jamais o alcance? Refiro-me à correção “em si” de uma descrição de eventos, implícita em uma correção feita por um historiador posterior. Penso que a correção absoluta que se encontra no pensamento do historiador seria a apresentação completa do passado dado, se todas as suas implicações fossem desenvolvidas. Se pudéssemos conhecer tudo o que está implicado em nossas memórias, documentos e monumentos, e fôssemos capazes de controlar todo esse conhecimento, o historiador suporia possuir aquilo que é absolutamente correto.

Mas um historiador do tempo de Aristóteles, ampliando dessa maneira seu passado conhecido, teria alcançado um passado correto que estaria em total desacordo com o mundo conhecido da ciência moderna; e há apenas diferenças de grau entre tal comparação e aquelas que as mudanças devidas à pesquisa vêm produzindo em nossos passados ano após ano. Se estamos nos referindo a qualquer outra correção “em si”, ela deve ser ou a de uma realidade que, por definição, jamais poderia entrar em nossa experiência, ou a de uma meta no infinito na qual cessa o tipo de experiência em que nos encontramos.

É, naturalmente, possível supor que a experiência dentro da qual nos encontramos esteja incluída em algum mundo ou experiência que a transcenda. Meu único ponto é que tal suposição não desempenha papel algum em nossos juízos sobre a correção do passado. Podemos ter outras razões, teológicas ou metafísicas, para supor um passado real que pudesse ser dado em uma apresentação independente de qualquer presente, mas essa suposição não entra nos postulados nem na técnica de qualquer tipo de pesquisa histórica.

Embora a concepção de um passado irrevogável “em si” seja talvez o pano de fundo comum do pensamento, é interessante retornar à afirmação que fiz anteriormente de que o cientista pesquisador aguarda não apenas com equanimidade, mas também com vivo interesse, as mudanças fundamentais que pesquisas posteriores trarão às determinações mais exatas que hoje podemos fazer. A imagem que isso oferece é a de presentes deslizando uns nos outros, cada qual com um passado que lhe é referível, cada passado incorporando em si aqueles que o precederam e, em certa medida, reconstruindo-os a partir de seu próprio ponto de vista.

No momento em que tomamos esses presentes anteriores como existências separadas da apresentação deles como passados, eles deixam de ter significado para nós e perdem qualquer valor que possam ter para interpretar nosso próprio presente e determinar nossos futuros. Eles podem ser localizados na geometria do espaço-tempo de Minkowski, mas, mesmo sob essa suposição, só podem alcançar-nos por meio de nossos próprios referenciais ou perspectivas; e o mesmo seria verdadeiro sob as suposições de qualquer outra metafísica que localizasse a realidade do passado em passados independentes de qualquer presente.

Provavelmente se diria que a irrevogabilidade do passado está localizada em tal ordem metafísica, e é esse o ponto que desejo discutir. O historiador não duvida de que algo aconteceu. Sua dúvida é quanto ao que aconteceu. Ele também procede com a suposição de que, se pudesse dispor de todos os fatos ou dados, poderia determinar o que foi que aconteceu. Isto é, sua ideia de irrevogabilidade liga-se, como já afirmei, ao “o quê” que aconteceu, assim como ao desaparecimento do evento.

Mas, se há emergência, o reflexo disso no passado ocorre imediatamente. Há um novo passado, pois, a partir de cada nova ascensão, a paisagem que se estende atrás de nós torna-se uma paisagem diferente. A analogia é falha porque as alturas estão ali, e os aspectos das paisagens que elas revelam também estão ali e poderiam ser reconstruídos a partir do presente do viajante, se ele tivesse diante de si todas as implicações de seu presente; ao passo que o emergente não está ali de antemão e, por definição, não poderia ser incluído nem mesmo na apresentação mais completa do presente. A realidade metafísica sugerida pela expressão de Eddington de que nossa experiência é uma aventura da mente na geometria ordenada do espaço-tempo corresponderia, contudo, a uma paisagem preexistente.

Há, naturalmente, a doutrina alternativa de Whitehead, segundo a qual as perspectivas existem na natureza como sistemas temporais que se intersectam, produzindo assim não apenas diferentes presentes, mas também diferentes passados que lhes correspondem. Não consigo ver, entretanto, como Whitehead, com a geometria fixa do espaço-tempo que ele aceita, pode escapar de uma ordem fixa de eventos, ainda que o “o quê” desses eventos dependa da ingressão de objetos eternos surgidos por meio da ação de Deus, dando assim origem à emergência.

O ponto em questão é saber se a necessidade com a qual o cientista lida é uma necessidade que determina o presente a partir de um passado independente desse ou de qualquer presente. Um espaço-tempo ordenado envolve tal necessidade metafísica. Desse ponto de vista, os diferentes passados da experiência são reinterpretações subjetivas, e o físico não está interessado em torná-los parte do esquema total dos eventos. A filosofia de Whitehead é uma tentativa valente de harmonizar esse tipo de necessidade geométrica com a emergência e com as diferenças entre perspectivas variadas. Não acredito que isso possa ser realizado, mas estou mais interessado na resposta à questão de saber se a necessidade envolvida nas relações entre presente e passado deriva de tal necessidade metafísica, isto é, de uma necessidade independente de qualquer presente.

Retorno aqui à minha proposição original de que uma realidade que transcende o presente deve manifestar-se no presente. Essa alternativa é aquela encontrada na atitude do cientista pesquisador, quer ele a reconheça em sua doutrina ou não. Ela consiste em que há e sempre haverá uma relação necessária entre o passado e o presente, mas que o presente no qual o emergente aparece aceita aquilo que é novo como parte essencial do universo e, desse ponto de vista, reescreve seu passado. O emergente então deixa de ser um emergente e passa a decorrer do passado que substituiu o passado anterior.

Falamos da vida e da consciência como emergentes, mas nossas naturezas racionalistas jamais ficarão satisfeitas enquanto não tivermos concebido um universo no qual elas surjam inevitavelmente daquilo que as precedeu. Não conseguimos fazer do emergente uma parte da relação pensante entre passado e presente e, mesmo quando aparentemente o aceitamos, levamos a bioquímica e a psicologia behaviorista tão longe quanto podemos no esforço de reduzir a emergência a um ponto evanescente. Mas, mesmo concedendo ao cientista pesquisador uma vitória completa — um universo inteiramente racionalizado, dentro do qual haja uma ordem determinada — ele ainda aguardará o aparecimento de novos problemas que emergirão em novos presentes para serem novamente racionalizados com outro passado, o qual incorporará harmoniosamente o antigo passado em si mesmo.

Reconhecidamente, a racionalidade completa do universo baseia-se em uma indução, e aquilo em que essa indução se fundamenta é um ponto controverso na doutrina filosófica. Admitida qualquer razão justificável para acreditar nela, todas as nossas correlações a fortalecem enormemente. Mas existe tal razão? Nesse ponto crucial há a maior incerteza. Evidentemente, o procedimento do cientista ignora isso. Para ele, não se trata de uma questão controversa. Não é, de modo algum, uma questão em seu procedimento. Ele está simplesmente ocupado em encontrar uma ordem racional e em estendê-la retrospectivamente, para que possa prever o futuro.

É aqui que seu mundo dado funciona. Se ele consegue ajustar sua hipótese a esse mundo e se ela antecipa aquilo que ocorre, então ela se torna a descrição do que aconteceu. Se fracassa, outra hipótese a substitui e outro passado substitui aquele que a primeira hipótese implicava.

Em suma, o passado (ou a estrutura significativa do passado) é tão hipotético quanto o futuro. O relato de Jeans sobre o que vem ocorrendo no interior de Aldebarã ou de Sírius Menor durante os últimos milhões de anos é muito mais hipotético do que o catálogo do astrônomo acerca dos eclipses que ocorrerão no próximo século e dos lugares onde serão visíveis. E a suposição metafísica de que houve um passado definido de eventos nada acrescenta nem subtrai da segurança de qualquer hipótese que ilumine nosso presente.

Ela oferece, de fato, a forma vazia dentro da qual estendemos qualquer hipótese e desenvolvemos suas implicações, mas não possui sequer a fixidez que Kant encontrou em suas formas da intuição. Os paradoxos da relatividade, aquilo que Whitehead denomina os diferentes significados do tempo em diferentes sistemas temporais, revelam a natureza hipotética dos esquemas regulados do passado dentro dos quais devemos encaixar os eventos que nossas teorias físicas desenrolam atrás de nós.

Podemos recorrer ao espaço-tempo absoluto com suas coincidências de eventos e os intervalos entre eles, mas mesmo aqui permanece discutível se essa interpretação das transformações de um referencial para outro é definitiva, se alcançamos a estrutura última do universo físico ou apenas um aparato matemático mais poderoso para atingir maior exatidão em medições e cálculos, cuja interpretação variará com a história da física matemática. O espaço-tempo de Minkowski é tão hipotético quanto a constituição ondulatória da matéria proposta por de Broglie.

Mas a irrevogabilidade do evento passado permanece mesmo que estejamos incertos quanto ao que foi o evento passado. Nem mesmo o caráter reversível dos processos físicos que as equações matemáticas parecem revelar abala esse caráter da experiência temporal. Pode-se conceber que, visto de uma enorme distância, a ordem de alguns daqueles que chamamos de mesmos eventos possa diferir em diferentes perspectivas, mas, dentro de qualquer perspectiva, aquilo que passou não pode recorrer. Nessa perspectiva, o que aconteceu aconteceu, e qualquer teoria apresentada deve abrir espaço para essa ordem dentro dessa perspectiva.

Há uma direção temporal inalterável naquilo que está ocorrendo e, se pudermos vincular outros processos a essa passagem, poderemos atribuir-lhes tanta certeza quanto o grau dessa vinculação justificar. Dado um certo valor para a velocidade de um corpo em movimento em determinado referencial, podemos determinar onde o corpo necessariamente estará. Nosso problema consiste em determinar exatamente o que precedeu aquilo que está ocorrendo, para que a direção do progresso temporal possa determinar o que o mundo virá a ser.

Há um certo processo temporal em curso na experiência. Aquilo que ocorreu desemboca naquilo que está ocorrendo, e, nessa passagem, o que ocorreu determina espaço-temporalmente aquilo que está passando para o futuro. Assim, na medida em que possamos determinar as constantes do movimento, podemos seguir essa determinação, e nossa análise procura resolver o acontecimento, tanto quanto possível, em movimento. Em geral, uma vez que a própria passagem é dada na experiência, a direção das mudanças em curso condiciona parcialmente aquilo que ocorrerá.

O evento que ocorreu e a direção do processo em andamento formam a base para a determinação racional do futuro. O passado irrevogável e a mudança em curso são os dois fatores aos quais vinculamos todas as nossas especulações a respeito do futuro. A probabilidade encontra-se no caráter do processo que está ocorrendo na experiência. Contudo, por mais avidamente que busquemos estruturas espaço-temporais que tragam consigo resultados dedutíveis, ainda assim reconhecemos relações entre as coisas em seus processos que não podem ser resolvidas em elementos quantitativos; e, embora tanto quanto possível as correlacionemos com caracteres mensuráveis, reconhecemo-las, em todo caso, como condições determinantes daquilo que está ocorrendo.

Buscamos seus antecedentes no passado e julgamos o futuro pela relação desse passado com aquilo que está ocorrendo. Todas essas relações dentro do processo em curso são relações determinantes daquilo que será, embora a forma específica dessa determinação constitua o problema científico de qualquer situação particular. A efetividade da determinação dentro da passagem da experiência direta é aquilo que Hume, por meio de suas pressuposições e de seu tipo de análise, eliminou da experiência, e é também aquilo que confere à dedução kantiana das categorias a validade que ela possui.

É tarefa da filosofia contemporânea colocar em congruência, de um lado, essa universalidade da determinação, que constitui o texto da ciência moderna, e, de outro, a emergência do novo, que pertence não apenas à experiência dos organismos sociais humanos, mas também é encontrada em uma natureza que a ciência e a filosofia que a seguiu separaram da natureza humana. A dificuldade que imediatamente se apresenta é que o emergente mal apareceu e já começamos a racionalizá-lo; isto é, procuramos mostrar que ele, ou ao menos as condições que determinam sua aparição, podem ser encontradas no passado que estava por trás dele.

Assim, os passados anteriores dos quais ele emergiu como algo que não o envolvia são incorporados em um passado mais abrangente que efetivamente conduz até ele. Ora, o que isso significa é que tudo o que acontece, inclusive o emergente, acontece sob condições determinantes — especialmente, do ponto de vista das ciências exatas, sob condições espaço-temporais que conduzem a conclusões dedutíveis acerca do que ocorrerá dentro de certos limites, mas também sob condições determinantes de natureza qualitativa, cujas garantias residem apenas na probabilidade —, embora essas condições jamais determinem completamente o “o que é” daquilo que ocorrerá.

A água, distinta das combinações de oxigênio e hidrogênio, pode surgir. A vida e a chamada consciência podem surgir. E os quanta podem surgir, embora se possa argumentar que tal surgimento se encontra em um “nível” diferente daquele da vida e da consciência. Quando esses emergentes apareceram, tornaram-se parte das condições determinantes que ocorrem em presentes reais, e estamos particularmente interessados em apresentar o passado que, na situação diante de nós, condicionou o aparecimento do emergente, especialmente de tal maneira que possamos conduzir a novas aparições desse objeto.

Orientamo-nos não com referência ao passado que foi um presente dentro do qual o emergente apareceu, mas em direção a uma reformulação do passado enquanto condicionante do futuro, para que possamos controlar seu reaparecimento. Quando a vida apareceu, pudemos reproduzir vida; e, dada a consciência, podemos controlar sua aparição e suas manifestações. Mesmo a descrição do passado dentro do qual o emergente apareceu é inevitavelmente feita do ponto de vista de um mundo dentro do qual o próprio emergente é tanto um fator condicionante quanto condicionado.

Não poderíamos trazer de volta esses presentes passados simplesmente tal como ocorreram — se é que estamos justificados em usar essa expressão — exceto como presentes. Uma apresentação exaustiva deles equivaleria apenas a revivê-los. Isto é, um presente deslizando para outro não conota aquilo que se entende por passado. Mas mesmo essa afirmação implica que houve tais presentes deslizando uns nos outros e, quer os consideremos desse ponto de vista ou não, parecemos implicar sua realidade enquanto tais, como a estrutura dentro da qual deve situar-se o tipo de passado que nos interessa, se ele é um aspecto do passado real.

Deixando de lado as ambiguidades que tal afirmação contém, o que quero enfatizar é que a irrevogabilidade do passado não deriva dessa concepção do passado. Pois, em nosso uso do termo irrevogabilidade, estamos apontando para aquilo que deve ter sido, e é uma estrutura e um processo no presente que constituem a fonte dessa necessidade. Certamente não podemos retornar a tal passado e testar nossas conjecturas por meio da inspeção efetiva de seus eventos em seu acontecer. Testamos nossas conjecturas acerca do passado pelas direções condicionantes do presente e pelos acontecimentos posteriores no futuro, os quais devem ser de certo tipo se o passado que concebemos realmente existiu.

A força da irrevogabilidade encontra-se, então, na extensão da necessidade com que aquilo que acaba de acontecer condiciona aquilo que está emergindo no futuro. O que ultrapassa isso pertence a um quadro metafísico que não tem interesse nos passados que surgem atrás de nós.

