Por George Herbert Mead em A Filosofia do Presente (EUA, 1932)
O tema desta conferência encontra-se na proposição de que a realidade existe em um presente. O presente, naturalmente, implica um passado e um futuro, e negamos existência a ambos. A sugestão de Whitehead de que, à medida que os presentes especiosos variam em extensão temporal, pode-se conceber um único presente capaz de abranger toda a realidade temporal, aparentemente nos deixaria a passagem, mas eliminaria o passado e o futuro. Seja o que mais fosse, isso não seria um presente, pois aquilo de que ele tivesse passado não teria deixado de existir, e aquilo que está por existir já estaria nesse presente inclusivo. Poder-se-ia duvidar se isso ainda preservaria o caráter da passagem, mas, em todo caso, a natureza essencial do presente e da existência teria desaparecido. Pois o que caracteriza um presente é o seu tornar-se e o seu desaparecer. Enquanto o clarão do meteoro atravessa nossos próprios presentes especiosos, ele está inteiramente ali, ainda que apenas por uma fração de minuto. Estender essa fração de minuto a todo o processo do qual ela é um fragmento, conferindo-lhe a mesma solidariedade de existência que o clarão possui na experiência, seria apagar sua natureza como evento. Tal conspecto da existência não seria um presente eterno, pois não seria um presente de modo algum. Tampouco seria uma existência. Pois uma realidade parmenidiana não existe. A existência envolve a não-existência; ela efetivamente ocorre. O mundo é um mundo de eventos.
Há pouco propósito ou proveito em estabelecer antinomias e derrubar uma por meio da outra, ou em relegar a permanência a um mundo subsistente e atemporal enquanto o evento, no qual nada existe além de passagem, é transformado no elemento substancial das coisas existentes. O caráter permanente que nos interessa é aquele que permanece na existência, e diante do qual a mudança também existe. Há, isto é, o passado que se expressa na irrevogabilidade, embora jamais tenha existido na experiência um passado que não tenha mudado com o passar das gerações. Os passados nos quais estamos envolvidos são ao mesmo tempo irrevogáveis e revogáveis. É inútil, ao menos para os propósitos da experiência, recorrer a um passado “real” dentro do qual fazemos descobertas constantes; pois esse passado deve ser contraposto a um presente no qual o emergente aparece, e o passado, que então precisa ser considerado do ponto de vista do emergente, torna-se um passado diferente. O emergente, quando aparece, é sempre encontrado como decorrente do passado, mas antes de aparecer ele não decorre do passado, por definição. É inútil insistir em caracteres universais ou eternos pelos quais eventos passados possam ser identificados independentemente de qualquer emergente, pois estes ou estão além de nossa formulação ou tornam-se tão vazios que não servem a nenhum propósito de identificação. A importância do infinito no pensamento matemático antigo e moderno ilustra essa impotência.
Permanece a possibilidade de empurrar toda a realidade efetiva para um mundo de eventos em um espaço-tempo minkowskiano que transcende nossos referenciais, e os caracteres dos eventos para um mundo de entidades subsistentes. Até que ponto tal concepção da realidade pode ser logicamente elaborada eu não pretenderei discutir. O que me parece interessante é o significado que um conceito como o de irrevogabilidade possui na experiência.
Não gastarei tempo nem retórica apresentando o quadro em movimento das histórias que sucederam umas às outras desde os mitos das eras primitivas até o relato de Eddington ou Jeans sobre “O Universo ao Nosso Redor”. Interessa apenas notar que a rapidez com que esses passados se sucedem aumentou continuamente com o aumento da exatidão crítica no estudo do passado. Há uma ausência completa de finalidade em tais apresentações. É, naturalmente, implicação de nosso método de pesquisa que o historiador, em qualquer campo da ciência, será capaz de reconstruir o que aconteceu como um relato autenticado do passado. Contudo, aguardamos com vivo interesse a reconstrução, no mundo que será, do mundo que foi, pois percebemos que o mundo que será não pode diferir do mundo que é sem reescrever o passado para o qual agora olhamos retrospectivamente.
E, no entanto, o caráter de irrevogabilidade jamais se perde. Aquilo que aconteceu foi além de qualquer possibilidade de recuperação e, seja o que tenha sido, seu deslizar para o passado parece colocá-lo além da influência de eventos emergentes em nossa própria conduta ou na natureza. É o “o que ele foi” que muda, e esse título aparentemente vazio de irrevogabilidade liga-se a ele, venha ele a tornar-se o que for. A importância de ser irrevogável liga-se ao “o que ele foi”, e o “o que ele foi” é precisamente aquilo que não é irrevogável. Há uma finalidade que acompanha o desaparecimento de cada evento. A toda descrição desse evento essa finalidade é acrescentada, mas toda a importância dessa finalidade pertence ao mesmo mundo da experiência ao qual essa descrição pertence.
Ora, contraposta a essa incidência evidente de finalidade em um presente está a suposição habitual de que o passado que nos determina está lá. A verdade é que o passado está lá, em sua certeza ou probabilidade, no mesmo sentido em que o enquadramento de nossos problemas está lá. Parto da suposição de que a cognição, e o pensamento como parte do processo cognitivo, é reconstrutiva, porque a reconstrução é essencial para a conduta de um ser inteligente no universo. Isso é apenas parte da proposição mais geral de que mudanças estão ocorrendo no universo e de que, como consequência dessas mudanças, o universo está se tornando um universo diferente. A inteligência é apenas um aspecto dessa mudança. Trata-se de uma mudança que é parte de um processo vivo contínuo que tende a manter-se. O que é peculiar à inteligência é que ela constitui uma mudança que envolve uma reorganização mútua, um ajuste no organismo e uma reconstituição do ambiente; pois, em seus termos mais elementares, qualquer mudança no organismo acarreta uma diferença de sensibilidade e de resposta, e uma diferença correspondente no ambiente. É dentro desse processo que surge a chamada inteligência consciente, pois a consciência é tanto a diferença que surge no ambiente em razão de sua relação com o organismo em seu processo orgânico de ajustamento quanto a diferença no organismo em razão da mudança que ocorreu no ambiente. Referimo-nos à primeira como significado, e à segunda como ideação. O reflexo do organismo no ambiente e o reflexo do ambiente no organismo são fases essenciais na manutenção do processo vital que constitui a inteligência consciente.
Considerarei o significado da consciência em uma conferência posterior. No momento, meu interesse é apenas localizar aquela atividade à qual a cognição pertence e da qual o pensamento é uma expressão. Estou distinguindo, em particular, aquela existência do mundo para o organismo individual e social que corresponde ao uso mais geral do termo consciência daquela situação que corresponde ao termo “consciência de”. É esta última que, a meu ver, conota cognição. A distinção entre ambas coincide com aquela que sugeri entre o problema e o seu contexto.