Na análise que empreendi, chegamos então, primeiro, à passagem dentro da qual aquilo que está ocorrendo condiciona aquilo que está surgindo. Tudo o que ocorre acontece sob condições necessárias. Em segundo lugar, essas condições, embora necessárias, não determinam em sua plena realidade aquilo que emerge. Estamos obtendo interessantes reflexos dessa situação a partir da crítica que o cientista faz de seus próprios métodos de alcançar a determinação exata da posição e da velocidade e das implicações dos quanta.

O que aparece nessa crítica é que, embora o cientista jamais abandone o condicionamento daquilo que ocorre por aquilo que aconteceu anteriormente, expresso em termos de probabilidade, ele se vê perfeitamente capaz de pensar como emergentes até mesmo aqueles eventos que estão sujeitos à determinação mais exata. Não estou tentando prever qual interpretação futura será dada às especulações de de Broglie, Schröder e Planck. Estou apenas indicando que, mesmo no campo da física matemática, o pensamento rigoroso não implica necessariamente que o condicionamento do presente pelo passado traga consigo a determinação completa do presente pelo passado.

Terceiro, na passagem, o condicionamento daquilo que está ocorrendo por aquilo que ocorreu, do presente pelo passado, está presente. O passado, nesse sentido, está no presente; e, naquilo que chamamos de experiência consciente, sua presença manifesta-se na memória e no aparato histórico que amplia a memória, como aquela parte da natureza condicionante da passagem que se reflete na experiência do indivíduo orgânico.

Se todos os objetos em um presente são condicionados pelos mesmos caracteres na passagem, seus passados são implicitamente os mesmos; mas se, para seguir uma sugestão tomada das especulações acerca dos quanta, um elétron dentre dois mil libera energia quando não há condições determinantes para a seleção desse elétron em vez dos outros mil novecentos e noventa e nove, é evidente que o passado tal como se manifesta na conduta desse elétron será de um tipo que nem sequer implicitamente será o mesmo que o dos outros naquele grupo, embora seu salto seja condicionado por tudo o que ocorreu antes.

Se, entre dois mil indivíduos sob condições sociais desagregadoras, um comete suicídio quando, tanto quanto se pode ver, um era tão propenso quanto outro a sucumbir, seu passado possui uma natureza particularmente pungente que está ausente do passado dos demais, embora seu suicídio seja uma expressão do passado. O passado está ali condicionando o presente e sua passagem para o futuro, mas, na organização de tendências incorporadas em um indivíduo, pode haver um emergente que confere a essas tendências uma estrutura que pertence apenas à situação desse indivíduo.

As tendências provenientes da passagem passada e do condicionamento inerente à passagem tornam-se influências diferentes quando assumem essa estrutura organizada de tendências. Isso seria tão verdadeiro para o equilíbrio entre processos de desagregação e aglomeração em uma estrela quanto para o ajustamento recíproco entre uma forma viva e seu ambiente. A relação estrutural em seu equilíbrio ou ajustamento recíproco organiza aqueles processos em passagem que se refletem retrospectivamente e nos conduzem a uma descrição da história da estrela.

Como Dewey sustentou, os eventos aparecem como histórias que possuem um desfecho, e, quando um processo histórico está ocorrendo, a organização das fases condicionantes do processo é o elemento novo que não é previsível a partir das fases separadas em si mesmas, e que imediatamente estabelece o cenário para um passado que conduz a esse resultado. A organização de qualquer coisa individual traz consigo a relação dessa coisa com processos que ocorreram antes que essa organização se estabelecesse. Nesse sentido, o passado dessa coisa é “dado” no presente em passagem da própria coisa, e nossas histórias das coisas são elaborações daquilo que está implícito nessa situação. Esse “dado” na passagem está ali e constitui o ponto de partida para uma estrutura cognitiva de um passado.

Quarto, esse caráter emergente, sendo responsável por uma relação entre processos em passagem, estabelece um passado dado que é, por assim dizer, uma perspectiva do objeto dentro da qual esse caráter aparece. Podemos conceber um objeto como, digamos, algum átomo de hidrogênio que permaneceu o que é através de períodos incomensuráveis em completo ajustamento ao seu entorno, que permaneceu real no deslizar de um presente para outro, ou melhor, em uma passagem contínua, ininterrupta e sem acontecimentos. Para tal objeto haveria existência ininterrupta, mas não passado, a menos que retornássemos à ocasião em que emergiu como átomo de hidrogênio.

Isso equivale a dizer que, onde o ser é existência mas não devir, não há passado, e que a determinação envolvida na passagem é uma condição do passado, mas não sua realização. A relação de passagem envolve naturezas distinguíveis nos eventos antes que passado, presente e futuro possam surgir, assim como a extensão é uma relação que envolve coisas físicas distinguíveis antes que um espaço estruturável possa surgir. O que torna um evento distinguível de outro é um devir que afeta a natureza interna do evento.

Parece-me que a extrema matematização da ciência recente, na qual a realidade do movimento é reduzida a equações em que a mudança desaparece numa identidade, e na qual espaço e tempo desaparecem em um contínuo quadridimensional de eventos indistinguíveis que não é nem espaço nem tempo, é um reflexo do tratamento do tempo como passagem sem devir.

O que é então um presente? A definição de Whitehead nos remeteria à extensão temporal da passagem dos eventos que compõem uma coisa, uma extensão suficientemente ampla para tornar possível que a coisa seja aquilo que é. A de um átomo de ferro não precisaria ser mais longa do que o período dentro do qual a revolução de cada um de seus elétrons em torno do núcleo se completa. O universo durante esse período constituiria uma duração do ponto de vista do átomo. O presente especioso de um indivíduo humano seria presumivelmente um período dentro do qual ele pudesse ser ele mesmo.

Do ponto de vista que sugeri, ele envolveria um devir. Deve haver ao menos algo que aconteça à coisa e nela, algo que afete sua natureza, para que um momento possa ser distinguido de outro, para que possa haver tempo. Mas há, em tal afirmação, um conflito entre princípios de definição. De um ponto de vista, estamos buscando aquilo que é essencial a um presente; de outro, estamos buscando o limite inferior em um processo de divisão.

Referir-me-ei primeiro a este último, pois ele envolve a questão da relação do tempo com a passagem — com aquilo dentro do qual o tempo parece situar-se e em termos de cuja extensão colocamos o tempo e comparamos tempos. A milésima parte de um segundo possui um significado real, e podemos conceber o universo afundando em um mar de entropia dentro do qual todo devir tenha cessado.

Estamos lidando aqui com uma abstração da extensão da mera passagem em relação ao tempo dentro do qual os eventos acontecem porque se tornam. No tratamento de Whitehead, isso é chamado de “abstração extensiva” e conduz a uma partícula-evento assim como a análise matemática conduz ao diferencial. E uma partícula-evento deveria ter a mesma relação com algo que se torna que o diferencial de uma mudança, tal como uma velocidade acelerada, tem com o processo inteiro.

Nessa medida, a abstração extensiva é um método de análise e integração e não requer outra justificação além de seu sucesso. Mas Whitehead a utiliza como método de abstração metafísica e encontra, no mero acontecer, o evento, a substância daquilo que se torna. Ele transfere o conteúdo daquilo que se torna para um mundo de “objetos eternos” que ingressam nos eventos sob o controle de um princípio situado fora de sua ocorrência.

Assim, embora a existência daquilo que ocorre seja encontrada no presente, o “o que é” daquilo que ocorre não surge do acontecer; ele acontece ao evento por meio do processo metafísico da ingressão. Isso me parece um uso impróprio da abstração, pois conduz a uma separação metafísica daquilo que foi abstraído em relação à realidade concreta da qual a abstração foi feita, em vez de deixá-lo como um instrumento no controle intelectual dessa realidade.

Bergson refere-se, penso eu, ao mesmo uso impróprio da abstração, em outro contexto, como a espacialização do tempo, contrastando a natureza exclusiva de tais momentos temporais com a interpenetração dos conteúdos da “duração” real.

Se, ao contrário, reconhecermos aquilo que se torna como o evento que, em sua relação com outros eventos, dá estrutura ao tempo, então a abstração da passagem em relação àquilo que está ocorrendo é puramente metodológica. Levamos nossa análise tão longe quanto o controle do objeto exige, mas sempre reconhecendo que aquilo que é abstraído possui sua realidade na integração daquilo que está ocorrendo.

Que esse é o resultado de definir o evento como aquilo que se torna é evidente, penso eu, na aplicação e no teste de nossas hipóteses mais abstrusas. Para terem valor e serem acreditadas, elas devem apresentar novos eventos surgindo de antigos, como a expansão ou contração do universo nas especulações de Einstein e Weyl acerca das aparentes recessões em velocidades enormes de nebulosas distantes, ou o arrancamento de elétrons dos núcleos atômicos no centro dos corpos estelares nas especulações de Jeans sobre a transformação da matéria em radiação.

E esses acontecimentos devem ajustar-se de tal modo às nossas descobertas experimentais que possam encontrar sua realidade na concreção daquilo que está ocorrendo em um presente efetivo. Os passados que eles estendem atrás de nós são tão hipotéticos quanto o futuro que nos ajudam a prever. Tornam-se válidos na interpretação da natureza na medida em que apresentam uma história de devires na natureza conduzindo àquilo que está se tornando hoje, na medida em que revelam aquilo que se ajusta ao padrão que emerge do estrondoso tear do tempo, e não na medida em que erigem entidades metafísicas que são o tênue reverso de um aparato matemático.

Se, na expressão de Bergson, a “duração real” torna-se tempo por meio do aparecimento de eventos únicos, distinguíveis entre si por sua natureza qualitativa — algo que é emergente em cada evento —, então a mera passagem é um modo de ordenar esses eventos. Mas o que é essencial a essa ordenação é que, em cada intervalo isolado, deve ser possível que algo se torne, que algo único surja. Estamos sujeitos a uma ilusão psicológica se supomos que o ritmo da contagem e a ordem que surge da contagem correspondem a uma estrutura da própria passagem, separada dos processos que entram em ordem por meio da emergência dos eventos.

Jamais alcançamos o próprio intervalo entre eventos, exceto em correlações entre eles e outras situações dentro das quais encontramos congruência e substituição, algo que nunca pode ocorrer na passagem enquanto tal. Alcançamos aquilo que pode ser chamado de igualdade funcional de intervalos representados dentro de processos que envolvem equilíbrio e ritmo, mas, com base nisso, estabelecer o tempo como uma quantidade dotada de uma natureza essencial que permite sua divisão em porções iguais de si mesmo constitui um uso injustificado da abstração.

Podemos reconstruir hipoteticamente os processos passados implicados naquilo que está ocorrendo como base para a construção cognitiva do futuro que está surgindo. Aquilo de que os dados experimentais nos asseguram é que compreendemos suficientemente o que está ocorrendo para prever o que terá lugar, não que tenhamos alcançado uma imagem correta do passado independente de qualquer presente, pois esperamos que essa imagem se altere à medida que novos eventos emergem.

Nessa atitude, estamos relacionando em nossa antecipação presentes que deslizam uns nos outros, e seus passados pertencem a eles. Eles precisam ser reconstruídos à medida que são incorporados em um novo presente e, como tais, pertencem a esse presente, e não mais ao presente do qual passamos para o presente atual.

Um presente, então, em contraste com a abstração da mera passagem, não é um pedaço recortado arbitrariamente da dimensão temporal de uma realidade uniformemente fluente. Sua principal referência é ao evento emergente, isto é, à ocorrência de algo que é mais do que os processos que conduziram até ele e que, por sua mudança, continuidade ou desaparecimento, acrescenta às passagens posteriores um conteúdo que elas de outro modo não possuiriam. A marca da passagem sem eventos emergentes é sua formulação em equações nas quais os chamados instantes desaparecem numa identidade, como apontou Meyerson.

Dado um evento emergente, suas relações com processos antecedentes tornam-se condições ou causas. Tal situação é um presente. Ela delimita e, em certo sentido, seleciona aquilo que tornou possível sua peculiaridade. Cria, com sua singularidade, um passado e um futuro. Tão logo a consideramos, ela se torna uma história e uma profecia. Seu próprio diâmetro temporal varia conforme a extensão do evento.

Pode haver uma história do universo físico como aparecimento de uma galáxia de galáxias. Há uma história de todo objeto que é único. Mas não haveria tal história do universo físico até que a galáxia aparecesse, e ela continuaria apenas enquanto a galáxia se mantivesse contra forças disruptivas e coesivas. Se perguntarmos qual pode ser a extensão temporal da singularidade responsável por um presente, a resposta deve ser, nos termos de Whitehead, que ela é um período suficientemente longo para permitir que o objeto seja aquilo que é.

Mas a questão é ambígua, pois o termo “extensão temporal” implica uma medida do tempo. O passado, tal como aparece com o presente e o futuro, é a relação do evento emergente com a situação da qual surgiu, e é o evento que define essa situação. A continuidade ou desaparecimento daquilo que surge é o presente passando para o futuro. Passado, presente e futuro pertencem a uma passagem que adquire estrutura temporal por meio do evento, e podem ser considerados longos ou curtos conforme sejam comparados com outras passagens desse tipo.

Mas, enquanto existentes na natureza — na medida em que tal afirmação tenha significado —, o passado e o futuro são os limites daquilo que denominamos presente e são determinados pelas relações condicionantes do evento com sua situação.

Os passados e futuros aos quais nos referimos estendem-se para além dessas relações contíguas na passagem. Nós os prolongamos na memória e na história, na antecipação e na previsão. Eles são eminentemente o campo da ideação e encontram seu locus naquilo que se chama mente. Embora estejam no presente, referem-se àquilo que não está nesse presente, como é indicado por sua relação com passado e futuro. Referem-se para além de si mesmos, e dessa referência surge sua natureza representacional.

Eles pertencem evidentemente a organismos, isto é, a eventos emergentes cuja natureza envolve a tendência de manter-se. Em outras palavras, sua situação envolve ajustamento voltado para um passado e sensibilidade seletiva voltada para um futuro. Aquilo que pode ser chamado de matéria da qual surgem as ideias são as atitudes desses organismos: hábitos, quando olhamos para o passado, e ajustamentos iniciais dentro do ato às consequências de suas respostas, quando olhamos para o futuro. Até aqui, esses elementos pertencem ao que pode ser chamado de passado e futuro imediatos.

Essa relação do evento com sua situação, do organismo com seu ambiente, juntamente com sua dependência mútua, conduz-nos à relatividade e às perspectivas nas quais ela aparece na experiência. A natureza do ambiente corresponde aos hábitos e atitudes seletivas dos organismos, e as qualidades pertencentes aos objetos do ambiente só podem ser expressas em termos das sensibilidades desses organismos. O mesmo é verdadeiro para as ideias.

O organismo, por meio de seus hábitos e atitudes antecipatórias, encontra-se relacionado àquilo que se estende para além de seu presente imediato. Aqueles caracteres das coisas que, na atividade do organismo, se referem ao que está além do presente assumem o valor daquilo a que se referem. O campo da mente, então, é o ambiente mais amplo requerido pela atividade do organismo, mas que transcende o presente.

O que está presente no organismo, contudo, é sua própria atividade nascente, e aquilo nele mesmo e no ambiente que a sustenta; e está presente também seu movimento vindo do passado e indo além do presente. Pertence ao chamado organismo consciente completar esse ambiente temporal mais amplo pelo uso de caracteres encontrados no presente. O mecanismo pelo qual a mente social realiza isso discutirei mais tarde; o que desejo destacar agora é que o campo da mente é a extensão temporal do ambiente do organismo, e que uma ideia reside no organismo porque o organismo utiliza aquilo em si mesmo que se move para além de seu presente para ocupar o lugar daquilo em direção ao qual sua própria atividade tende.

Aquilo no organismo que fornece a ocasião para a mente é a atividade que alcança para além do presente dentro do qual o organismo existe.

Mas, em uma descrição como esta, estive implicitamente estabelecendo esse período mais amplo dentro do qual, digamos, um organismo inicia e completa sua história como estando ali aparentemente em independência de qualquer presente; e meu propósito é insistir na proposição oposta, a saber, que esses períodos mais amplos não podem ter realidade exceto na medida em que existam em presentes, e que todas as suas implicações e valores estão aí localizados.

Isso nos remete, primeiro, ao fato evidente de que todo o aparato do passado — imagens da memória, monumentos históricos, restos fósseis e semelhantes — está em algum presente; e, segundo, àquela porção do passado que está ali na passagem da experiência, conforme determinada pelo evento emergente. Remete-nos, terceiro, ao teste necessário da formulação do passado nos eventos que surgem na experiência. O passado de que falamos situa-se, com todos os seus caracteres, dentro desse presente.

Há, entretanto, a implicação assumida de que esse presente se refere a entidades que possuem uma realidade independente deste e de qualquer outro presente, cujos detalhes completos, embora evidentemente além de qualquer recuperação, são inevitavelmente pressupostos. Ora, há uma confusão entre tal suposição metafísica e o fato evidente de que somos incapazes de revelar tudo o que está implicado em qualquer presente.

Aqui estamos com Newton diante de um mar sem limites, recolhendo apenas os seixos de sua praia. Não há nada de transcendente nessa impotência de nossas mentes para esgotar qualquer situação. Todo avanço rumo a um conhecimento maior simplesmente amplia o horizonte da experiência, mas tudo permanece dentro da experiência concebível.

Uma mente maior do que a de Newton ou Einstein revelaria na experiência, no mundo que está aí, estruturas e processos que não conseguimos encontrar nem sequer esboçar. Ou tomemos a concepção de Bergson segundo a qual todas as nossas memórias, ou todas as ocorrências sob a forma de imagens, acorrem sobre nós e são contidas por um sistema nervoso central. Tudo isso é concebível em um presente cuja riqueza integral estivesse à disposição desse próprio presente.

Isso não significa que os éons revelados nessas estruturas e processos, ou as histórias que essas imagens conotam, desenrolar-se-iam em um presente temporalmente tão extenso quanto sua formulação implica. Significa, na medida em que tal concepção ou imaginação desenfreada possa ter sentido, que teríamos uma riqueza inconcebível oferecida à nossa análise na abordagem de qualquer problema surgido na experiência.

O passado na passagem é irrecuperável assim como irrevogável. Ele está produzindo toda a realidade que existe. O significado daquilo que é é iluminado e ampliado diante do emergente na experiência, como (a+b) elevado à vigésima quinta potência pelo teorema binomial, pela expansão da passagem que está ocorrendo.

Dizer que a Declaração de Independência foi assinada em 4 de julho de 1776 significa que, no sistema temporal que carregamos conosco e com a formulação de nossos hábitos políticos, essa data reaparece em nossas celebrações. Sendo aquilo que somos no mundo social e físico que habitamos, damos conta do que ocorre nesse cronograma temporal, mas, como tabelas de horários ferroviários, ele está sempre sujeito a mudanças sem aviso prévio. Cristo nasceu quatro anos antes de d.C.

Nossa referência é sempre à estrutura do presente, e nosso teste da formulação que fazemos é sempre o de realizar com sucesso nossos cálculos e observações em um futuro em ascensão. Se dizemos que algo aconteceu em tal data, quer possamos especificá-la ou não, devemos querer dizer que, se em imaginação nos colocássemos de volta na data suposta, teríamos tido tal experiência; mas não é disso que nos ocupamos quando elaboramos a história do passado. O que requer iluminação e direção é o significado daquilo que está ocorrendo na ação ou na apreciação, devido ao aparecimento constante do novo, de cujo ponto de vista nossa experiência exige uma reconstrução que inclua o passado.

A melhor abordagem desse significado encontra-se no mundo dentro do qual nossos problemas surgem. Suas coisas são coisas duradouras que são aquilo que são devido ao caráter condicionante da passagem. Seu passado está naquilo que elas são. Tal passado não é eventual. Quando elaboramos a história de uma árvore cuja madeira se encontra nas cadeiras em que nos sentamos, desde a diatomácea até o carvalho recentemente abatido, essa história gira em torno da constante reinterpretação de fatos que surgem continuamente; nem esses fatos novos devem ser encontrados simplesmente no impacto de experiências humanas mutáveis sobre um mundo que está aí.

Pois, em primeiro lugar, as experiências humanas fazem tanto parte desse mundo quanto quaisquer de suas outras características, e o mundo é um mundo diferente por causa dessas experiências. E, em segundo lugar, em qualquer história que construamos somos forçados a reconhecer a mudança na relação entre a passagem condicionante e o evento emergente, naquela parte do passado que pertence à passagem, mesmo quando essa passagem não é expandida na ideação.

O resultado do que disse é que a avaliação e o significado de todas as histórias residem na interpretação e no controle do presente; que, enquanto estruturas ideacionais, elas surgem sempre da mudança, que é parte tão essencial da realidade quanto o permanente, e dos problemas que a mudança acarreta; e que a exigência metafísica de um conjunto de eventos que esteja inalteravelmente presente em um passado irrevogável, ao qual essas histórias procuram aproximar-se continuamente, remete a motivos diversos daqueles em operação na pesquisa científica mais exata.

Notas do Capítulo.

Estas páginas foram encontradas entre os papéis do Sr. Mead após sua morte. Parecem ter sido escritas mais tarde do que o capítulo ao qual estão aqui anexadas, possivelmente como resultado de uma discussão crítica a seu respeito em uma reunião do Philosophy Club da Universidade de Chicago em janeiro de 1931.

As durações são um contínuo deslizar de presentes uns nos outros. O presente é uma passagem constituída por processos cujas fases anteriores determinam, em certos aspectos, suas fases posteriores. A realidade, então, está sempre em um presente. Quando o presente passou, ele já não é mais. Surge a questão de saber se o passado que emerge na memória e na projeção desta ainda mais para trás refere-se a eventos que existiram como tais presentes contínuos passando uns nos outros, ou àquela fase condicionante do presente em passagem que nos permite determinar a conduta com referência ao futuro que também está surgindo no presente. É esta última tese que sustento.

A implicação de minha posição é que o passado é uma construção tal que a referência encontrada nele não é a eventos que possuam uma realidade independente do presente, que é a sede da realidade, mas antes a uma interpretação do presente em sua passagem condicionante que permitirá à conduta inteligente prosseguir. É naturalmente evidente que os materiais a partir dos quais esse passado é construído encontram-se no presente. Refiro-me às imagens da memória e às evidências por meio das quais construímos o passado, e ao fato de que qualquer reinterpretação da imagem que formamos do passado será encontrada em um presente e será julgada pelos caracteres lógicos e probatórios que tais dados possuem em um presente.

Também é evidente que não há apelo possível a partir desses elementos em seu locus presente para um passado real que esteja desenrolado atrás de nós como um pergaminho e ao qual possamos recorrer para verificar nossas construções. Não estamos decifrando um manuscrito cujas passagens possam tornar-se inteligíveis em si mesmas e permanecer como apresentações seguras daquela porção do que ocorreu anteriormente, a serem suplementadas por construções finais posteriores de outras passagens.

Não estamos contemplando um passado último e imutável que possa estar estendido atrás de nós em sua totalidade, sem estar sujeito a novas mudanças. Nossas reconstruções do passado variam em sua extensão, mas jamais contemplam a finalidade de seus resultados. Estão sempre sujeitas a reformulações concebíveis, diante da descoberta de novas evidências, e essa reformulação pode ser completa. Mesmo as imagens de memória mais vívidas podem estar erradas.

Em suma, nossas certezas acerca do passado jamais são alcançadas por uma congruência entre o passado construído e um passado real independente dessa construção, embora carreguemos essa atitude no fundo de nossas mentes, porque de fato submetemos nossas reconstruções hipotéticas imediatas ao teste do passado aceito e as julgamos segundo sua concordância com o registro aceito; mas esse passado aceito situa-se em um presente e está ele próprio sujeito a possível reconstrução.

Ora, é possível aceitar tudo isso, admitindo plenamente que nenhum item do passado aceito é definitivo, e ainda assim sustentar que permanece uma referência, em nossa formulação do evento passado, a algo que aconteceu e que jamais poderemos ressuscitar no conteúdo da realidade, algo que pertenceu ao evento no presente dentro do qual ocorreu.

Isso equivale a dizer que existe atrás de nós um pergaminho de presentes transcorridos, ao qual nossas construções do passado se referem, embora sem a possibilidade de jamais alcançá-lo, e sem a expectativa de que nossas contínuas reconstruções se aproximem dele com precisão crescente. E isso me leva ao ponto em questão.

Tal pergaminho, se fosse alcançado, não seria a descrição que nossos passados requerem. Se pudéssemos trazer de volta o presente transcorrido na realidade que lhe pertenceu, ele não nos serviria. Ele seria aquele presente e careceria precisamente daquele caráter que exigimos do passado, isto é, daquela construção da natureza condicionante da passagem agora presente que nos permite interpretar aquilo que está surgindo no futuro pertencente a este presente.

Quando alguém recorda os dias de sua infância, não consegue entrar neles tal como então era, sem sua relação com aquilo em que se tornou; e, se pudesse — isto é, se pudesse reproduzir a experiência tal como então ocorreu —, não poderia utilizá-la, pois isso envolveria não estar no presente dentro do qual esse uso deve ocorrer. Uma sequência de presentes concebivelmente existentes enquanto presentes jamais constituiria um passado.

Se então existe tal referência, ela não é a uma entidade que pudesse ajustar-se a qualquer passado, e não posso acreditar que a referência, no passado tal como experimentado, seja a algo que não possuísse a função ou o valor que em nossa experiência pertencem a um passado. Não estamos nos referindo a um evento passado real que não fosse o evento passado que buscamos.

Outra maneira de dizer isso é que nossos passados são sempre mentais da mesma maneira que os futuros que se encontram diante de nós em nossa imaginação são mentais. Eles diferem, à parte suas posições sucessivas, em que as condições determinantes da interpretação e da conduta estão incorporadas no passado tal como ele é encontrado no presente, mas estão sujeitos ao mesmo teste de validade ao qual nossos futuros hipotéticos estão sujeitos. E a novidade de cada futuro exige um passado novo.

Isso, contudo, deixa de lado um importante caráter de qualquer passado, e este é que nenhum passado que possamos construir pode ser tão adequado quanto a situação exige. Há sempre uma referência a um passado que não pode ser alcançado, e ainda assim consonante com a função e o significado de um passado.

É sempre concebível que as implicações do presente fossem levadas mais longe do que de fato as levamos, e mais longe do que possivelmente podemos levá-las. Há sempre mais conhecimento que seria desejável para a solução de qualquer problema que nos confronta, mas que não podemos alcançar. Com a obtenção concebível desse conhecimento, sem dúvida construiríamos um passado mais verdadeiro em relação ao presente dentro do qual se encontram as implicações desse passado.

E é a esse passado que há sempre uma referência dentro de cada passado que se apresenta imperfeitamente à nossa investigação. Se possuíssemos todo documento possível e todo monumento possível do período de Júlio César, sem dúvida teríamos uma imagem mais verdadeira do homem e do que ocorreu em sua época, mas seria uma verdade pertencente a este presente, e um presente posterior a reconstruiria do ponto de vista de sua própria natureza emergente.

Podemos então conceber um passado que, em qualquer presente determinado, seria irrefutável. Na medida em que esse presente estivesse em questão, ele seria um passado final; e, se considerarmos atentamente o assunto, penso que é a esse passado que se refere aquilo que ultrapassa a formulação que o historiador pode fornecer e que somos propensos a supor ser um passado independente do presente.

 
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from Nomos

Por John Dewey em Liberdade e Cultura (EUA, 1939).

O que é liberdade e por que ela é tão valorizada? O desejo de liberdade é inerente à natureza humana ou é produto de circunstâncias especiais? Ela é desejada como um fim em si mesma ou como um meio para se obter outras coisas? Sua posse implica responsabilidades, e essas responsabilidades são tão onerosas que a maioria das pessoas abriria mão da liberdade em prol de maior conforto? A luta pela liberdade é tão árdua que a maioria das pessoas se distrai facilmente do esforço para conquistá-la e mantê-la? A liberdade em si e tudo o que ela proporciona parece tão importante quanto a segurança do sustento; quanto comida, abrigo, vestuário ou mesmo se divertir? O homem já se importou tanto com ela quanto nos ensinaram a acreditar neste país? Há alguma verdade na antiga noção de que a força motriz da história política foi o esforço do homem comum para alcançar a liberdade? Nossa própria luta pela independência política foi, de fato, motivada pelo desejo de liberdade, ou havia uma série de desconfortos dos quais nossos ancestrais queriam se livrar, coisas que não tinham nada em comum além de serem consideradas problemáticas?

Será que o amor à liberdade é algo mais do que um desejo de se libertar de alguma restrição específica? E quando essa restrição é eliminada, o desejo de liberdade se dissipa até que algo mais se torne intolerável? Além disso, como se compara, em intensidade, o desejo de liberdade com o desejo de se sentir igual aos outros, especialmente àqueles que antes eram considerados superiores? Como se comparam os frutos da liberdade com os prazeres que brotam de um sentimento de união, de solidariedade, com os outros? Estarão os homens dispostos a renunciar às suas liberdades se acreditarem que, ao fazê-lo, obterão a satisfação que advém de um sentimento de fusão com os outros e do respeito alheio, produto da força proporcionada pela solidariedade?

O estado atual do mundo coloca questões como essas aos cidadãos de todos os países democráticos. Coloca-as com especial força em nós, em um país onde as instituições democráticas estão intrinsecamente ligadas a uma certa tradição, cuja “ideologia” é a expressão clássica da Declaração de Independência. Essa tradição nos ensinou que a conquista da liberdade é o objetivo da história política; que o autogoverno é o direito inerente dos homens livres e é aquilo que, uma vez alcançado, os homens prezam acima de tudo. Contudo, ao observarmos o mundo, vemos instituições supostamente livres em muitos países não tanto derrubadas, mas abandonadas voluntariamente, aparentemente com entusiasmo. Podemos inferir que o ocorrido é a prova de que elas nunca existiram na realidade, mas apenas de nome. Ou podemos nos consolar com a crença de que circunstâncias incomuns, como a frustração e a humilhação nacional, levaram os homens a acolher qualquer tipo de governo que prometesse restaurar o respeito próprio nacional. Mas as condições em nosso país, assim como o declínio da democracia em outros países, nos obrigam a questionar a trajetória e o destino das sociedades livres, inclusive a nossa.