O contexto dentro do qual ocorre o ajustamento é essencial para esse ajustamento e se insere naquilo que pertence ao “campo da consciência”, tal como esse termo é geralmente utilizado — especialmente quando reconhecemos as implicações daquilo que está mais definidamente no campo da consciência. O termo “campo da percepção” às vezes é usado no mesmo sentido, mas é mais propenso a carregar consigo o valor de “percepção de” do que o termo “consciência”. Em outras palavras, no conhecimento há sempre a pressuposição de um mundo que está aí e que fornece a base para o processo inferencial e ideacional da cognição. Isso, naturalmente, restringe a cognição ou a “consciência de” àquilo que contém em si uma dimensão inferencial.
Ora, o mundo que está aí em sua relação com o organismo, e que estabelece as condições para o ajustamento do organismo e a consequente mudança nesse mundo e desse mundo, inclui o seu passado. Abordamos toda questão de caráter histórico com um certo aparato, que pode ser cuidadosamente definido, e esse material mais tecnicamente definido — documentos, testemunhos orais e vestígios históricos — sustenta um dado passado que se estende retroativamente a partir das memórias de ontem e de hoje, e que não colocamos em dúvida. Utilizamos esse aparato para responder hipoteticamente às questões históricas que nos pressionam e para testar nossas hipóteses quando estas foram elaboradas.
Compreende-se, naturalmente, que qualquer parte desse aparato e do passado no qual ele está inserido pode ela própria tornar-se objeto de dúvida, mas mesmo o ceticismo mais radical, em sua própria formulação, não consegue escapar da memória das palavras e ideias que formulam a doutrina cética.
Algum passado dado desse tipo está implicado nas questões referentes ao passado. E esse passado dado amplia o presente especioso. É verdade que o acordo último entre os significados de dois documentos pode residir na experiência de um presente especioso, mas apenas sob a suposição da comparação que anteriormente fizemos entre os documentos. Essa comparação se estende para trás de nós e permanece inquestionada até que alguém aponte nela um erro e assim a coloque em questão, mas então apenas com base no passado dele próprio e de outros.
Tomemos a engenhosa sugestão — creio que do pai de Gosse — de que Deus criou o mundo com seus fósseis e outras evidências de um passado remoto para pôr à prova a fé dos homens; e atualizemos a sugestão para meia hora atrás. Suponhamos que o mundo tenha vindo à existência, com sua estrutura presente exata, incluindo os chamados conteúdos de nossas mentes, há trinta minutos, e que tivéssemos alguma evidência ulterior, análoga às concepções fundamentalistas do Sr. Gosse, de que isso tivesse ocorrido. Poderíamos examinar a hipótese apenas à luz de algum passado que estivesse aí, por mais reduzido que ele tivesse se tornado. E esse passado se estende indefinidamente, pois nada o interrompe, uma vez que qualquer momento dele, sendo representado, possui o seu próprio passado, e assim sucessivamente.
O que queremos dizer, então, com a afirmação de que existiu algum passado real com todos os seus eventos, independentemente de qualquer presente, cujos conteúdos estamos lenta e imperfeitamente decifrando? Retornamos, naturalmente, às próprias correções que fazemos em nossa pesquisa histórica e ao grau mais elevado de evidência daquilo que foi descoberto em comparação com o que podia ser oferecido pela descrição descartada. Graus mais altos de probabilidade e evidências adicionais implicam que há ou houve alguma realidade ali que estamos trazendo à luz.
Há, portanto, uma referência palpável ao passado inquestionado por meio de cuja evidência investigamos e solucionamos os problemas que surgem. E o próprio fato a que me referi — o de que qualquer descrição aceita do passado, embora não esteja agora em questão, pode concebivelmente vir a ser posta em dúvida — parece implicar algum passado inquestionável que serviria de pano de fundo para a solução de todos os problemas concebíveis. Admitamos isso provisoriamente e façamos a pergunta ulterior: esse passado independente de qualquer presente entra de fato em nossas investigações — quero dizer, como uma pressuposição que desempenha algum papel em nosso pensamento? Se retirássemos essa pressuposição, nosso aparato e sua operação na pesquisa histórica seriam afetados de algum modo?
Certamente não, se nos ocuparmos apenas dos problemas com os quais os historiadores da história social ou científica se ocupam. Aqui a referência é sempre e exclusivamente ao passado dado do qual surgiu um problema; e os contornos do problema e os testes aos quais as hipóteses apresentadas são submetidas encontram-se nesse passado dado. Como vimos, esse passado dado pode ele próprio, em uma data posterior, ser afetado pela dúvida e trazido à discussão. E, no entanto, a possível dubiedade do passado dado não afeta de maneira alguma a empreitada. Esta é outra maneira de dizer que a dubiedade de todos os passados possíveis jamais entra no pensamento do historiador.
A única aproximação a tal entrada é a exigência de que todos os passados anteriores sejam explicados e incorporados à formulação mais recente. E cada passado anterior, na medida em que é reconstruído, é nessa mesma medida mostrado como incorreto. Nas implicações de nosso método parecemos aproximar-nos de uma formulação-limite, ainda que no infinito, que preencheria todas as lacunas e corrigiria todos os erros. Mas, se estamos fazendo correções, deve aparentemente existir alguma descrição que seja correta; e mesmo se contemplarmos um futuro indefinido de pesquisa científica empenhada nessa tarefa, jamais escapamos dessa implicação.
Há outra maneira de dizer isso: nosso trabalho de pesquisa é um trabalho de descoberta, e só podemos descobrir aquilo que está lá, quer o descubramos ou não. Penso, contudo, que esta última afirmação está errada, se se supõe que implica haver ou ter havido um passado independente de todos os presentes, pois pode haver — e sem dúvida há — em qualquer presente com seu próprio passado uma vasta quantidade de coisas que não descobrimos, e, ainda assim, aquilo que descobrimos ou deixamos de descobrir assumirá um significado diferente e terá uma estrutura diferente como evento quando visto de algum ponto de vista posterior.
Há erro semelhante na concepção da correção do erro passado e na sugestão de que ela implica o absolutamente correto, ainda que jamais o alcance? Refiro-me à correção “em si” de uma descrição de eventos, implícita em uma correção feita por um historiador posterior. Penso que a correção absoluta que se encontra no pensamento do historiador seria a apresentação completa do passado dado, se todas as suas implicações fossem desenvolvidas. Se pudéssemos conhecer tudo o que está implicado em nossas memórias, documentos e monumentos, e fôssemos capazes de controlar todo esse conhecimento, o historiador suporia possuir aquilo que é absolutamente correto.
Mas um historiador do tempo de Aristóteles, ampliando dessa maneira seu passado conhecido, teria alcançado um passado correto que estaria em total desacordo com o mundo conhecido da ciência moderna; e há apenas diferenças de grau entre tal comparação e aquelas que as mudanças devidas à pesquisa vêm produzindo em nossos passados ano após ano. Se estamos nos referindo a qualquer outra correção “em si”, ela deve ser ou a de uma realidade que, por definição, jamais poderia entrar em nossa experiência, ou a de uma meta no infinito na qual cessa o tipo de experiência em que nos encontramos.