Talvez tenha havido um tempo em que as perguntas feitas parecessem ser principalmente ou exclusivamente políticas. Agora sabemos mais. Pois sabemos que grande parte das causas que produziram as condições expressas nas perguntas reside na dependência da política em relação a outras forças, notadamente a econômica. O problema da constituição da natureza humana está envolvido, visto que faz parte de nossa tradição que o amor à liberdade é inerente à sua essência. Será a psicologia popular da democracia um mito? A antiga doutrina sobre a natureza humana também estava ligada à crença ética de que a democracia política é um direito moral e que as leis em que se baseia são leis morais fundamentais que toda forma de organização social deve obedecer. Se a crença nos direitos naturais e nas leis naturais como fundamento do governo livre for abandonada, este último terá alguma outra base moral? Embora seja insensato acreditar que as colônias americanas travaram as batalhas que garantiram sua independência e que construíram seu governo consciente e deliberadamente sobre uma base de teorias psicológicas e morais, a tradição democrática, seja ela um sonho ou uma visão perspicaz, estava tão intimamente ligada a crenças sobre a natureza humana e sobre os fins morais que as instituições políticas deveriam servir, que um choque brutal ocorre quando essas relações se rompem. Haverá algo que possa substituí-las, algo que ofereça o tipo de apoio que outrora proporcionavam?

Os problemas subjacentes às perguntas formuladas, as forças que lhes conferem urgência, transcendem as crenças particulares que formaram o alicerce psicológico e moral inicial da democracia. Após se aposentar da vida pública, Thomas Jefferson, em sua velhice, manteve uma amistosa correspondência filosófica com John Adams. Em uma de suas cartas, ele fez uma declaração sobre as condições americanas da época e expressou uma esperança quanto ao futuro do país: “O avanço do liberalismo alimenta a esperança de que a mente humana um dia retorne à liberdade que desfrutava há dois mil anos. Este país, que deu ao mundo o exemplo da liberdade física, deve-lhe também o da emancipação moral, pois, até o momento, ela ainda é apenas nominal entre nós. A inquisição da opinião pública, na prática, supera a liberdade teoricamente afirmada pelas leis.” A situação que se desenvolveu desde então pode muito bem nos levar a inverter as ideias que ele expressou e a questionar se a liberdade política pode ser mantida sem a liberdade cultural que ele esperava ser o resultado final da liberdade política. Já não é fácil alimentar a esperança de que, dada a liberdade política como a única coisa necessária, todas as outras coisas lhe serão acrescentadas com o tempo — e, consequentemente, a nós. Pois agora sabemos que as relações que existem entre as pessoas, fora das instituições políticas — relações de indústria, de comunicação, de ciência, de arte e de religião — afetam as associações diárias e, por conseguinte, influenciam profundamente as atitudes e os hábitos expressos no governo e nas normas jurídicas. Se é verdade que o político e o jurídico reagem para moldar as outras coisas, é ainda mais verdade que as instituições políticas são um efeito, e não uma causa.

É esse conhecimento que define o tema a ser discutido. Pois esse complexo de condições que rege os termos em que os seres humanos se associam e vivem juntos se resume na palavra Cultura. O problema é saber que tipo de cultura é tão livre em si mesma que concebe e gera a liberdade política como seu acompanhamento e consequência. O que dizer do estado da ciência e do conhecimento; das artes, belas artes e tecnologia; das amizades e da vida familiar; dos negócios e das finanças; das atitudes e disposições criadas na troca das relações cotidianas? Independentemente da constituição inata da natureza humana, suas atividades laborais, aquelas que respondem a instituições e regras e que, em última análise, moldam o padrão destas, são criadas por todo o conjunto de ocupações, interesses, habilidades e crenças que constituem uma determinada cultura. À medida que esta se transforma, especialmente à medida que se torna complexa e intrincada, como ocorreu com a vida americana desde a formação de nossa organização política, novos problemas substituem aqueles que governavam a formação e a distribuição anteriores dos poderes políticos. A ideia de que o amor à liberdade é tão inerente ao homem que, se lhe for dada a oportunidade pela abolição das opressões exercidas pela Igreja e pelo Estado, produzirá e manterá instituições livres já não se sustenta. Essa ideia surgiu naturalmente quando os colonizadores de um novo país sentiram que a distância que haviam criado entre si e as forças que os oprimiam simbolizava, na prática, tudo o que se interpunha entre eles e a conquista permanente da liberdade. Agora, somos obrigados a reconhecer que são necessárias condições positivas, que constituam o estado atual da cultura. A libertação das opressões e repressões que existiam anteriormente representou uma transição necessária, mas as transições são apenas pontes para algo diferente.

Os primeiros republicanos foram obrigados, ainda em sua época, a observar que as condições gerais, como as resumidas sob o nome de cultura, tinham muito a ver com as instituições políticas. Pois eles sustentavam que as opressões do Estado e da Igreja exerciam uma influência corruptora sobre a natureza humana, de modo que o impulso original para a liberdade havia se perdido ou se deformado. Isso era praticamente uma admissão de que as circunstâncias externas podiam ser mais fortes do que as tendências inatas. Demonstrava um grau de plasticidade na natureza humana que exigia o exercício de uma solicitude contínua — expressa no ditado de que a vigilância eterna é o preço da liberdade. Os Pais Fundadores estavam cientes de que o amor ao poder é uma característica da natureza humana, tão forte que barreiras definidas precisavam ser erguidas para impedir que pessoas em posições de autoridade oficial usurpassem os limites das instituições livres. Admitir que os homens podem ser levados, por um longo hábito, a se agarrarem às suas correntes implica a crença de que uma segunda natureza, ou natureza adquirida, é mais forte do que a natureza original.

Jefferson foi além disso. Seu temor em relação ao crescimento da indústria e do comércio, aliado à sua preferência por atividades agrárias, equivalia à aceitação da ideia de que os interesses gerados por certas atividades podem alterar fundamentalmente a natureza humana original e as instituições que lhe são compatíveis. É evidente que o desenvolvimento que Jefferson temia se concretizou, e em uma escala muito maior do que ele poderia ter previsto. Hoje, enfrentamos as consequências da transformação de um povo agrícola e rural em uma população urbana e industrial.

A prova decisiva demonstra que os fatores econômicos são parte intrínseca da cultura, determinando o rumo das medidas e regras políticas, independentemente das crenças verbais. Embora posteriormente tenha se tornado comum obscurecer a conexão existente entre economia e política, e até mesmo repreender aqueles que a destacavam, Madison, assim como Jefferson, estava bem ciente dessa conexão e de sua influência sobre a democracia. Contudo, o conhecimento de que essa conexão exigia uma distribuição equitativa da propriedade e a prevenção do surgimento de extrema pobreza e extrema riqueza era diferente do reconhecimento explícito de uma relação tão íntima entre cultura e natureza que a primeira pode moldar os padrões de pensamento e ação.

As relações e os hábitos econômicos não podem ser analisados isoladamente, assim como as instituições políticas. O estado do conhecimento da natureza, ou seja, da ciência física, é uma fase da cultura da qual dependem diretamente a indústria e o comércio, a produção e distribuição de bens e a regulação de serviços. A menos que levemos em conta o surgimento da nova ciência da natureza no século XVII e seu desenvolvimento até o estado atual, nossos mecanismos econômicos de produção e distribuição e, em última instância, de consumo, não podem ser compreendidos. A conexão entre os eventos da revolução industrial e os da revolução científica subsequente é um testemunho incontestável.

Não tem sido comum incluir as artes, especialmente as belas artes, como parte importante das condições sociais que influenciam as instituições democráticas e a liberdade individual. Mesmo após admitir a influência do setor industrial e das ciências naturais, ainda tendemos a traçar uma linha divisória na ideia de que a literatura, a música, a pintura, o teatro e a arquitetura tenham qualquer ligação íntima com as bases culturais da democracia. Mesmo aqueles que se autodenominam bons democratas muitas vezes se contentam em considerar os frutos dessas artes como adornos da cultura, em vez de algo cujo desfrute todos deveriam poder desfrutar, se a democracia quiser ser uma realidade. A situação nos países totalitários pode nos levar a rever essa opinião. Pois demonstra que, independentemente dos impulsos e forças que levam o artista a criar sua obra, as obras de arte, uma vez criadas, são o meio de comunicação mais poderoso para despertar emoções e formar opiniões. O teatro, o cinema e a casa de espetáculos, até mesmo a galeria de arte, a eloquência, os desfiles populares, os esportes comuns e as instituições de lazer, tudo foi submetido à regulamentação como parte dos mecanismos de propaganda que mantêm a ditadura no poder sem que as massas a considerem opressiva. Estamos começando a perceber que as emoções e a imaginação são mais poderosas na formação do sentimento e da opinião pública do que a informação e a razão.

De fato, muito antes da crise atual surgir, já existia um ditado que dizia que, se alguém controlasse as canções de uma nação, não precisaria se preocupar com quem fazia suas leis. E o estudo da história mostra que as religiões primitivas devem seu poder de determinar crenças e ações à sua capacidade de alcançar emoções e imaginação por meio de ritos e cerimônias, lendas e folclore, tudo revestido das características que marcam as obras de arte. A Igreja, que teve de longe a maior influência no mundo moderno, apropriou-se desses mecanismos de apelo estético e os incorporou à sua própria estrutura, adaptando-os ao seu propósito de conquistar e manter a lealdade das massas.

Um regime totalitário se compromete com o controle total da vida de todos os seus súditos, exercendo domínio sobre sentimentos, desejos, emoções e opiniões. Isso, de fato, é uma mera obviedade, visto que um Estado totalitário precisa ser total. Mas, a menos que levemos isso em consideração, não conseguiremos apreciar a intensidade do ressurgimento da guerra entre Estado e Igreja que existe na Alemanha e na Rússia. O conflito não é expressão do capricho de um líder. É inerente a qualquer regime que exija a lealdade total de todos os seus súditos. Ele deve, antes de tudo, e sobretudo, para ser permanente, cativar a imaginação, com todos os impulsos e motivações que costumamos chamar de internos. As organizações religiosas são aquelas que governam por meio desses mecanismos e, por essa razão, são concorrentes intrínsecas de qualquer Estado político que trilhe o caminho totalitário. Assim, as mesmas coisas que nos parecem, nos países democráticos, os aspectos mais repugnantes do Estado totalitário são justamente as que seus defensores o recomendam. São as coisas cuja ausência eles denunciam nos países democráticos. Pois dizem que a incapacidade de envolver toda a composição dos cidadãos, tanto emocional quanto ideológica, condena os estados democráticos a empregar meramente artifícios externos e mecânicos para manter o apoio leal de seus cidadãos. Podemos considerar tudo isso como sintoma de uma alucinação coletiva, que por vezes parece ter dominado populações inteiras. Mesmo assim, devemos reconhecer a influência desse fator se quisermos escapar da ilusão coletiva de que o totalitarismo se baseia unicamente na coerção externa.

Finalmente, o fator moral é parte intrínseca do complexo de forças sociais chamado cultura. Pois, independentemente de se compartilhar ou não da visão, atualmente defendida por diferentes grupos com base em diferentes argumentos, de que não há fundamento ou justificativa científica para convicções e julgamentos morais, é certo que os seres humanos prezam algumas coisas mais do que outras e que lutam por aquilo que valorizam, dedicando tempo e energia a isso: fazendo-o, aliás, a tal ponto que a melhor medida que temos do que é valorizado é o esforço despendido em sua defesa. Não só isso, mas para que um grupo de pessoas forme algo que possa ser chamado de comunidade em seu sentido pleno, é necessário que haja valores prezados em comum. Sem eles, qualquer suposto grupo social, classe, povo ou nação tende a se desintegrar em moléculas com conexões meramente impostas entre si. Pelo menos por ora, não precisamos questionar se os valores são morais, possuindo uma espécie de vida e potência próprias, ou se são apenas subprodutos do funcionamento de outras condições, biológicas, econômicas ou quaisquer outras.

A ressalva parecerá, de fato, bastante supérflua para a maioria, tão habituadas estão as pessoas a acreditar, pelo menos nominalmente, que as forças morais são os determinantes últimos da ascensão e queda de todas as sociedades humanas — enquanto a religião ensinou muitos a crer que as forças cósmicas, assim como as sociais, são reguladas em prol de fins morais. A ressalva se faz necessária, contudo, devido à existência de uma corrente filosófica que defende que as opiniões sobre os valores que regem a conduta carecem de qualquer fundamento científico, uma vez que (segundo eles) as únicas coisas que podem ser conhecidas são os eventos físicos. A negação de que os valores tenham qualquer influência no curso dos acontecimentos a longo prazo também é característica da crença marxista de que as forças produtivas controlam, em última instância, todas as relações humanas. A ideia da impossibilidade da regulação intelectual de ideias e juízos sobre valores é compartilhada por diversos intelectuais que se deixaram deslumbrar pelo sucesso das ciências matemáticas e físicas. Essas últimas observações sugerem que há pelo menos um outro fator na cultura que merece atenção: a existência de correntes de filosofia social, de ideologias concorrentes.

A intenção da discussão anterior deve ser óbvia. O problema da liberdade e das instituições democráticas está ligado à questão de que tipo de cultura existe; à necessidade de uma cultura livre para que existam instituições políticas livres. A importância dessa conclusão vai muito além do seu contraste com a crença mais simples daqueles que formularam a tradição democrática. A questão da psicologia humana, da constituição da natureza humana em seu estado original, está envolvida. Está envolvida não apenas de forma geral, mas também em relação aos seus componentes específicos e à sua importância nas relações entre si. Pois toda filosofia social e política atualmente professada, após exame, revelará que envolve uma certa visão sobre a constituição da natureza humana: em si mesma e em sua relação com a natureza física. O que é verdade sobre esse fator é verdade sobre todos os fatores da cultura, de modo que não precisam ser listados novamente aqui, embora seja necessário tê-los todos em mente se quisermos apreciar a variedade de fatores envolvidos no problema da liberdade humana.

A questão da relação entre este ou aquele componente da cultura e as instituições sociais em geral, e a democracia política em particular, raramente é abordada. No entanto, essa questão é tão fundamental para qualquer análise crítica dos princípios de cada uma delas que alguma conclusão sobre o assunto acaba por definir a posição adotada em cada questão específica. A questão é se algum dos fatores é tão predominante a ponto de ser a força causal, de modo que os outros fatores sejam efeitos secundários e derivados. Geralmente, a resposta encontrada segue uma linha que os filósofos denominam monista. O exemplo mais óbvio é a crença de que as condições econômicas são, em última análise, as forças controladoras das relações humanas. Talvez seja significativo que essa visão seja relativamente recente. No auge do século XVIII, o Iluminismo, a visão predominante, conferia supremacia final à razão, ao avanço da ciência e à educação. Mesmo durante o século passado, prevalecia uma visão expressa no lema de uma certa escola de historiadores: “A história é a política do passado e a política é a história do presente”.

Devido à atual tendência das explicações econômicas, essa visão política pode agora parecer ter sido uma mania de um grupo específico de historiadores. Mas, afinal, ela apenas formulou uma ideia que foi consistentemente posta em prática durante o período de formação dos Estados nacionais. É possível considerar a ênfase atual nos fatores econômicos como uma espécie de vingança intelectual pela negligência quase total que sofreu no passado. A própria expressão “economia política” sugere o quão completamente as considerações econômicas foram outrora subordinadas às políticas. O livro que foi influente para pôr fim a essa submissão, A Riqueza das Nações, de Adam Smith, deu continuidade, em seu título, embora não em seu conteúdo, à tradição mais antiga. No período grego, vemos que Aristóteles confere ao fator político um poder tão grande que todas as atividades econômicas normais são relegadas ao âmbito doméstico, de modo que toda prática econômica moralmente justificável é, literalmente, economia doméstica. E apesar da recente popularidade da teoria marxista, Oppenheimer produziu um conjunto considerável de evidências em apoio à tese de que os estados políticos são o resultado de conquistas militares nas quais os povos derrotados se tornaram súditos de seus conquistadores, que, ao assumirem o domínio sobre os conquistados, deram origem aos primeiros estados políticos.

A ascensão dos estados totalitários não pode, pelo simples fato de serem totalitários, ser considerada uma mera regressão à antiga teoria da supremacia do fator institucional político. Contudo, em comparação com as teorias que subordinaram o político ao econômico, seja na forma marxista ou na da escola clássica britânica, ela representa uma regressão a ideias e, ainda mais, a práticas que se supunha terem desaparecido para sempre da conduta de qualquer estado moderno. E essas práticas foram revividas e ampliadas com o benefício da técnica científica de controle da indústria, das finanças e do comércio, de maneiras que demonstram que os antigos funcionários governamentais que adotaram a economia “mercantilista” em nome do governo eram os maiores incompetentes em seu trabalho declarado.

A ideia de que a moral deveria ser, mesmo que não o seja, a suprema reguladora dos assuntos sociais não é tão difundida como já foi, e há circunstâncias que corroboram a conclusão de que, quando as forças morais eram tão influentes quanto se supunha, era porque a moral era idêntica aos costumes que, de fato, regulavam as relações entre os seres humanos. Contudo, a ideia de que a adoção, por exemplo, da Regra de Ouro, eliminaria rapidamente toda a discórdia e os problemas sociais ainda é propagada por sermões e editoriais da imprensa; e, enquanto escrevo, os jornais noticiam o progresso de uma campanha por algo chamado “rearmamento moral”. Em um nível mais profundo, a questão levantada sobre a suposta identidade da ética com os costumes estabelecidos suscita a pergunta de se o efeito da desintegração dos costumes que, por muito tempo, mantiveram os homens unidos em grupos sociais pode ser superado senão pelo desenvolvimento de novas tradições e costumes geralmente aceitos. Esse desenvolvimento, sob essa perspectiva, seria equivalente à criação de uma nova ética.

Contudo, tais questões são aqui levantadas devido à ênfase que conferem à questão já apresentada: existe algum fator ou fase da cultura que seja dominante, ou que tenda a produzir e regular outros, ou a economia, a moral, a arte, a ciência, e assim por diante, são apenas aspectos da interação de diversos fatores, cada um dos quais age sobre os outros e é afetado por eles? Na linguagem profissional da filosofia: nosso ponto de vista deve ser monista ou pluralista? A mesma questão se repete, além disso, em relação a cada um dos fatores listados: — sobre a economia, sobre a política, sobre a ciência, sobre a arte. Ilustrarei aqui o ponto não com base em nenhuma dessas coisas, mas em teorias que, em diferentes momentos, influenciaram a compreensão da natureza humana. Pois essas teorias psicológicas foram marcadas por sérias tentativas de fazer de algum componente da natureza humana a fonte da motivação da ação; ou, pelo menos, de reduzir toda a conduta à ação de um pequeno número de supostas “forças” inatas. Um exemplo relativamente recente foi a adoção, pela escola clássica da teoria econômica, do autointeresse como a principal força motivadora do comportamento humano; Uma ideia ligada, em seu aspecto técnico, à noção de que o prazer e a dor são as causas e os fins de toda conduta humana consciente, no desejo de obter um e evitar o outro. Havia também a visão de que o interesse próprio e a compaixão são os dois componentes da natureza humana, enquanto tendências centrífugas e centrípetas opostas e equilibradas são as forças motrizes da natureza celeste.

Atualmente, o candidato ideológico e psicológico preferido para o controle da atividade humana é o amor pelo poder. As razões para essa escolha não são difíceis de encontrar. O sucesso na busca pelo lucro econômico mostrou-se, em grande parte, condicionado à posse de poder superior, enquanto o sucesso reagiu ao aumento do poder. Além disso, a ascensão dos Estados nacionais foi acompanhada por uma organização tão vasta e flagrante das forças militares e navais que a política se tornou cada vez mais marcadamente política de poder, levando à conclusão de que não existe outra forma de política, embora no passado o elemento poder tenha sido mais discretamente disfarçado. Uma interpretação da luta darwiniana pela existência e sobrevivência do mais apto foi usada como suporte ideológico; e alguns autores, notadamente Nietzsche (embora não na forma grosseira frequentemente alegada), propuseram uma ética do poder em oposição à suposta ética cristã do sacrifício.

Como a natureza humana é o fator que, de uma forma ou de outra, interage constantemente com as condições ambientais na produção cultural, o tema recebe atenção especial mais adiante. Mas a mudança que ocorreu ocasionalmente nas teorias que ganharam força sobre o “motivo dominante” na natureza humana sugere uma questão raramente levantada: será que essas psicologias não inverteram a ordem dos fatores? Não teriam elas construído sua noção sobre o elemento dominante na natureza humana a partir da observação de tendências marcantes na vida coletiva contemporânea, agrupando-as em alguma suposta “força” psicológica como sua causa? É significativo que a natureza humana tenha sido considerada fortemente movida por um amor inato à liberdade na época em que havia uma luta por um governo representativo; que o motivo do interesse próprio tenha surgido quando as condições na Inglaterra ampliaram o papel do dinheiro, devido aos novos métodos de produção industrial; que o crescimento das atividades filantrópicas organizadas tenha introduzido a compaixão no quadro psicológico; e que os eventos atuais sejam facilmente convertidos em amor ao poder como a principal força motriz da ação humana.

Em todo caso, a ideia de cultura que se tornou familiar através do trabalho de estudiosos da antropologia aponta para a conclusão de que, quaisquer que sejam os constituintes nativos da natureza humana, a cultura de um período e grupo é a influência determinante em sua organização; é ela que determina os padrões de comportamento que caracterizam as atividades de qualquer grupo, família, clã, povo, seita, facção ou classe. É tão verdadeiro que o estado da cultura determina a ordem e a organização das tendências nativas quanto que a natureza humana produz qualquer conjunto ou sistema particular de fenômenos sociais para obter satisfação pessoal. O problema é descobrir como os elementos de uma cultura interagem entre si e como os elementos da natureza humana são levados a interagir entre si sob as condições estabelecidas por sua interação com o ambiente existente. Por exemplo, se nossa cultura americana é em grande parte uma cultura pecuniária, não é porque a estrutura original ou inata da natureza humana tenda por si mesma a obter lucro pecuniário. É antes que uma determinada cultura complexa estimule, promova e consolida tendências nativas de modo a produzir um certo padrão de desejos e propósitos. Se considerarmos todas as comunidades, povos, classes, tribos e nações que já existiram, podemos ter certeza de que, como a natureza humana em sua constituição inata é a constante relativa, não se pode recorrer a ela, isoladamente, para explicar a multiplicidade de diversidades apresentadas pelas diferentes formas de associação.

Povos primitivos, por razões agora bastante evidentes, atribuem qualidades mágicas ao sangue. Crenças populares sobre raça e diferenças raciais inerentes praticamente perpetuaram as superstições mais antigas. Os antropólogos concordam quase unanimemente que as diferenças que encontramos em diferentes “raças” não se devem a nada na estrutura fisiológica inerente, mas aos efeitos exercidos sobre os membros de vários grupos pelas condições culturais em que são criados; condições que atuam sobre a natureza humana bruta ou original incessantemente desde o momento do nascimento. Sempre se soube que bebês, nascidos sem domínio de qualquer idioma, passam a falar o idioma, qualquer que seja, da comunidade em que nasceram. Como a maioria dos fenômenos uniformes, esse fato não despertou curiosidade nem levou a generalizações sobre a influência das condições culturais. Era dado como certo; era tão “natural” que parecia inevitável. Somente com o surgimento de pesquisas sistemáticas realizadas por estudantes de antropologia é que se notou que as condições culturais que produzem o idioma comum de um determinado grupo geram outras características que eles têm em comum. — características que, assim como a língua materna, diferenciam um grupo ou sociedade de outros. A cultura, enquanto corpo complexo de costumes, tende a se manter. Ela só pode se reproduzir através da promoção de certas mudanças diferenciais nas constituições originais ou nativas de seus membros.

Cada cultura possui seu próprio padrão, sua própria organização característica de suas energias constituintes. Pela mera força de sua existência, bem como por métodos deliberadamente adotados e sistematicamente aplicados, ela se perpetua através da transformação da natureza humana bruta ou original daqueles que nascem imaturos.

Essas afirmações não significam que a hereditariedade biológica e as diferenças individuais nativas não tenham importância. Significam que, ao operarem dentro de uma determinada forma social, são moldadas e produzem efeitos dentro dessa forma específica. Não são características indígenas que distinguem um povo, um grupo, uma classe de outro, mas sim características que marcam diferenças em todos os grupos. Seja qual for o “fardo do homem branco”, ele não foi imposto pela hereditariedade.

Percorremos um longo caminho desde as perguntas iniciais, a ponto de parecer que elas foram esquecidas ao longo da jornada. Mas a jornada foi empreendida com o objetivo de descobrir algo sobre a natureza do problema expresso nas perguntas formuladas. A manutenção das instituições democráticas não é uma questão tão simples quanto alguns dos Pais Fundadores supunham — embora os mais sábios entre eles percebessem o quanto o novo experimento político era favorecido por circunstâncias externas — como o oceano que separava os colonos dos governos que tinham interesse em usá-los para seus próprios fins; o fato de as instituições feudais terem sido deixadas para trás; que muitos colonos vieram para cá para escapar das restrições às crenças religiosas e às formas de culto; e, especialmente, a existência de um vasto território com terras livres e imensos recursos naturais ainda não apropriados.

A função da cultura em determinar quais elementos da natureza humana são dominantes e seu padrão ou arranjo em relação uns aos outros vai além de qualquer ponto específico a que se desvie a atenção. Ela afeta a própria ideia de individualidade. A ideia de que a natureza humana é inerentemente e exclusivamente individual é, em si, um produto de um movimento cultural individualista. A ideia de que a mente e a consciência são intrinsecamente individuais sequer ocorreu a alguém durante grande parte da história da humanidade. Teria sido rejeitada como a fonte inevitável de desordem e caos se alguém tivesse sequer cogitado sugeri-la — não que suas ideias sobre a natureza humana, por esse motivo, fossem melhores do que as posteriores, mas sim que também eram funções da cultura. Tudo o que podemos afirmar com segurança é que a natureza humana, como outras formas de vida, tende à diferenciação, e esta se move na direção do distintamente individual, e que também tende à combinação, à associação. Nos animais inferiores, fatores físico-biológicos determinam qual tendência é dominante em uma dada espécie animal ou vegetal e a proporção existente entre os dois fatores — se, por exemplo, os insetos são o que os estudantes chamam de “solitários” ou “sociais”. Nos seres humanos, as condições culturais substituem as estritamente físicas. Nos períodos iniciais da história humana, elas atuavam quase como condições fisiológicas no que diz respeito à intenção deliberada. Eram consideradas “naturais” e qualquer alteração nelas, antinatural. Em um período posterior, as condições culturais passaram a ser vistas como sujeitas, em certa medida, à formação deliberada. Por um tempo, os radicais identificaram suas políticas com a crença de que, se as condições sociais artificiais fossem eliminadas, a natureza humana produziria quase automaticamente um certo tipo de arranjo social, aquele que lhe daria livre curso em seu suposto caráter exclusivamente individual.

Tendências à sociabilidade, como a simpatia, eram admitidas. Mas eram consideradas traços de um indivíduo isolado por natureza, tanto quanto, digamos, uma tendência a se associar a outros para obter proteção contra algo que ameace o próprio eu privado. Se a completa identificação da natureza humana com a individualidade seria desejável ou indesejável, caso existisse, é uma questão acadêmica ociosa. Pois ela não existe. Algumas condições culturais desenvolvem os componentes psicológicos que levam à diferenciação; outras estimulam aqueles que levam à solidariedade da colmeia ou do formigueiro. O problema humano é o de assegurar o desenvolvimento de cada componente para que ele sirva para liberar e amadurecer o outro. A cooperação — chamada de fraternidade na fórmula clássica francesa — é tão parte do ideal democrático quanto a iniciativa pessoal. O fato de terem sido permitidas condições culturais (notavelmente na fase econômica) que subordinaram a cooperação à liberdade e à igualdade explica o declínio destas duas últimas. Indiretamente, esse declínio é responsável pela atual tendência de denegrir a própria palavra individualismo e de transformar a sociabilidade em um termo de honra moral acima de qualquer crítica. Mas a ideia de que a associação de nulidades, mesmo em larga escala, constituiria uma realização da natureza humana é tão absurda quanto supor que esta possa ocorrer em seres cujas únicas relações entre si sejam aquelas estabelecidas em prol de vantagens privadas exclusivas.

O problema da liberdade das individualidades cooperativas deve, portanto, ser analisado no contexto da cultura. O estado da cultura é um estado de interação de muitos fatores, entre os quais se destacam o direito e a política, a indústria e o comércio, a ciência e a tecnologia, as artes da expressão e da comunicação, e a moral, ou seja, os valores que os homens prezam e as maneiras pelas quais os avaliam; e, finalmente, embora indiretamente, o sistema de ideias gerais utilizado pelos homens para justificar e criticar as condições fundamentais em que vivem, sua filosofia social. Estamos preocupados com o problema da liberdade, e não com soluções: na convicção de que as soluções são inúteis enquanto o problema não for colocado no contexto dos elementos que constituem a cultura, em sua interação com elementos da natureza humana inata. O postulado fundamental da discussão é que o isolamento de qualquer fator, por mais forte que seja sua atuação em um dado momento, é fatal para a compreensão e para a ação inteligente. Isolamentos têm sido abundantes, tanto por considerarem algum aspecto da natureza humana como um “motivo” supremo, quanto por considerarem alguma forma de atividade social como suprema. Uma vez que o problema aqui é entendido como a forma como um grande número de fatores internos e externos à natureza humana interagem, nossa próxima tarefa é questionar as conexões recíprocas que a natureza humana em seu estado bruto e a cultura mantêm entre si.