É, naturalmente, possível supor que a experiência dentro da qual nos encontramos esteja incluída em algum mundo ou experiência que a transcenda. Meu único ponto é que tal suposição não desempenha papel algum em nossos juízos sobre a correção do passado. Podemos ter outras razões, teológicas ou metafísicas, para supor um passado real que pudesse ser dado em uma apresentação independente de qualquer presente, mas essa suposição não entra nos postulados nem na técnica de qualquer tipo de pesquisa histórica.
Embora a concepção de um passado irrevogável “em si” seja talvez o pano de fundo comum do pensamento, é interessante retornar à afirmação que fiz anteriormente de que o cientista pesquisador aguarda não apenas com equanimidade, mas também com vivo interesse, as mudanças fundamentais que pesquisas posteriores trarão às determinações mais exatas que hoje podemos fazer. A imagem que isso oferece é a de presentes deslizando uns nos outros, cada qual com um passado que lhe é referível, cada passado incorporando em si aqueles que o precederam e, em certa medida, reconstruindo-os a partir de seu próprio ponto de vista.
No momento em que tomamos esses presentes anteriores como existências separadas da apresentação deles como passados, eles deixam de ter significado para nós e perdem qualquer valor que possam ter para interpretar nosso próprio presente e determinar nossos futuros. Eles podem ser localizados na geometria do espaço-tempo de Minkowski, mas, mesmo sob essa suposição, só podem alcançar-nos por meio de nossos próprios referenciais ou perspectivas; e o mesmo seria verdadeiro sob as suposições de qualquer outra metafísica que localizasse a realidade do passado em passados independentes de qualquer presente.
Provavelmente se diria que a irrevogabilidade do passado está localizada em tal ordem metafísica, e é esse o ponto que desejo discutir. O historiador não duvida de que algo aconteceu. Sua dúvida é quanto ao que aconteceu. Ele também procede com a suposição de que, se pudesse dispor de todos os fatos ou dados, poderia determinar o que foi que aconteceu. Isto é, sua ideia de irrevogabilidade liga-se, como já afirmei, ao “o quê” que aconteceu, assim como ao desaparecimento do evento.
Mas, se há emergência, o reflexo disso no passado ocorre imediatamente. Há um novo passado, pois, a partir de cada nova ascensão, a paisagem que se estende atrás de nós torna-se uma paisagem diferente. A analogia é falha porque as alturas estão ali, e os aspectos das paisagens que elas revelam também estão ali e poderiam ser reconstruídos a partir do presente do viajante, se ele tivesse diante de si todas as implicações de seu presente; ao passo que o emergente não está ali de antemão e, por definição, não poderia ser incluído nem mesmo na apresentação mais completa do presente. A realidade metafísica sugerida pela expressão de Eddington de que nossa experiência é uma aventura da mente na geometria ordenada do espaço-tempo corresponderia, contudo, a uma paisagem preexistente.
Há, naturalmente, a doutrina alternativa de Whitehead, segundo a qual as perspectivas existem na natureza como sistemas temporais que se intersectam, produzindo assim não apenas diferentes presentes, mas também diferentes passados que lhes correspondem. Não consigo ver, entretanto, como Whitehead, com a geometria fixa do espaço-tempo que ele aceita, pode escapar de uma ordem fixa de eventos, ainda que o “o quê” desses eventos dependa da ingressão de objetos eternos surgidos por meio da ação de Deus, dando assim origem à emergência.
O ponto em questão é saber se a necessidade com a qual o cientista lida é uma necessidade que determina o presente a partir de um passado independente desse ou de qualquer presente. Um espaço-tempo ordenado envolve tal necessidade metafísica. Desse ponto de vista, os diferentes passados da experiência são reinterpretações subjetivas, e o físico não está interessado em torná-los parte do esquema total dos eventos. A filosofia de Whitehead é uma tentativa valente de harmonizar esse tipo de necessidade geométrica com a emergência e com as diferenças entre perspectivas variadas. Não acredito que isso possa ser realizado, mas estou mais interessado na resposta à questão de saber se a necessidade envolvida nas relações entre presente e passado deriva de tal necessidade metafísica, isto é, de uma necessidade independente de qualquer presente.
Retorno aqui à minha proposição original de que uma realidade que transcende o presente deve manifestar-se no presente. Essa alternativa é aquela encontrada na atitude do cientista pesquisador, quer ele a reconheça em sua doutrina ou não. Ela consiste em que há e sempre haverá uma relação necessária entre o passado e o presente, mas que o presente no qual o emergente aparece aceita aquilo que é novo como parte essencial do universo e, desse ponto de vista, reescreve seu passado. O emergente então deixa de ser um emergente e passa a decorrer do passado que substituiu o passado anterior.
Falamos da vida e da consciência como emergentes, mas nossas naturezas racionalistas jamais ficarão satisfeitas enquanto não tivermos concebido um universo no qual elas surjam inevitavelmente daquilo que as precedeu. Não conseguimos fazer do emergente uma parte da relação pensante entre passado e presente e, mesmo quando aparentemente o aceitamos, levamos a bioquímica e a psicologia behaviorista tão longe quanto podemos no esforço de reduzir a emergência a um ponto evanescente. Mas, mesmo concedendo ao cientista pesquisador uma vitória completa — um universo inteiramente racionalizado, dentro do qual haja uma ordem determinada — ele ainda aguardará o aparecimento de novos problemas que emergirão em novos presentes para serem novamente racionalizados com outro passado, o qual incorporará harmoniosamente o antigo passado em si mesmo.
Reconhecidamente, a racionalidade completa do universo baseia-se em uma indução, e aquilo em que essa indução se fundamenta é um ponto controverso na doutrina filosófica. Admitida qualquer razão justificável para acreditar nela, todas as nossas correlações a fortalecem enormemente. Mas existe tal razão? Nesse ponto crucial há a maior incerteza. Evidentemente, o procedimento do cientista ignora isso. Para ele, não se trata de uma questão controversa. Não é, de modo algum, uma questão em seu procedimento. Ele está simplesmente ocupado em encontrar uma ordem racional e em estendê-la retrospectivamente, para que possa prever o futuro.
É aqui que seu mundo dado funciona. Se ele consegue ajustar sua hipótese a esse mundo e se ela antecipa aquilo que ocorre, então ela se torna a descrição do que aconteceu. Se fracassa, outra hipótese a substitui e outro passado substitui aquele que a primeira hipótese implicava.
Em suma, o passado (ou a estrutura significativa do passado) é tão hipotético quanto o futuro. O relato de Jeans sobre o que vem ocorrendo no interior de Aldebarã ou de Sírius Menor durante os últimos milhões de anos é muito mais hipotético do que o catálogo do astrônomo acerca dos eclipses que ocorrerão no próximo século e dos lugares onde serão visíveis. E a suposição metafísica de que houve um passado definido de eventos nada acrescenta nem subtrai da segurança de qualquer hipótese que ilumine nosso presente.
Ela oferece, de fato, a forma vazia dentro da qual estendemos qualquer hipótese e desenvolvemos suas implicações, mas não possui sequer a fixidez que Kant encontrou em suas formas da intuição. Os paradoxos da relatividade, aquilo que Whitehead denomina os diferentes significados do tempo em diferentes sistemas temporais, revelam a natureza hipotética dos esquemas regulados do passado dentro dos quais devemos encaixar os eventos que nossas teorias físicas desenrolam atrás de nós.