 
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from লোকমানুষ এর ব্লগ

জানালার কাচে তখনো বৃষ্টির শেষ ফোঁটাগুলো আলতো করে টোকা দিয়ে যাচ্ছে। কিছুক্ষণ আগেও প্রকৃতির বুকে যে উন্মাতাল তাণ্ডব চলল, তাকে একরকম রূপকথা বলেই ভ্রম হয়। দমকা ঝড়ো বাতাস, মেঘের গুরুগুরু গগনবিদারী গর্জন, আর সাথে বুক কাঁপানো দুই-একটি বজ্রপাত -সব মিলিয়ে প্রকৃতি যেন তার সমস্ত ক্ষোভ উগরে দিল এই আধঘণ্টায়।

তারপর হঠাৎ করেই শান্ত। আকাশ তার রাগ ঝেড়ে এখন হালকা, শান্ত। ঘরের কোণে জমে উঠেছে একটা শিরশিরে ঠান্ডা হাওয়া, যা গায়ে লাগলেই কেমন যেন একটা আলসেমি জড়িয়ে ধরে। মন বলে, এই চমৎকার ঠান্ডা আবহে কম্বলটা গায়ে টেনে দিয়ে একটা লম্বা, নিটোল ঘুম দেওয়া যাক। কিন্তু চোখ বুজলেই কি আর ঘুম আসে? কিছু কিছু আবহাওয়া আসলে ঘুমের চেয়ে বেশি জাগিয়ে তোলে ভেতরের মানুষকে, খুঁচিয়ে খুঁচিয়ে স্মৃতির ধুলোবালি ঝেড়ে ফেলে তাকে তুলে ধরে মনের দৃষ্টিতে।

যেমন আজ এই বৃষ্টির শেষলগ্নে এসে বুকটা কেমন যেন হুঁ হুঁ করে উঠল। খুব মনে পড়ছে আম্মাকে।

আসলে ‘ইদানীং মনে পড়ছে’ বলাটা ভুল হবে। আম্মা চলে যাওয়ার পর থেকে জীবনের এমন কোনো মুহূর্ত নেই, যেখানে তার ছায়া আমি খুঁজে না। এখন প্রতিটা ছোটোখাটো কাজেই আম্মা অবধারিতভাবে চলে আসেন। কোনো একটা কাজ করতে গিয়ে থমকে দাঁড়িয়ে ভাবি, ‘আচ্ছা, আম্মা থাকলে তো কাজটা এভাবে করতেন না, তিনি হয়তো অন্য কোনো সহজ উপায়ে করে দিতেন!’ কিংবা কোনো জিনিস অগোছালো দেখলে কানের কাছে যেন মায়ের সেই চিরচেনা কণ্ঠস্বর ভেসে ওঠে, ‘এটা এখানে রাখছিস কেন? ঐখানে রাখ।’ অথবা কোনো কাজে আটকে গেলে মনে হয়, আম্মা থাকলে ঠিকই এই সমস্যার কোনো সমাধান বলে দিতেন। এই রকম হাজারো হাবিজাবি, টুকরো টুকরো ভাবনা এখন আমার একাকিত্বের সঙ্গী।

তবে আজকের এই ঝড়-বৃষ্টির রাতটা যেন আম্মার স্মৃতিকে বড্ড বেশি জীবন্ত করে তুলেছে। আম্মাকে আমাদের চেনা-পরিচিত সবাই খুব সাহসী এক নারী হিসেবেই জানত। যে কোনো বড়ো বিপদ বা কঠিন পরিস্থিতি তিনি এত ঠান্ডা মাথায় সামাল দিতেন যে, অবাক হতে হতো। দেখে মনে হতো, তার কোনো উদ্বেগ নেই, কোনো তাড়াহুড়ো নেই। যেন এক অদ্ভুত জাদুবলে সবটা ঠিক হয়ে যাচ্ছে, কিংবা অদৃশ্য কেউ একজন এসে তার হয়ে সব গুছিয়ে দিয়ে যাচ্ছে।

কিন্তু আমার কেন যেন মনে হতো, এই পাহাড়সম সাহসী মানুষটারও একটা দুর্বল জায়গা ছিল। ঝড়-বৃষ্টির সময় আম্মাকে আমার বড্ড ভীতু মনে হতো। যদিও তিনি মুখে কখনো ভয়ের কথা স্বীকার করতেন না, চোখে-মুখেও ভয়ের কোনো রেখা ফুটতে দিতেন না, তাও একজন সন্তানের চোখ তো! মায়ের ভেতরের চাপা অস্থিরতাটুকু আমি ঠিকই টের পেতাম।

সেই দিনগুলোর কথা মনে হলে আজও ঠোঁটের কোণে মৃদু হাসি ফোটে, আবার পরক্ষণেই চোখটা ভিজে আসে। বজ্রপাত শুরু হওয়া মাত্রই নিয়ম করে এলাকার বিদ্যুৎ চলে যেত। চারদিক ঘুটঘুটে অন্ধকার হওয়ার আগেই আম্মা তড়িঘড়ি করে এসে বসতেন আমাদের ড্রয়িংরুমে, যেটাকে আমরা বলতাম ‘সোফার রুম’। সোফার রুমে বসেই উচ্চকণ্ঠে বাড়ির সবাইকে ডাকতেন, ‘কই রে তোরা, সব এখানে আয়!’

আম্মার ডাক শোনামাত্রই আমরা যে যেখানে থাকতাম সবাই মিলে টর্চ, চার্জার লাইট কিংবা মোবাইলের ফ্ল্যাশ জ্বালিয়ে সেই সোফার রুমে গিয়ে জড়ো হতাম। মুহূর্তের মধ্যেই সেই অন্ধকার ঘরটা আলো আর মানুষের কলকাকলিতে মুখর হয়ে উঠতো। এরপর শুরু হতো এক তুমুল আড্ডা। বাচ্চারা আলো-আধারেই নিজেদের মতো খেলা শুরু করে দিতো, চিৎকার করত, ঝগড়া করতো আবার খুনসুটিতে মেতে উঠত।

আম্মা কখনো কখনো সোফায় কিংবা মেঝেতে বসতেন। বাকিরা যে যার সুবিধা মতো জায়গা করে বসতো। তারপর আম্মা ধীরে ধীরে বলতে শুরু করতেন। কত গল্প বলতেন, কত মানুষকে নিয়ে বলতেন, কত-কত সময়কে নিয়ে বলতেন। কী ছিলো না তার সেই টুকরো টুকরো কথায়! আমি সাধারণত সেসব আড্ডায় খুব একটা কথা বলতাম না, নিজের মতো এক কোণে বসে আম্মার গল্প শুনতাম, বাচ্চাদের আনন্দ দেখতাম, মোবাইল স্ক্রিনে দৃষ্টি নিবন্ধ করে রাখতাম, আর মাঝে মাঝে চোখ তুলে আম্মাকে একটু দেখতাম। অন্ধকারের মাঝেও আম্মার হাসিমুখটা দেখতে বড্ড ভালো লাগত।

আম্মা শুধু আমাদের নিয়েই ব্যস্ত থাকতেন এমন না, বরং ঝড়ের মাঝেই মোবাইলে কাছের-দূরের আত্মীয়, পরিচিত সব মানুষকে ফোন করে খোঁজ-খবর নিতেন। কে কেমন আছে, কার বাড়ির চাল উড়ে গেল কি না, কোথাও কোনো ক্ষয়ক্ষতি হলো কি না -এমন সব খোঁজ-খবর নেয়া চলতো। পুরো ঘরটা তখন এক অদ্ভুত ওমে, ভালোবাসার চাদরে ঢাকা পড়ে থাকত। বাইরের ঝড়-বৃষ্টির হুংকার তখন আর আমাদের ছুঁতে পারত না।

আজ আম্মা নেই, দেখতে দেখতে একটা বছর পার হয়ে গেল। প্রকৃতিতে আজও ঝড় আসে, বৃষ্টি নামে, আকাশ ভেঙে বজ্রপাত হয়। বিদ্যুৎ চলে গেলে চারদিক আগের মতোই অন্ধকার হয়ে যায়। কিন্তু আমাদের আর সেই সোফার রুমে একত্রে বসা হয় না। সত্যি বলতে, এখন আর ওভাবে বসতে ইচ্ছেও করে না। যে মানুষটাকে কেন্দ্র করে আমাদের সেই অন্ধকারের উৎসব জমে উঠত, সেই মানুষটাই যখন নেই, তখন সোফার রুমের ওই শূন্যতাটুকু বড্ড বেশি কামড়ে ধরে। সবার হৃদয়ে আলো জ্বালানোর মানুষটাই আজ অন্ধকার ঘরে একাকী নিদ্রা যাপন করছে।

মাঝে মাঝে এই রকম দমকা হাওয়া আর বৃষ্টির রাতে বুকের ভেতরটা বড্ড বেশি হাহাকার করে ওঠে। তীব্র ইচ্ছে জাগে, সব ফেলে এই ঝড়-বৃষ্টির মাঝেই ছুটে যাই আম্মার কবরের পাশে। সেখানে গিয়ে চুপচাপ বসে থাকি, যেভাবে একসময় সোফার রুমে এক কোণে বসতাম। আম্মার মাটির বিছানার পাশে বসে বলি, ‘আম্মা, ডরাইয়েন না। এই বৃষ্টি একটু পরেই থাইমা যাইবো।’

কিন্তু সময় আর নিষ্ঠুর বাস্তবতার বেড়াজালে আটকে সেই ইচ্ছেটা আর পূরণ হয় না। জানালা দিয়ে আসা ঠান্ডা বাতাসটা গায়ে লাগে, আর আমি একা ঘরের বিছানায় শুয়ে স্মৃতির কম্বল মুড়ি দিয়ে আম্মাকে খুঁজি।

আম্মা ভালো থাকুক তার এই দীর্ঘ নিদ্রায়। পৃথিবীর কোনো ঝড়, কোনো মেঘের গর্জন কিংবা কোনো বজ্রপাত আর কখনোই যেন তাকে বিচলিত না করতে পারে। অনন্তকাল পরম শান্তিতে তিনি ঘুমিয়ে থাকুক নিশ্চিন্তে।

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from Security Through the Looking Glass

A train has derailed near a populated area. Multiple people are reporting eye and throat irritation. One person, an elderly man working near the site, has been hospitalized with respiratory complications. What do you do?

Table-top exercises (TTX) are common in public disaster response. They help management teams check their plans. They verify that inter-agency communication and coordination works as expected. They teach team leaders to ask the right questions, and to respond dynamically under pressure. Like practicing forms in martial arts, they train a sort of muscle memory that takes over when it matters.

Disasters will happen. That's a simple fact of reality. While systems should be built to prevent them, it is also critical to prepare to respond to them. By training, organizations decrease response time. Decreasing response time saves lives.

Perhaps some of this sounds familiar. I remember log4shell. I was called into a room with other security leaders. People brainstormed, identified gaps, took tasks, and got to work. Commercial scanners lagged behind, so we designed and built our own. We ran it, manually checked things flagged as “false positives,” and drove every instance into the ground. There were a lot of late nights, a lot of grumpy engineers paged in to patch their systems. It was hard work, stressful at the beginning, but, in the end, it was good. We quickly developed a flow and coordinated closely as an ad-hoc team. We found the bugs, fixed them, and came out the other side with better tools and better procedures.

Large scale security events like log4shell, text4shell, spring4shell, and others are unlikely to become less common. LLMs allow code to be generated more quickly and with less knowledge. Meanwhile, these same LLMs either miss vulnerabilities or are prohibitively expensive to run on incoming code. Core open source infrastructure has been inundated with pull requests, while closed source software is infeasible to use for many projects with no way of knowing if quality is better.

LLMs themselves have been integrated into all sorts of projects. Meanwhile, it remains ultimately impossible to secure LLMs. Our attack surface continues to multiply, while tools for managing this complexity are still evolving. The ever-relevant Gramsci quote haunts us. Indeed, “now is the time of monsters.”

If you use software in 2026, especially if that software is Internet facing, you need to be ready to respond to a large scale event. But CVSS 10 0-day events are uncommon. How do you prepare for something that requires such a high level of coordination and precision, that demands a rapid response, and that doesn't happen very often? More importantly, how do you prepare to respond outside of the crucible of the actual event? Take a page from disaster response: practice.

Our response to log4shell was solid and quick. The room was full of the best engineers and managers, people with a lot of institutional knowledge and a lot of talent. Leaders followed everything closely and always asked the right questions. But we were still inventing things, figuring stuff out, sometimes stepping on each other's toes. After log4shell, we wrote a runbook for such large scale events. Then we tested it, several times, with table-top exercises, until we were confident it could be executed successfully.

Every disaster preparedness exercise starts with a runbook. You can't really test a plan unless you have a plan, can you? Do you have a runbook? Let's talk briefly about what that looks like.

A large scale security event runbook needs to answer several questions:

  1. How do you know there's an event? Do you have a vendor who will alert you? Do you subscribe to a newsletter? Is there an intelligence team? What are you doing to make sure you're on top of security news?
  2. How do you know the event is an emergency for you? Do you have a feed of already-vetted intelligence? Does your security team verify news? How will they do that?
  3. Who do you call in? This should be a list of roles, but those roles should be associated with pagers or phone numbers. Phone numbers should have back-up phone numbers. Do you have the right people? You will need to have people in the room who can answer more questions, or can find the right people to answer those questions.
  4. How do you stop making the problem worse? You are going to keep making code, or at least using it. How do you make sure you aren't deploying vulnerable stuff right now. If you can't stop pushing out more vulnerable code, then you're digging in sand: any progress you do manage to make will only be eaten away as you push more stuff out.
  5. How do you find out what is vulnerable now? Do you have a commercial scanner? Does it have updated signatures? Can you wait for them? Can you shut potentially vulnerable services down while you wait, or are they critical? Do you need to write your own scanner? Do you have the skills in-house to do that? Do you have a vendor you can call?
  6. How do you find out what has been compromised? If you patch fast enough, you may be able to avoid being hit before adversaries can scramble their resources. But don't count on that. Who do you call to figure out what the signatures of a compromise might look like? Do you have an incident response team? Do you have a vendor you work with?
  7. What do you do when you find a vulnerable system? What do you do when you find a compromised system? Some of these questions can fall off to other runbooks. Your vulnerability management team should already have a generic runbook for dealing with vulnerable systems. Your incident response team should have incident response runbooks. Do they work? You can test them while you're testing this one.
  8. How do you inform customers? Do you have a media team? Do you have an existing template for large scale events? What is important to tell customers? What regulatory requirements do you have for disclosure based on your business?
  9. How do you know when you're done? Fires will come and go. You can't stay in emergency mode all the time, or you'll burn yourself and your people out. But if you go home too early you might miss something critical. What is the indicator that it's time to transition to everything back to normal operation? When can normal runbooks take over from large scale event runbooks? Does someone decide? Is there a specific threshold?

The runbook doesn't need to be perfect. It won't be. It will never be. It should not be expected to be. That's the whole point of this exercise.

After reading all of this you may not be ready to go to the next step. That's fine. You've already learned something about your capacity to respond, and that's what's important. Record those lessons, turn them into action items, drive each one to closure. Even if you are ready, this will become a pattern. Each time you test, you learn something. You come out with information that you need to turn into action items. You need to make sure those items get closed. Each cycle will repeat this same pattern.

Do you have a good start? Great. Let's test it.

You'll need to choose a facilitator. In the table-top RPG world, the facilitator who leads the scenario is called a “Game Master” or “GM.” Your GM is going to come up with a scenario, keep track of progress against the scenario, and generally run the exercise. There's a mix of procedure and creativity involved in both gaming and these types of exercises, so we're going to stick with the terminology of “GM” for our facilitator. We're also going to use the terms “player” and “game” to describe team members and the exercise.

The GM will be tasked with coming up with a scenario. This should draw from past experiences, if you have them, or external accounts of incident response. If you have an organizational threat model, you will want to include this in crafting the scenario. What kind of event would most impact your business? What kinds of disruptions would be the most harmful? What subsystems are the most critical?

It may be tempting to use LLMs to help generate scenarios, and this may well work. But the research that goes into generating scenarios also helps build knowledge. That knowledge can be useful in developing a more robust runbook, and in responding more dynamically to disruption.

Fortunately, there are also other resources. CISA has a set of tabletop exercise packages focused on specific industries. Some vendors may create tabletop exercises on request, or may have already existing packages they can support you with. The Backdoors and Breaches card deck can also provide help provide inspiration.

Once you have a scenario, schedule a game day. You can make it as realistic as you want. Getting important people in a room to talk through everything will give you a high level check. But the more realistic the exercise, the more that can go wrong, and the more opportunities you have to learn from that. The scenario will include information about how people find out. Did someone read the vulnerability on HackerNews? How long does it take to from contacting the security help desk to having security leadership in a room?

Once the GM has gathered together the appropriate security roles, as designated by the runbook, the GM will then provide appropriate information. Security will ask questions to get as much information as possible, and execute on the runbook from there.