Podemos recorrer ao espaço-tempo absoluto com suas coincidências de eventos e os intervalos entre eles, mas mesmo aqui permanece discutível se essa interpretação das transformações de um referencial para outro é definitiva, se alcançamos a estrutura última do universo físico ou apenas um aparato matemático mais poderoso para atingir maior exatidão em medições e cálculos, cuja interpretação variará com a história da física matemática. O espaço-tempo de Minkowski é tão hipotético quanto a constituição ondulatória da matéria proposta por de Broglie.
Mas a irrevogabilidade do evento passado permanece mesmo que estejamos incertos quanto ao que foi o evento passado. Nem mesmo o caráter reversível dos processos físicos que as equações matemáticas parecem revelar abala esse caráter da experiência temporal. Pode-se conceber que, visto de uma enorme distância, a ordem de alguns daqueles que chamamos de mesmos eventos possa diferir em diferentes perspectivas, mas, dentro de qualquer perspectiva, aquilo que passou não pode recorrer. Nessa perspectiva, o que aconteceu aconteceu, e qualquer teoria apresentada deve abrir espaço para essa ordem dentro dessa perspectiva.
Há uma direção temporal inalterável naquilo que está ocorrendo e, se pudermos vincular outros processos a essa passagem, poderemos atribuir-lhes tanta certeza quanto o grau dessa vinculação justificar. Dado um certo valor para a velocidade de um corpo em movimento em determinado referencial, podemos determinar onde o corpo necessariamente estará. Nosso problema consiste em determinar exatamente o que precedeu aquilo que está ocorrendo, para que a direção do progresso temporal possa determinar o que o mundo virá a ser.
Há um certo processo temporal em curso na experiência. Aquilo que ocorreu desemboca naquilo que está ocorrendo, e, nessa passagem, o que ocorreu determina espaço-temporalmente aquilo que está passando para o futuro. Assim, na medida em que possamos determinar as constantes do movimento, podemos seguir essa determinação, e nossa análise procura resolver o acontecimento, tanto quanto possível, em movimento. Em geral, uma vez que a própria passagem é dada na experiência, a direção das mudanças em curso condiciona parcialmente aquilo que ocorrerá.
O evento que ocorreu e a direção do processo em andamento formam a base para a determinação racional do futuro. O passado irrevogável e a mudança em curso são os dois fatores aos quais vinculamos todas as nossas especulações a respeito do futuro. A probabilidade encontra-se no caráter do processo que está ocorrendo na experiência. Contudo, por mais avidamente que busquemos estruturas espaço-temporais que tragam consigo resultados dedutíveis, ainda assim reconhecemos relações entre as coisas em seus processos que não podem ser resolvidas em elementos quantitativos; e, embora tanto quanto possível as correlacionemos com caracteres mensuráveis, reconhecemo-las, em todo caso, como condições determinantes daquilo que está ocorrendo.
Buscamos seus antecedentes no passado e julgamos o futuro pela relação desse passado com aquilo que está ocorrendo. Todas essas relações dentro do processo em curso são relações determinantes daquilo que será, embora a forma específica dessa determinação constitua o problema científico de qualquer situação particular. A efetividade da determinação dentro da passagem da experiência direta é aquilo que Hume, por meio de suas pressuposições e de seu tipo de análise, eliminou da experiência, e é também aquilo que confere à dedução kantiana das categorias a validade que ela possui.
É tarefa da filosofia contemporânea colocar em congruência, de um lado, essa universalidade da determinação, que constitui o texto da ciência moderna, e, de outro, a emergência do novo, que pertence não apenas à experiência dos organismos sociais humanos, mas também é encontrada em uma natureza que a ciência e a filosofia que a seguiu separaram da natureza humana. A dificuldade que imediatamente se apresenta é que o emergente mal apareceu e já começamos a racionalizá-lo; isto é, procuramos mostrar que ele, ou ao menos as condições que determinam sua aparição, podem ser encontradas no passado que estava por trás dele.
Assim, os passados anteriores dos quais ele emergiu como algo que não o envolvia são incorporados em um passado mais abrangente que efetivamente conduz até ele. Ora, o que isso significa é que tudo o que acontece, inclusive o emergente, acontece sob condições determinantes — especialmente, do ponto de vista das ciências exatas, sob condições espaço-temporais que conduzem a conclusões dedutíveis acerca do que ocorrerá dentro de certos limites, mas também sob condições determinantes de natureza qualitativa, cujas garantias residem apenas na probabilidade —, embora essas condições jamais determinem completamente o “o que é” daquilo que ocorrerá.
A água, distinta das combinações de oxigênio e hidrogênio, pode surgir. A vida e a chamada consciência podem surgir. E os quanta podem surgir, embora se possa argumentar que tal surgimento se encontra em um “nível” diferente daquele da vida e da consciência. Quando esses emergentes apareceram, tornaram-se parte das condições determinantes que ocorrem em presentes reais, e estamos particularmente interessados em apresentar o passado que, na situação diante de nós, condicionou o aparecimento do emergente, especialmente de tal maneira que possamos conduzir a novas aparições desse objeto.
Orientamo-nos não com referência ao passado que foi um presente dentro do qual o emergente apareceu, mas em direção a uma reformulação do passado enquanto condicionante do futuro, para que possamos controlar seu reaparecimento. Quando a vida apareceu, pudemos reproduzir vida; e, dada a consciência, podemos controlar sua aparição e suas manifestações. Mesmo a descrição do passado dentro do qual o emergente apareceu é inevitavelmente feita do ponto de vista de um mundo dentro do qual o próprio emergente é tanto um fator condicionante quanto condicionado.
Não poderíamos trazer de volta esses presentes passados simplesmente tal como ocorreram — se é que estamos justificados em usar essa expressão — exceto como presentes. Uma apresentação exaustiva deles equivaleria apenas a revivê-los. Isto é, um presente deslizando para outro não conota aquilo que se entende por passado. Mas mesmo essa afirmação implica que houve tais presentes deslizando uns nos outros e, quer os consideremos desse ponto de vista ou não, parecemos implicar sua realidade enquanto tais, como a estrutura dentro da qual deve situar-se o tipo de passado que nos interessa, se ele é um aspecto do passado real.
Deixando de lado as ambiguidades que tal afirmação contém, o que quero enfatizar é que a irrevogabilidade do passado não deriva dessa concepção do passado. Pois, em nosso uso do termo irrevogabilidade, estamos apontando para aquilo que deve ter sido, e é uma estrutura e um processo no presente que constituem a fonte dessa necessidade. Certamente não podemos retornar a tal passado e testar nossas conjecturas por meio da inspeção efetiva de seus eventos em seu acontecer. Testamos nossas conjecturas acerca do passado pelas direções condicionantes do presente e pelos acontecimentos posteriores no futuro, os quais devem ser de certo tipo se o passado que concebemos realmente existiu.
A força da irrevogabilidade encontra-se, então, na extensão da necessidade com que aquilo que acaba de acontecer condiciona aquilo que está emergindo no futuro. O que ultrapassa isso pertence a um quadro metafísico que não tem interesse nos passados que surgem atrás de nós.
Na análise que empreendi, chegamos então, primeiro, à passagem dentro da qual aquilo que está ocorrendo condiciona aquilo que está surgindo. Tudo o que ocorre acontece sob condições necessárias. Em segundo lugar, essas condições, embora necessárias, não determinam em sua plena realidade aquilo que emerge. Estamos obtendo interessantes reflexos dessa situação a partir da crítica que o cientista faz de seus próprios métodos de alcançar a determinação exata da posição e da velocidade e das implicações dos quanta.
O que aparece nessa crítica é que, embora o cientista jamais abandone o condicionamento daquilo que ocorre por aquilo que aconteceu anteriormente, expresso em termos de probabilidade, ele se vê perfeitamente capaz de pensar como emergentes até mesmo aqueles eventos que estão sujeitos à determinação mais exata. Não estou tentando prever qual interpretação futura será dada às especulações de de Broglie, Schröder e Planck. Estou apenas indicando que, mesmo no campo da física matemática, o pensamento rigoroso não implica necessariamente que o condicionamento do presente pelo passado traga consigo a determinação completa do presente pelo passado.
Terceiro, na passagem, o condicionamento daquilo que está ocorrendo por aquilo que ocorreu, do presente pelo passado, está presente. O passado, nesse sentido, está no presente; e, naquilo que chamamos de experiência consciente, sua presença manifesta-se na memória e no aparato histórico que amplia a memória, como aquela parte da natureza condicionante da passagem que se reflete na experiência do indivíduo orgânico.
Se todos os objetos em um presente são condicionados pelos mesmos caracteres na passagem, seus passados são implicitamente os mesmos; mas se, para seguir uma sugestão tomada das especulações acerca dos quanta, um elétron dentre dois mil libera energia quando não há condições determinantes para a seleção desse elétron em vez dos outros mil novecentos e noventa e nove, é evidente que o passado tal como se manifesta na conduta desse elétron será de um tipo que nem sequer implicitamente será o mesmo que o dos outros naquele grupo, embora seu salto seja condicionado por tudo o que ocorreu antes.
Se, entre dois mil indivíduos sob condições sociais desagregadoras, um comete suicídio quando, tanto quanto se pode ver, um era tão propenso quanto outro a sucumbir, seu passado possui uma natureza particularmente pungente que está ausente do passado dos demais, embora seu suicídio seja uma expressão do passado. O passado está ali condicionando o presente e sua passagem para o futuro, mas, na organização de tendências incorporadas em um indivíduo, pode haver um emergente que confere a essas tendências uma estrutura que pertence apenas à situação desse indivíduo.
As tendências provenientes da passagem passada e do condicionamento inerente à passagem tornam-se influências diferentes quando assumem essa estrutura organizada de tendências. Isso seria tão verdadeiro para o equilíbrio entre processos de desagregação e aglomeração em uma estrela quanto para o ajustamento recíproco entre uma forma viva e seu ambiente. A relação estrutural em seu equilíbrio ou ajustamento recíproco organiza aqueles processos em passagem que se refletem retrospectivamente e nos conduzem a uma descrição da história da estrela.
Como Dewey sustentou, os eventos aparecem como histórias que possuem um desfecho, e, quando um processo histórico está ocorrendo, a organização das fases condicionantes do processo é o elemento novo que não é previsível a partir das fases separadas em si mesmas, e que imediatamente estabelece o cenário para um passado que conduz a esse resultado. A organização de qualquer coisa individual traz consigo a relação dessa coisa com processos que ocorreram antes que essa organização se estabelecesse. Nesse sentido, o passado dessa coisa é “dado” no presente em passagem da própria coisa, e nossas histórias das coisas são elaborações daquilo que está implícito nessa situação. Esse “dado” na passagem está ali e constitui o ponto de partida para uma estrutura cognitiva de um passado.
Quarto, esse caráter emergente, sendo responsável por uma relação entre processos em passagem, estabelece um passado dado que é, por assim dizer, uma perspectiva do objeto dentro da qual esse caráter aparece. Podemos conceber um objeto como, digamos, algum átomo de hidrogênio que permaneceu o que é através de períodos incomensuráveis em completo ajustamento ao seu entorno, que permaneceu real no deslizar de um presente para outro, ou melhor, em uma passagem contínua, ininterrupta e sem acontecimentos. Para tal objeto haveria existência ininterrupta, mas não passado, a menos que retornássemos à ocasião em que emergiu como átomo de hidrogênio.
Isso equivale a dizer que, onde o ser é existência mas não devir, não há passado, e que a determinação envolvida na passagem é uma condição do passado, mas não sua realização. A relação de passagem envolve naturezas distinguíveis nos eventos antes que passado, presente e futuro possam surgir, assim como a extensão é uma relação que envolve coisas físicas distinguíveis antes que um espaço estruturável possa surgir. O que torna um evento distinguível de outro é um devir que afeta a natureza interna do evento.
Parece-me que a extrema matematização da ciência recente, na qual a realidade do movimento é reduzida a equações em que a mudança desaparece numa identidade, e na qual espaço e tempo desaparecem em um contínuo quadridimensional de eventos indistinguíveis que não é nem espaço nem tempo, é um reflexo do tratamento do tempo como passagem sem devir.
O que é então um presente? A definição de Whitehead nos remeteria à extensão temporal da passagem dos eventos que compõem uma coisa, uma extensão suficientemente ampla para tornar possível que a coisa seja aquilo que é. A de um átomo de ferro não precisaria ser mais longa do que o período dentro do qual a revolução de cada um de seus elétrons em torno do núcleo se completa. O universo durante esse período constituiria uma duração do ponto de vista do átomo. O presente especioso de um indivíduo humano seria presumivelmente um período dentro do qual ele pudesse ser ele mesmo.
Do ponto de vista que sugeri, ele envolveria um devir. Deve haver ao menos algo que aconteça à coisa e nela, algo que afete sua natureza, para que um momento possa ser distinguido de outro, para que possa haver tempo. Mas há, em tal afirmação, um conflito entre princípios de definição. De um ponto de vista, estamos buscando aquilo que é essencial a um presente; de outro, estamos buscando o limite inferior em um processo de divisão.
Referir-me-ei primeiro a este último, pois ele envolve a questão da relação do tempo com a passagem — com aquilo dentro do qual o tempo parece situar-se e em termos de cuja extensão colocamos o tempo e comparamos tempos. A milésima parte de um segundo possui um significado real, e podemos conceber o universo afundando em um mar de entropia dentro do qual todo devir tenha cessado.
Estamos lidando aqui com uma abstração da extensão da mera passagem em relação ao tempo dentro do qual os eventos acontecem porque se tornam. No tratamento de Whitehead, isso é chamado de “abstração extensiva” e conduz a uma partícula-evento assim como a análise matemática conduz ao diferencial. E uma partícula-evento deveria ter a mesma relação com algo que se torna que o diferencial de uma mudança, tal como uma velocidade acelerada, tem com o processo inteiro.