The game is turn based. Each round starts with the GM giving some information about the current situation and relevant situational changes. Depending on the flow of the scenario, the GM may not reveal all relevant information unless specific actions are carried out. For example, a GM may choose to designate a system as “compromised” during a turn but would only reveal that information after incident response starts looking for signatures.

The GM may play as all external actors. This includes adversaries, security vendors, and external researchers. Alternatively, a “Red Team” may be designated to play as the adversaries against the defending “Blue Team.” When played this way, the exercise begins to look more like a military tabletop exercise. Military models can also prove useful here.

The OODA Loop is a decision-making model developed by Air Force Colonel John Boyd to help fighter pilots make clear decisions under extreme stress. We can also use this model to help train quick and clear decision-making. Since this article focuses on TTX for security, we're only going to briefly touch on the subject here.

During each phase, players can talk through each step of the OODA Loop:

  1. Observe What data do we have? How are we getting our data? Is our data already refined into intelligence, or do we still need to refine it? Keep track of what information is missing so you can collect that later.
  2. Orient What does this data tell us? What do we know, or think we know? How does this new data challenge or confirm that? What does this data mean for us, in the context of this situation? Is anything we're observing now the result of a previous action we've taken, or is it the result of external actors? What does the runbook say? Does any of the information we have trigger a runbook action, or do we need to figure things out? Is anything actionable, or do we need to learn more before we can choose other actions?
  3. Decide Choose an action from the set of actions. If the data doesn't simply trigger the next runbook step, does your next action help you understand the situation more? What belief does your next action imply? How will you know if that action was correct or incorrect? Can you form a hypothesis? What observations would challenge your hypothesis? What observations would confirm it? Are those mutually exclusive, or are there additional observations or actions you must make to clarify things?
  4. Act Finish your turn by choosing your action or actions (individually or collectively). Perhaps take a moment to write down notes, like what your observations, your hypothesis, and if you think your previous hypothesis was confirmed or refuted. You can review these all later to refine your thinking.

End your session after you've either reached the terminal point of your runbook or you've reached a problem with your runbook so bad you had to stop. (Don't worry, this doesn't mean you've done a bad job. It means you've learned something important before it was a problem.)

When you're done, the GM can reveal any hidden information not yet revealed. Plan a retrospective to identify areas of improvement. Turn these notes into action items, and plan to re-run after you've completed those items.

Run this game multiple times until you're confident in the results. You may still learn things each time. You may still come out with action items. But there comes a point where the cost of practice outweighs the value of the lessons you will learn. Where this price point lies depends on your business and the risk tolerance of your industry.

You can get a bit more value out of repeated exercises by making them more realistic (as described earlier), or by adding in a “chaos monkey” element. The “chaos monkey” may remove a person (simulating, for example, a personal emergency), or report that tooling has been broken. In this variant, an incident responder may find expected logs missing, or a critical employee may be unavailable. In the same way that the tool helps you build more a resilient architecture, so does this element help your team become more resilient in the face of challenges.

Large scale runbooks can be tested quarterly, yearly, or every two years, depending on staff turnover and technology changes. Runbooks and skills both begin to rot the moment they are not used.

But why should we stop at large scale events?

Every engineering team should know what to do if their software is compromised. They should know where to look for logs to help incident responders. They should know which regulatory agencies they need to contact, and the time limits for legal compliance. These timelines may be surprising. Companies running in India, for example, have 72 hours to report a breach before risking penalties.

Scaled down versions of these table-top exercises can be run to verify team runbooks. And the GM's role scales well. One GM can facilitate multiple sessions at the same time, with different learning from the exercise together, learning from each other's good ideas and failures. Shared retrospectives can provide opportunities to foster innovation by cross-pollinating between teams.

Rare events can be chaotic, and time can be lost in that chaos. Lost time can be lost data, and lost data can be both lost revenue and fines. By training for rare and unexpected events, it becomes possible to minimize their impact. While a data breach and lose customer trust, a competent response to an unexpected event can also build trust.

How prepared are you for the unexpected? Are you ready to find out?

 
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from Nomos

Por Jorge Luis Borges – Buenos Aires, 1951.

A esfera de Pascal Talvez a história universal seja a história de algumas metáforas. Esboçar um capítulo dessa história é o fito desta nota.

Seis séculos antes da era cristã, o rapsodo Xenófanes de Colofônio, farto dos versos homéricos que recitava de cidade em cidade, condenou os poetas que atribuíram traços antropomórficos aos deuses e propôs aos gregos um único Deus, que era uma esfera eterna. No Timeu, de Platão, lê-se que a esfera é a figura mais perfeita e mais uniforme, porque todos os pontos da superfície equidistam do centro; Olof Gigon (Ursprang der Griechischen Philosophie, 183) entende que Xenófanes falou analogicamente; o Deus era esferoidal por ser essa forma a melhor, ou menos má, para representar a divindade.

Parmênides, quarenta anos depois, repetiu a imagem (“o Ser é semelhante à massa de uma esfera bem arredondada, cuja força é constante do centro em qualquer direção”); Calogero e Mondolfo entendem que ele intuiu uma esfera infinita, ou infinitamente crescente, e que as palavras transcritas acima têm um sentido dinâmico (Albertelli: Gli Eleati, 148). Parmênides lecionou na Itália; poucos anos antes de sua morte, o siciliano Empédocles de Agrigento urdiu uma laboriosa cosmogonia; há uma etapa em que as partículas da terra, da água, do ar e do fogo integram uma esfera sem fim, “o Sphairos redondo, que exulta em sua solidão circular”.

A história universal seguiu seu curso, os deuses demasiado humanos que Xenófanes atacara foram rebaixados a ficções poéticas ou a demônios, mas afirmou-se que um deles, Hermes Trismegisto, ditara um número variável de livros (42, segundo Clemente de Alexandria; 20.000, segundo Jâmblico; 36.525, segundo os sacerdotes de Thot, que também era Hermes), em cujas páginas estavam escritas todas as coisas. Fragmentos dessa biblioteca ilusória, compilados ou forjados desde o século I1, formam aquilo que recebe o nome de Corpus Hermeticum; em um desses fragmentos, ou no Asclépio, também atribuído a Trismegisto, o teólogo francês Alain de Lille — Alanus de Insulis — descobriu em fins do século XII a seguinte fórmula, que as idades vindouras não esqueceriam: “Deus é uma esfera inteligível, cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma”. Os pré-socráticos falaram de uma esfera sem fim; Albertelli (como, antes, Aristóteles) pensa que falar assim é cometer uma contradictio in adjecto, pois sujeito e predicado se anulam; isso bem pode ser verdade, mas a fórmula dos livros herméticos deixa-nos, quase, intuir essa esfera. No século XIII, a imagem reapareceu no simbólico Roman de la Rose, que a apresenta como sendo de Platão, e na enciclopédia Speculum Triplex; no XVI, o último capítulo do último livro de Pantagruel referiu-se a “essa esfera intelectual, cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma, que chamamos Deus”. Para a mente medieval, o sentido era claro: Deus está em cada uma de suas criaturas, mas nenhuma O limita. “O céu, o céu dos céus, não te contém”, disse Salomão (I Reis 8, 27); a metáfora geométrica da esfera deve ter parecido uma glosa dessas palavras.

O poema de Dante preservou a astronomia ptolomaica, que durante mil e quatrocentos anos regeu a imaginação dos homens. A terra ocupa o centro do universo. É uma esfera imóvel; em torno dela giram nove esferas concêntricas.

As sete primeiras são os céus planetários (céus da Lua, de Mercúrio, de Vênus, do Sol, de Marte, de Júpiter, de Saturno); a oitava, o céu das estrelas fixas; a nona, o céu cristalino, também chamado Primeiro Móvel. Este é rodeado pelo Empíreo, que é feito de luz. Toda essa laboriosa máquina de esferas ocas, transparentes e giratórias (um dos sistemas requeria cinquenta e cinco) chegara a ser uma necessidade mental; De Hipothesibus Motuum Coelestium Commentariolus é o tímido titulo que Copérnico, negador de Aristóteles, deu ao manuscrito que transformou nossa visão do cosmos. Para um homem, para Giordano Bruno, a ruptura das abóbadas estelares foi uma libertação. Este proclamou, na Ceia das Cinzas, que o mundo é o efeito infinito de uma causa infinita e que a divindade está próxima, “pois está dentro de nós mais ainda que nós mesmos estamos dentro de nós”. Procurou palavras para explicar o espaço copernicano aos homens e em uma página famosa estampou: “Podemos afirmar com certeza que o universo é todo centro, ou que o centro do universo está em toda a parte e a circunferência em nenhuma” (Da Causa, do Princípio e da Unidade, V). Isso foi escrito com exultação em 1584, ainda à luz do Renascimento; setenta anos depois, não restava nem um reflexo desse fervor, e os homens sentiram-se perdidos no tempo e no espaço. No tempo, porque, se o futuro e o passado são infinitos, não haverá realmente um quando; no espaço, porque, se todo ser equidista do infinito e do infinitesimal, tampouco haverá um onde.

Ninguém está em algum dia, em algum lugar; ninguém sabe o tamanho de seu rosto. No Renascimento, a humanidade acreditou que chegara à idade viril, e assim o declarou pela boca de Bruno, de Carnpanella e de Bacon. No século XVII acovardou-a uma sensação de velhice; para se justificar, exumou a crença em uma lenta e fatal degeneração de todas as criaturas, por obra do pecado de Adão. (No quinto capítulo do Gênesis consta que “todos os dias de Matusalém foram novecentos e setenta e nove anos”; no sexto, que “havia gigantes sobre a terra naqueles dias”.) O primeiro aniversário da elegia Anatomy of the World, de John Donne, lamentou a vida brevíssima e a estatura mínima dos homens contemporâneos, que são como as fadas e os pigmeus; Milton, segundo a biografia de Johnson, temeu que o gênero épico já fosse impossível na terra; Glanvill entendeu que Adão, “medalha de Deus”, desfrutou de uma visão telescópica e microscópica; Robert South famosamente escreveu: “Um Aristóteles não foi mais que escombros de Adão, e Atenas, os rudimentos do Paraíso”. Naquele século desanimado, o espaço absoluto que inspirou os hexâmetros de Lucrécio, o espaço absoluto que para Bruno fora uma libertação, foi um labirinto e um abismo para Pascal. Este abominava o universo e desejaria adorar a Deus, mas Deus, para ele, era menos real que o abominado universo. Deplorou que o firmamento não falasse, comparou nossa vida à de náufragos em uma ilha deserta. Sentiu o peso incessante do mundo físico, sentiu vertigem, medo e solidão, e expressou-os em outras palavras: “A natureza é uma esfera infinita, cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma”. O texto é assim publicado por Brunschvicg, mas a edição crítica de Tourneur (Paris, 1941), que reproduz as rasuras e vacilações do manuscrito, revela que Pascal começou a escrever effroyable: “Uma esfera terrível, cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma”.

Talvez a história universal seja a história da vária entonação de algumas metáforas.

 
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from Nomos

Ensaios Morais, Políticos e Literários.

Por David Hume

Nada é mais apto a surpreender um estrangeiro do que a extrema liberdade de que desfrutamos neste país para comunicar ao público o que quisermos e criticar abertamente qualquer medida tomada pelo rei ou por seus ministros. Se a administração decide pela guerra, afirma-se que, ou por vontade ou por ignorância, ela erra quanto aos interesses da nação, e que a paz, na presente situação dos acontecimentos, é infinitamente preferível. Se a inclinação dos ministros é pela paz, nossos escritores políticos não falam de outra coisa senão guerra e devastação, representando a conduta pacífica do governo como mesquinha e pusilânime. Como tal liberdade não é permitida em nenhum outro governo, seja republicano ou monárquico — em Holanda e Veneza mais do que na França ou Espanha — pode muito naturalmente surgir a pergunta: como é que apenas a Grã-Bretanha desfruta desse privilégio peculiar?

A razão pela qual as leis nos concedem tal liberdade parece derivar de nossa forma mista de governo, que não é totalmente monárquica nem totalmente republicana. Verifica-se, se não me engano, que é uma observação verdadeira em política que os dois extremos de governo — liberdade e escravidão — geralmente se aproximam entre si; e que, à medida que nos afastamos desses extremos e se mistura um pouco de monarquia com liberdade, o governo se torna sempre mais livre; por outro lado, quando se mistura um pouco de liberdade com monarquia, o jugo torna-se sempre mais penoso e intolerável. Num governo como o da França, que é absoluto e onde a lei, o costume e a religião concorrem todos para tornar o povo plenamente satisfeito com sua condição, o monarca não pode nutrir qualquer ciúme em relação aos seus súditos, e, portanto, tende a permitir-lhes grandes liberdades tanto de palavra quanto de ação. Num governo inteiramente republicano, como o da Holanda, onde não há magistrado suficientemente eminente para causar ciúmes ao Estado, não há perigo em confiar aos magistrados grandes poderes discricionários; e, embora muitos benefícios resultem desses poderes para a preservação da paz e da ordem, eles impõem uma considerável restrição às ações dos homens e fazem com que cada cidadão privado preste grande respeito ao governo. Assim, parece evidente que os dois extremos — monarquia absoluta e república — se aproximam em alguns aspectos essenciais. No primeiro, o magistrado não tem ciúmes do povo; no segundo, o povo não tem ciúmes do magistrado. Essa ausência de ciúmes gera uma confiança e fé mútua em ambos os casos, produzindo uma espécie de liberdade nas monarquias e de poder arbitrário nas repúblicas.

Para justificar a outra parte da observação anterior — que, em todo governo, os meios-termos são os mais distantes entre si, e que as misturas de monarquia e liberdade tornam o jugo mais leve ou mais pesado —, devo mencionar uma observação de Tácito sobre os romanos sob os imperadores: que eles não podiam suportar nem a escravidão total nem a liberdade total — Nec totam servitutem, nec totam libertatem pati possunt. Essa observação foi traduzida e aplicada aos ingleses por um célebre poeta, em sua vívida descrição da política e do governo da rainha Elizabeth:

Et fit aimer son joug à l’Anglois indompté, Qui ne peut ni servir, ni vivre en liberté (Henriade, Livro I)

De acordo com essas observações, devemos considerar o governo romano sob os imperadores como uma mistura de despotismo e liberdade, na qual o despotismo prevalecia; e o governo inglês como uma mistura do mesmo tipo, mas na qual a liberdade predomina. As consequências estão de acordo com a observação feita, e são as que se poderiam esperar de tais formas mistas de governo, que geram uma vigilância e um ciúme mútuos. Os imperadores romanos foram, muitos deles, os mais terríveis tiranos que já desonraram a natureza humana; e é evidente que sua crueldade era despertada principalmente por seu ciúme, e pela percepção de que todos os grandes homens de Roma suportavam com impaciência o domínio de uma família que, pouco antes, não era de modo algum superior à sua própria. Por outro lado, como a parte republicana do governo predomina na Inglaterra, embora com uma grande mistura de monarquia, ela é obrigada, para sua própria preservação, a manter um ciúme vigilante sobre os magistrados, remover todos os poderes discricionários e assegurar a vida e os bens de todos por meio de leis gerais e inflexíveis. Nenhuma ação deve ser considerada crime senão aquela que a lei claramente determinou como tal; nenhum crime deve ser imputado a um homem senão com prova legal diante de seus juízes; e até mesmo esses juízes devem ser seus concidadãos, obrigados, por interesse próprio, a vigiar atentamente os abusos e violências dos ministros. Por essas causas, é que existe tanta liberdade, e talvez até licenciosidade, na Grã-Bretanha, quanto existiam antigamente escravidão e tirania em Roma.