Nessa medida, a abstração extensiva é um método de análise e integração e não requer outra justificação além de seu sucesso. Mas Whitehead a utiliza como método de abstração metafísica e encontra, no mero acontecer, o evento, a substância daquilo que se torna. Ele transfere o conteúdo daquilo que se torna para um mundo de “objetos eternos” que ingressam nos eventos sob o controle de um princípio situado fora de sua ocorrência.
Assim, embora a existência daquilo que ocorre seja encontrada no presente, o “o que é” daquilo que ocorre não surge do acontecer; ele acontece ao evento por meio do processo metafísico da ingressão. Isso me parece um uso impróprio da abstração, pois conduz a uma separação metafísica daquilo que foi abstraído em relação à realidade concreta da qual a abstração foi feita, em vez de deixá-lo como um instrumento no controle intelectual dessa realidade.
Bergson refere-se, penso eu, ao mesmo uso impróprio da abstração, em outro contexto, como a espacialização do tempo, contrastando a natureza exclusiva de tais momentos temporais com a interpenetração dos conteúdos da “duração” real.
Se, ao contrário, reconhecermos aquilo que se torna como o evento que, em sua relação com outros eventos, dá estrutura ao tempo, então a abstração da passagem em relação àquilo que está ocorrendo é puramente metodológica. Levamos nossa análise tão longe quanto o controle do objeto exige, mas sempre reconhecendo que aquilo que é abstraído possui sua realidade na integração daquilo que está ocorrendo.
Que esse é o resultado de definir o evento como aquilo que se torna é evidente, penso eu, na aplicação e no teste de nossas hipóteses mais abstrusas. Para terem valor e serem acreditadas, elas devem apresentar novos eventos surgindo de antigos, como a expansão ou contração do universo nas especulações de Einstein e Weyl acerca das aparentes recessões em velocidades enormes de nebulosas distantes, ou o arrancamento de elétrons dos núcleos atômicos no centro dos corpos estelares nas especulações de Jeans sobre a transformação da matéria em radiação.
E esses acontecimentos devem ajustar-se de tal modo às nossas descobertas experimentais que possam encontrar sua realidade na concreção daquilo que está ocorrendo em um presente efetivo. Os passados que eles estendem atrás de nós são tão hipotéticos quanto o futuro que nos ajudam a prever. Tornam-se válidos na interpretação da natureza na medida em que apresentam uma história de devires na natureza conduzindo àquilo que está se tornando hoje, na medida em que revelam aquilo que se ajusta ao padrão que emerge do estrondoso tear do tempo, e não na medida em que erigem entidades metafísicas que são o tênue reverso de um aparato matemático.
Se, na expressão de Bergson, a “duração real” torna-se tempo por meio do aparecimento de eventos únicos, distinguíveis entre si por sua natureza qualitativa — algo que é emergente em cada evento —, então a mera passagem é um modo de ordenar esses eventos. Mas o que é essencial a essa ordenação é que, em cada intervalo isolado, deve ser possível que algo se torne, que algo único surja. Estamos sujeitos a uma ilusão psicológica se supomos que o ritmo da contagem e a ordem que surge da contagem correspondem a uma estrutura da própria passagem, separada dos processos que entram em ordem por meio da emergência dos eventos.
Jamais alcançamos o próprio intervalo entre eventos, exceto em correlações entre eles e outras situações dentro das quais encontramos congruência e substituição, algo que nunca pode ocorrer na passagem enquanto tal. Alcançamos aquilo que pode ser chamado de igualdade funcional de intervalos representados dentro de processos que envolvem equilíbrio e ritmo, mas, com base nisso, estabelecer o tempo como uma quantidade dotada de uma natureza essencial que permite sua divisão em porções iguais de si mesmo constitui um uso injustificado da abstração.
Podemos reconstruir hipoteticamente os processos passados implicados naquilo que está ocorrendo como base para a construção cognitiva do futuro que está surgindo. Aquilo de que os dados experimentais nos asseguram é que compreendemos suficientemente o que está ocorrendo para prever o que terá lugar, não que tenhamos alcançado uma imagem correta do passado independente de qualquer presente, pois esperamos que essa imagem se altere à medida que novos eventos emergem.
Nessa atitude, estamos relacionando em nossa antecipação presentes que deslizam uns nos outros, e seus passados pertencem a eles. Eles precisam ser reconstruídos à medida que são incorporados em um novo presente e, como tais, pertencem a esse presente, e não mais ao presente do qual passamos para o presente atual.
Um presente, então, em contraste com a abstração da mera passagem, não é um pedaço recortado arbitrariamente da dimensão temporal de uma realidade uniformemente fluente. Sua principal referência é ao evento emergente, isto é, à ocorrência de algo que é mais do que os processos que conduziram até ele e que, por sua mudança, continuidade ou desaparecimento, acrescenta às passagens posteriores um conteúdo que elas de outro modo não possuiriam. A marca da passagem sem eventos emergentes é sua formulação em equações nas quais os chamados instantes desaparecem numa identidade, como apontou Meyerson.
Dado um evento emergente, suas relações com processos antecedentes tornam-se condições ou causas. Tal situação é um presente. Ela delimita e, em certo sentido, seleciona aquilo que tornou possível sua peculiaridade. Cria, com sua singularidade, um passado e um futuro. Tão logo a consideramos, ela se torna uma história e uma profecia. Seu próprio diâmetro temporal varia conforme a extensão do evento.
Pode haver uma história do universo físico como aparecimento de uma galáxia de galáxias. Há uma história de todo objeto que é único. Mas não haveria tal história do universo físico até que a galáxia aparecesse, e ela continuaria apenas enquanto a galáxia se mantivesse contra forças disruptivas e coesivas. Se perguntarmos qual pode ser a extensão temporal da singularidade responsável por um presente, a resposta deve ser, nos termos de Whitehead, que ela é um período suficientemente longo para permitir que o objeto seja aquilo que é.
Mas a questão é ambígua, pois o termo “extensão temporal” implica uma medida do tempo. O passado, tal como aparece com o presente e o futuro, é a relação do evento emergente com a situação da qual surgiu, e é o evento que define essa situação. A continuidade ou desaparecimento daquilo que surge é o presente passando para o futuro. Passado, presente e futuro pertencem a uma passagem que adquire estrutura temporal por meio do evento, e podem ser considerados longos ou curtos conforme sejam comparados com outras passagens desse tipo.
Mas, enquanto existentes na natureza — na medida em que tal afirmação tenha significado —, o passado e o futuro são os limites daquilo que denominamos presente e são determinados pelas relações condicionantes do evento com sua situação.
Os passados e futuros aos quais nos referimos estendem-se para além dessas relações contíguas na passagem. Nós os prolongamos na memória e na história, na antecipação e na previsão. Eles são eminentemente o campo da ideação e encontram seu locus naquilo que se chama mente. Embora estejam no presente, referem-se àquilo que não está nesse presente, como é indicado por sua relação com passado e futuro. Referem-se para além de si mesmos, e dessa referência surge sua natureza representacional.