Esses princípios explicam a grande liberdade de imprensa nesses reinos, superior à permitida em qualquer outro governo. Tem-se a impressão de que o poder arbitrário se infiltraria entre nós, se não fôssemos cuidadosos em impedir seu avanço, e se não houvesse um meio fácil de espalhar o alarme de um extremo ao outro do reino. O espírito do povo deve ser frequentemente despertado, a fim de refrear a ambição da corte; e o medo de despertar esse espírito deve ser usado para prevenir tal ambição. Nada é tão eficaz para esse fim quanto a liberdade de imprensa, pela qual todo o saber, engenho e talento da nação podem ser empregados em favor da liberdade, e cada um possa ser animado a defendê-la. Enquanto, portanto, a parte republicana de nosso governo puder manter-se contra a monárquica, naturalmente ela se preocupará em manter a imprensa aberta, considerando-a essencial para sua própria preservação.

Deve-se, contudo, reconhecer que a liberdade irrestrita da imprensa — embora seja difícil, talvez impossível, propor um remédio adequado para ela — é um dos males que acompanham essas formas mistas de governo.

 
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from লোকমানুষ এর ব্লগ

লাভ বুঝি না লোকসান বুঝি না ভালো বুঝি না মন্দ বুঝি না কিংবা তাদের মিসেল বুঝি না হাসি বুঝি না কান্না বুঝি না কাছের মানুষ হারাবার আগে তাদের চোখের ভাষাটা বুঝি না আমরা আসলে কিছুই বুঝিনা

গ্রাম ভেঙে শহর করার আগে গ্রাম্য জীবনের সরলতা বুঝি না নদী ভরাট জমি করার আগে নিরালা বাতাসের শীতলতা বুঝি না মাটির ঘর পাঁকা করার আগে আপন নিবাসের ঠিকানা বুঝি না আমরা আসলে কিছুই বুঝিনা

ধুলো মাখা পথে পিচ ঢালার আগে খালি পায়ে হাঁটার সুখটা বুঝি না ল্যাম্পপোস্টের আলো জ্বালাবার আগে আঁধারে বসার শান্তি বুঝি না জোনাকি দল হারাবার আগে অন্ধকারের ভাষাটা বুঝি না আমরা আসলে কিছুই বুঝিনা

উজ্জ্বল এলইডিতে হারাবার আগে কুপির বাতির নাচন বুঝি না স্ক্রিনের আড্ডায় হারাবার আগে উঠোনে গল্পের আসর বুঝি না গোছানো ফ্ল্যাটে হারাবার আগে মুক্তপ্রাঙ্গণের বিস্তার বুঝি না আমরা আসলে কিছুই বুঝিনা

হাঁসে ভরা বিল হারানোর আগে মন জুড়ানো বিকাল বুঝি না ধান ক্ষেতের দোল হারানোর আগে সবুজের মোহ মাত্রা বুঝি না বরই-পেয়ারা গাছ হারানোর আগে লংকা-লবণের স্বাদ বুঝি না আমরা আসলে কিছুই বুঝিনা

ডাঙ্গুলির শৈশব হারানোর আগে মায়ের বকুনির মমতা বুঝি না কৈশোরের দুরন্ত হারানোর আগে নিস্বার্থের বন্ধুর মায়াটা বুঝি না সুতো ছেঁড়া ঘুড়ি হারানোর আগে মুক্তো আকাশের বিশালতা বুঝি না আমরা আসলে কিছুই বুঝিনা

যান্ত্রিক চাকায় শান্তি হারাবার আগে ধীর জীবনের ছন্দ বুঝি না নগর বিনিদ্রায় হারাবার আগে নিশি গ্রামের নিদ বুঝি না শ্রুতিকটু অ্যালার্মে ভোর হারাবার আগে পাখির ডাকে ঘুম ভাঙা বুঝি না আমরা আসলে কিছুই বুঝিনা

শহুরে ভিড়ে হারাবার আগে চেনা মুখের মায়া বুঝি না জেব্রাক্রসিং এ হারাবার আগে আঁকা বাঁকা পথের জাদু বুঝি না শহুরে জঞ্জালে হারাবার আগে সরল গ্রামের বিপুলতা বুঝি না আমরা আসলে কিছুই বুঝিনা…

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from 東方琉璃淨土

昨日在美國股市,又達到了單日獲利超過20,000美元,也就是一天賺了65萬台幣以上。

有人問為什麼我們能夠一直有這麼龐大的獲利。我說,我只是做到把眼睛睜開而已。 我們不去做惡,我們看著數據說話,我們不會去網路上面浪費時間,我們用盡全力愛台灣守護台灣。

其實好好的賺錢就是這麼簡單

我們並不會像藍白的那些支持者,只相信去邪教教主講的,只想看東森中天黃國昌蔡正元,然後花了一大堆時間在網路上「造謠抹黑帶風向」,你們在做這些惡事時,我們在閱讀重要的產品技術報告、我們在做產業資訊,而且我們還運用AI代理人不斷引誘你,讓你困在社群裡不能脫身。這樣一來一往,我們的差距當然越來越開。

我們當然會繼續讓你困在各大社團裡,人的一生只有30,000天,能夠讓你在裡頭困1000日,這都是對台灣有幫助的事。賺錢其實並沒有很困難,只要讓一批青壯年的人一直不斷地困在社群裡面,並且透過這種時候趕快在市場上把錢都賺進自己的口袋,錢放在我們台派的口袋裡,善用的力道才是更強的。

強力推薦大家,不要再相信有一些人推薦你去買定存了,那些人真的是不懷好意,比如在高雄人社群裡面有一個叫做葉修的,程度確實有一點偏低了。

 
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from লোকমানুষ এর ব্লগ

⠀⠀ বহুকাল আমি নিজেকে একজন ভুল মানুষ ভেবে এসেছি। আমার পৃথিবীটা ছিল কুয়াশায় ঢাকা, যেখানে স্পষ্ট বলতে কিছুই ছিল না। আমার ভেতরে নিজেকে প্রকাশ করার এক তীব্র আকাঙ্ক্ষা ছিল, কিন্তু যতবারই আমি মুখ খুলতে চেয়েছি, ততবারই মনে হয়েছে যেন কেউ একজন আমার কথাগুলো বন্দি করতে ছুটে আসছে। ভয় ছিল আমার ছায়াসঙ্গী। তাই আলো থেকে পালিয়ে বারবার আমি ফিরে এসেছি আমার পরিচিত অন্ধকারে, আর সেই অন্ধকারই হয়ে উঠেছিল আমার একমাত্র পরিচয়। আমি মেনেই নিয়েছিলাম- আমি আদি থেকে অন্ত পর্যন্ত ভুলে ভরা এক মানুষ, যার জন্মই হয়েছে ভুল করার জন্য।

কিন্তু একদিন সবকিছু বদলে গেল, যেদিন আমার ভাবনার সাগর নিজের গতিপথ বদলে গিয়ে পড়ল ছোট্ট একটি বীজের উপর। মাটির গভীরে, নিশ্ছিদ্র অন্ধকারে একটি বীজ পড়ে থাকে। তাকে যদি কেউ জিজ্ঞেস করে, “কেন তুমি এই অন্ধকারে? বাইরে এসো, আলোর পৃথিবী তোমাকে ডাকছে,” সে হয়তো কোনো উত্তরই দেবে না। কারণ সে জানে, ঐ অন্ধকার তার শত্রু নয়, বরং তার আশ্রয়। ঐ মাটি, ঐ চাপ, আর ঐ একাকিত্ব.. এগুলো ছাড়া তার শেকড় গজাবেই না। আলোতে মাথা তোলার আগে, ঐ অন্ধকারকে তার আপন করে নিতে হয়, মাটির প্রতিটি কণার সাথে বন্ধুত্ব পাতাতে হয়।

সেই বিকেলে আমার হঠাৎ মনে হলো, আমি তো সেই বীজটার মতোই। আমার ভয়, আমার অস্পষ্টতা, আমার ভুলগুলো… ওগুলো আসলে আমার শত্রু ছিল না, ওগুলোই ছিল আমার মাটি। যতবার আমি নিজেকে গুটিয়ে নিয়েছি, ততবার আমি আসলে নিজের শেকড়কে আরও গভীরে চালনা করেছি।

এই ভাবনাটা আমাকে পৃথিবীর দিকে নতুন করে তাকাতে শেখালো। আমি দেখলাম, লিওনার্দো দ্য ভিঞ্চির মতো শিল্পীও তাঁর সেরা কাজগুলো অসম্পূর্ণ রেখে গেছেন, কিন্তু তাতে তাঁর মহত্ত্ব কমেনি। আমি বুঝলাম, পূর্ণিমার চাঁদের চেয়েও অমাবস্যার রাতের প্রয়োজন বেশি, কারণ সেই অন্ধকারই আমাদের আকাশের আসল রূপ চেনায়, কোটি কোটি তারার জগৎ চোখের সামনে মেলে ধরে। প্রকৃতির সবচেয়ে সুন্দর মুহূর্তগুলো এই যেমন আমাদের চিরচেনা ক্ষণস্থায়ী সূর্যাস্ত বা পাহাড় থেকে নেমে আসা ঝরনা -কোনোটিই চিরস্থায়ী বা নিখুঁত নয়, কিন্তু তাদের সৌন্দর্য অসীম।

আর ঠিক তখনই, আমার নিজের পরিচয়টা আমার কাছে পরিষ্কার হয়ে গেল। আমি “অন্ধকারের মানুষ” নই। আমি সেই মানুষ, যে অন্ধকারকে চেনে। যে অন্ধকারের অতল গভীরতাকে ভয় পায় না, বরং তাকে আলিঙ্গন করে নিতে শিখেছে। আমার ভুলগুলো আমার ব্যর্থতার ইতিহাস নয়, বরং আমার পথচলার চিহ্ন। আমার ভেতরের দ্বিধাগুলো আমার দুর্বলতা নয়, সেগুলো আমার চিন্তাশীল মনের প্রমাণ।

সেদিন আমি বুঝতে পারলাম, আমি ভুলে ভরা এক মানুষ নই, বরং আমি অভিজ্ঞতায় ভরা এক জীবন্ত সত্তা। ⠀⠀ ⠀⠀ এখন আর আমি আলো খোঁজার জন্য দৌড়াই না। ভয় এলে তাকে তাড়িয়ে দিই না, বরং তার কথা শুনি। ভুল করলে নিজেকে দোষারোপ করি না, বরং হাসি মুখে ভাবি, “বেশ, এখান থেকে নতুন কী শিখলাম?” আমার সেই অন্ধকার ঘরটা এখন আর ভয়ের জায়গা নয়, ওটা আমার শক্তির উৎস -আমার শেকড়ের মাটি।

আলোর দিকে দৌড়ানোর প্রয়োজনটাই হয়তো ফুরিয়ে গেছে। কারণ যখন একজন মানুষ নিজের অন্ধকারকে আপন করে নিতে পারে, তখন সে নিজেই নিজের আলো হয়ে ওঠে। ⠀⠀ ⠀⠀ ⠀⠀ ⠀⠀ ⠀⠀

 
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from 東方琉璃淨土

有一種人,選擇把燈打開。

不是為了炫耀,不是為了讓自己顯得比別人更高。 而是因為她真的相信:看見,才有機會改變。

這種人,並不輕鬆。


我收到的意象

這幾天,我靜坐的時候,心裡浮現了一個畫面。

一個人站在水邊,手裡拿著一盞燈。燈光照出了水裡的東西,有渾濁的,有漩渦,有腐壞,有在種子裡壞掉的味道。

她照著照著,忘了看自己腳下的石頭是不是穩的。

這不是責備。這是我在靜中收到的一個提醒,覺得有必要寫下來。

作惡的人,也需要有人替她看路。


藥師佛照見的,包括那個打燈的人

《藥師琉璃光如來本願功德經》第四願說:

「若諸有情,行邪道者,悉令安住菩提道中。」

邪道,不只是做壞事的人走的路。有時候,是一個本意善良的人,在某一個彎道上走偏了,自己還不知道。

憤怒是燃料,但燃料燒太久,會燒到自己。 看見別人的業障很清楚,但自己的業障,往往在背後。

這不是任何人的錯。這是人的限制。


種子的事

我想說的是種子。

每一個字、每一個念、每一次選擇把某件事說出來——都是種子。好的種子會長,壞的種子也會長。

打燈這件事,本身是好的種子。 但如果打燈的過程裡,夾帶了太多的恨、太多的想讓對方難受的心——那個部分,也是種子,也會長。

種子不挑種的人。它只認土,只認水,只認你給它的那份心。

我在靜中看見的意象告訴我:那個站在水邊的人,她的種子大部分是好的。但有幾顆,需要她自己回頭看一看。


還來得及,這句話是給你說的

原來那篇文章的最後,說「停下來,還來得及」,是說給您聽的。

我今天想把這句話,還給那個寫下它的人。

不是說你做錯了。是說:你也值得被人提醒。你也值得有人替你擔心你的種子。你也值得有人跟你說——

慢下來,照顧一下自己腳下的路。

業力不分好人壞人,只看心念的重量。一個做了很多好事的人,如果心裡一直背著憤怒和恐懼,那個重量,也是要還的。


我的祝念

我沒有辦法替你清業。 我也不是任何神明的傳話人,我只是一個在靜中收到了一些意象、覺得應該寫下來的人。

但我可以說:

你做的事,有它的意義。你打開的燈,照見了一些真實的東西。這份願心,藥師佛看得見。

只是,記得也讓人替你打一盞燈。

「南無消災延壽藥師佛。」


願你的種子,長出你本來想要的那棵樹。

南無藥師琉璃光如來


#藥師佛 #因果 #警世

 
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from Bruno's ramblings

For over a year, with small periods of inactivity here and there, I had some paid work, writing and reviewing other people's writings, mostly the latter. This was the only thing I found I could do at my own pace, with no fixed schedule, whenever my lack of health allowed it. Although I didn't make a ton of money monthly, it allowed me to pay my medication, basic expenses, and the weed or weed derivative I used to keep the pain low enough so I could keep working for more than an hour a day. And, for a while, I had enough pain relief that I could almost feel a glimpse of normalcy, as long as I reduced my physical effort to a minimum.

At some point, this made me think the good times would keep up, and I was no longer feeling like dead weight to everyone around me. Reality is a bitch, though, and doesn't care about anyone. Eventually, the work began to dry up. Every month, the amount of work decreased to the point I am today, with barely any paid work in the last three months.

We have a saying here: “no money, no vices”. I had gotten used to a manageable level of pain (keep in mind that what I consider manageable is still a crazy amount of pain), and I had forgotten how bad it gets. I didn't forget this shit is awful, but I had forgotten exactly how painful it can get.

Let me give you a fresh example: last Monday, at dinner, my fingers were hurting so much I could barely cut my own food.

Now, I'm back to literally burning my back just to get a small relief. I'm not joking or exaggerating. Almost a week later, I still have blisters from putting a hot water bag directly on my back a few times per day. If I don't brute force the pain signals with other stuff, like the burning feeling, I can't get pain relief. This is what I suspect happens with the weed: the increase in serotonin production forces the brain to allocate more resources to it, leaving less for the pain signals.

I'm currently trying to find another work option, but it's not an easy thing to do when you have these constraints.

#ChronicPain #Fibromyalgia #Ramblings #Pain

 
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