Eles pertencem evidentemente a organismos, isto é, a eventos emergentes cuja natureza envolve a tendência de manter-se. Em outras palavras, sua situação envolve ajustamento voltado para um passado e sensibilidade seletiva voltada para um futuro. Aquilo que pode ser chamado de matéria da qual surgem as ideias são as atitudes desses organismos: hábitos, quando olhamos para o passado, e ajustamentos iniciais dentro do ato às consequências de suas respostas, quando olhamos para o futuro. Até aqui, esses elementos pertencem ao que pode ser chamado de passado e futuro imediatos.
Essa relação do evento com sua situação, do organismo com seu ambiente, juntamente com sua dependência mútua, conduz-nos à relatividade e às perspectivas nas quais ela aparece na experiência. A natureza do ambiente corresponde aos hábitos e atitudes seletivas dos organismos, e as qualidades pertencentes aos objetos do ambiente só podem ser expressas em termos das sensibilidades desses organismos. O mesmo é verdadeiro para as ideias.
O organismo, por meio de seus hábitos e atitudes antecipatórias, encontra-se relacionado àquilo que se estende para além de seu presente imediato. Aqueles caracteres das coisas que, na atividade do organismo, se referem ao que está além do presente assumem o valor daquilo a que se referem. O campo da mente, então, é o ambiente mais amplo requerido pela atividade do organismo, mas que transcende o presente.
O que está presente no organismo, contudo, é sua própria atividade nascente, e aquilo nele mesmo e no ambiente que a sustenta; e está presente também seu movimento vindo do passado e indo além do presente. Pertence ao chamado organismo consciente completar esse ambiente temporal mais amplo pelo uso de caracteres encontrados no presente. O mecanismo pelo qual a mente social realiza isso discutirei mais tarde; o que desejo destacar agora é que o campo da mente é a extensão temporal do ambiente do organismo, e que uma ideia reside no organismo porque o organismo utiliza aquilo em si mesmo que se move para além de seu presente para ocupar o lugar daquilo em direção ao qual sua própria atividade tende.
Aquilo no organismo que fornece a ocasião para a mente é a atividade que alcança para além do presente dentro do qual o organismo existe.
Mas, em uma descrição como esta, estive implicitamente estabelecendo esse período mais amplo dentro do qual, digamos, um organismo inicia e completa sua história como estando ali aparentemente em independência de qualquer presente; e meu propósito é insistir na proposição oposta, a saber, que esses períodos mais amplos não podem ter realidade exceto na medida em que existam em presentes, e que todas as suas implicações e valores estão aí localizados.
Isso nos remete, primeiro, ao fato evidente de que todo o aparato do passado — imagens da memória, monumentos históricos, restos fósseis e semelhantes — está em algum presente; e, segundo, àquela porção do passado que está ali na passagem da experiência, conforme determinada pelo evento emergente. Remete-nos, terceiro, ao teste necessário da formulação do passado nos eventos que surgem na experiência. O passado de que falamos situa-se, com todos os seus caracteres, dentro desse presente.
Há, entretanto, a implicação assumida de que esse presente se refere a entidades que possuem uma realidade independente deste e de qualquer outro presente, cujos detalhes completos, embora evidentemente além de qualquer recuperação, são inevitavelmente pressupostos. Ora, há uma confusão entre tal suposição metafísica e o fato evidente de que somos incapazes de revelar tudo o que está implicado em qualquer presente.
Aqui estamos com Newton diante de um mar sem limites, recolhendo apenas os seixos de sua praia. Não há nada de transcendente nessa impotência de nossas mentes para esgotar qualquer situação. Todo avanço rumo a um conhecimento maior simplesmente amplia o horizonte da experiência, mas tudo permanece dentro da experiência concebível.
Uma mente maior do que a de Newton ou Einstein revelaria na experiência, no mundo que está aí, estruturas e processos que não conseguimos encontrar nem sequer esboçar. Ou tomemos a concepção de Bergson segundo a qual todas as nossas memórias, ou todas as ocorrências sob a forma de imagens, acorrem sobre nós e são contidas por um sistema nervoso central. Tudo isso é concebível em um presente cuja riqueza integral estivesse à disposição desse próprio presente.
Isso não significa que os éons revelados nessas estruturas e processos, ou as histórias que essas imagens conotam, desenrolar-se-iam em um presente temporalmente tão extenso quanto sua formulação implica. Significa, na medida em que tal concepção ou imaginação desenfreada possa ter sentido, que teríamos uma riqueza inconcebível oferecida à nossa análise na abordagem de qualquer problema surgido na experiência.
O passado na passagem é irrecuperável assim como irrevogável. Ele está produzindo toda a realidade que existe. O significado daquilo que é é iluminado e ampliado diante do emergente na experiência, como (a+b) elevado à vigésima quinta potência pelo teorema binomial, pela expansão da passagem que está ocorrendo.
Dizer que a Declaração de Independência foi assinada em 4 de julho de 1776 significa que, no sistema temporal que carregamos conosco e com a formulação de nossos hábitos políticos, essa data reaparece em nossas celebrações. Sendo aquilo que somos no mundo social e físico que habitamos, damos conta do que ocorre nesse cronograma temporal, mas, como tabelas de horários ferroviários, ele está sempre sujeito a mudanças sem aviso prévio. Cristo nasceu quatro anos antes de d.C.
Nossa referência é sempre à estrutura do presente, e nosso teste da formulação que fazemos é sempre o de realizar com sucesso nossos cálculos e observações em um futuro em ascensão. Se dizemos que algo aconteceu em tal data, quer possamos especificá-la ou não, devemos querer dizer que, se em imaginação nos colocássemos de volta na data suposta, teríamos tido tal experiência; mas não é disso que nos ocupamos quando elaboramos a história do passado. O que requer iluminação e direção é o significado daquilo que está ocorrendo na ação ou na apreciação, devido ao aparecimento constante do novo, de cujo ponto de vista nossa experiência exige uma reconstrução que inclua o passado.
A melhor abordagem desse significado encontra-se no mundo dentro do qual nossos problemas surgem. Suas coisas são coisas duradouras que são aquilo que são devido ao caráter condicionante da passagem. Seu passado está naquilo que elas são. Tal passado não é eventual. Quando elaboramos a história de uma árvore cuja madeira se encontra nas cadeiras em que nos sentamos, desde a diatomácea até o carvalho recentemente abatido, essa história gira em torno da constante reinterpretação de fatos que surgem continuamente; nem esses fatos novos devem ser encontrados simplesmente no impacto de experiências humanas mutáveis sobre um mundo que está aí.
Pois, em primeiro lugar, as experiências humanas fazem tanto parte desse mundo quanto quaisquer de suas outras características, e o mundo é um mundo diferente por causa dessas experiências. E, em segundo lugar, em qualquer história que construamos somos forçados a reconhecer a mudança na relação entre a passagem condicionante e o evento emergente, naquela parte do passado que pertence à passagem, mesmo quando essa passagem não é expandida na ideação.
O resultado do que disse é que a avaliação e o significado de todas as histórias residem na interpretação e no controle do presente; que, enquanto estruturas ideacionais, elas surgem sempre da mudança, que é parte tão essencial da realidade quanto o permanente, e dos problemas que a mudança acarreta; e que a exigência metafísica de um conjunto de eventos que esteja inalteravelmente presente em um passado irrevogável, ao qual essas histórias procuram aproximar-se continuamente, remete a motivos diversos daqueles em operação na pesquisa científica mais exata.
Notas do Capítulo.
Estas páginas foram encontradas entre os papéis do Sr. Mead após sua morte. Parecem ter sido escritas mais tarde do que o capítulo ao qual estão aqui anexadas, possivelmente como resultado de uma discussão crítica a seu respeito em uma reunião do Philosophy Club da Universidade de Chicago em janeiro de 1931.
As durações são um contínuo deslizar de presentes uns nos outros. O presente é uma passagem constituída por processos cujas fases anteriores determinam, em certos aspectos, suas fases posteriores. A realidade, então, está sempre em um presente. Quando o presente passou, ele já não é mais. Surge a questão de saber se o passado que emerge na memória e na projeção desta ainda mais para trás refere-se a eventos que existiram como tais presentes contínuos passando uns nos outros, ou àquela fase condicionante do presente em passagem que nos permite determinar a conduta com referência ao futuro que também está surgindo no presente. É esta última tese que sustento.
A implicação de minha posição é que o passado é uma construção tal que a referência encontrada nele não é a eventos que possuam uma realidade independente do presente, que é a sede da realidade, mas antes a uma interpretação do presente em sua passagem condicionante que permitirá à conduta inteligente prosseguir. É naturalmente evidente que os materiais a partir dos quais esse passado é construído encontram-se no presente. Refiro-me às imagens da memória e às evidências por meio das quais construímos o passado, e ao fato de que qualquer reinterpretação da imagem que formamos do passado será encontrada em um presente e será julgada pelos caracteres lógicos e probatórios que tais dados possuem em um presente.
Também é evidente que não há apelo possível a partir desses elementos em seu locus presente para um passado real que esteja desenrolado atrás de nós como um pergaminho e ao qual possamos recorrer para verificar nossas construções. Não estamos decifrando um manuscrito cujas passagens possam tornar-se inteligíveis em si mesmas e permanecer como apresentações seguras daquela porção do que ocorreu anteriormente, a serem suplementadas por construções finais posteriores de outras passagens.
Não estamos contemplando um passado último e imutável que possa estar estendido atrás de nós em sua totalidade, sem estar sujeito a novas mudanças. Nossas reconstruções do passado variam em sua extensão, mas jamais contemplam a finalidade de seus resultados. Estão sempre sujeitas a reformulações concebíveis, diante da descoberta de novas evidências, e essa reformulação pode ser completa. Mesmo as imagens de memória mais vívidas podem estar erradas.
Em suma, nossas certezas acerca do passado jamais são alcançadas por uma congruência entre o passado construído e um passado real independente dessa construção, embora carreguemos essa atitude no fundo de nossas mentes, porque de fato submetemos nossas reconstruções hipotéticas imediatas ao teste do passado aceito e as julgamos segundo sua concordância com o registro aceito; mas esse passado aceito situa-se em um presente e está ele próprio sujeito a possível reconstrução.
Ora, é possível aceitar tudo isso, admitindo plenamente que nenhum item do passado aceito é definitivo, e ainda assim sustentar que permanece uma referência, em nossa formulação do evento passado, a algo que aconteceu e que jamais poderemos ressuscitar no conteúdo da realidade, algo que pertenceu ao evento no presente dentro do qual ocorreu.
Isso equivale a dizer que existe atrás de nós um pergaminho de presentes transcorridos, ao qual nossas construções do passado se referem, embora sem a possibilidade de jamais alcançá-lo, e sem a expectativa de que nossas contínuas reconstruções se aproximem dele com precisão crescente. E isso me leva ao ponto em questão.
Tal pergaminho, se fosse alcançado, não seria a descrição que nossos passados requerem. Se pudéssemos trazer de volta o presente transcorrido na realidade que lhe pertenceu, ele não nos serviria. Ele seria aquele presente e careceria precisamente daquele caráter que exigimos do passado, isto é, daquela construção da natureza condicionante da passagem agora presente que nos permite interpretar aquilo que está surgindo no futuro pertencente a este presente.
Quando alguém recorda os dias de sua infância, não consegue entrar neles tal como então era, sem sua relação com aquilo em que se tornou; e, se pudesse — isto é, se pudesse reproduzir a experiência tal como então ocorreu —, não poderia utilizá-la, pois isso envolveria não estar no presente dentro do qual esse uso deve ocorrer. Uma sequência de presentes concebivelmente existentes enquanto presentes jamais constituiria um passado.
Se então existe tal referência, ela não é a uma entidade que pudesse ajustar-se a qualquer passado, e não posso acreditar que a referência, no passado tal como experimentado, seja a algo que não possuísse a função ou o valor que em nossa experiência pertencem a um passado. Não estamos nos referindo a um evento passado real que não fosse o evento passado que buscamos.
Outra maneira de dizer isso é que nossos passados são sempre mentais da mesma maneira que os futuros que se encontram diante de nós em nossa imaginação são mentais. Eles diferem, à parte suas posições sucessivas, em que as condições determinantes da interpretação e da conduta estão incorporadas no passado tal como ele é encontrado no presente, mas estão sujeitos ao mesmo teste de validade ao qual nossos futuros hipotéticos estão sujeitos. E a novidade de cada futuro exige um passado novo.
Isso, contudo, deixa de lado um importante caráter de qualquer passado, e este é que nenhum passado que possamos construir pode ser tão adequado quanto a situação exige. Há sempre uma referência a um passado que não pode ser alcançado, e ainda assim consonante com a função e o significado de um passado.
É sempre concebível que as implicações do presente fossem levadas mais longe do que de fato as levamos, e mais longe do que possivelmente podemos levá-las. Há sempre mais conhecimento que seria desejável para a solução de qualquer problema que nos confronta, mas que não podemos alcançar. Com a obtenção concebível desse conhecimento, sem dúvida construiríamos um passado mais verdadeiro em relação ao presente dentro do qual se encontram as implicações desse passado.
E é a esse passado que há sempre uma referência dentro de cada passado que se apresenta imperfeitamente à nossa investigação. Se possuíssemos todo documento possível e todo monumento possível do período de Júlio César, sem dúvida teríamos uma imagem mais verdadeira do homem e do que ocorreu em sua época, mas seria uma verdade pertencente a este presente, e um presente posterior a reconstruiria do ponto de vista de sua própria natureza emergente.
Podemos então conceber um passado que, em qualquer presente determinado, seria irrefutável. Na medida em que esse presente estivesse em questão, ele seria um passado final; e, se considerarmos atentamente o assunto, penso que é a esse passado que se refere aquilo que ultrapassa a formulação que o historiador pode fornecer e que somos propensos a supor ser um passado independente do presente.