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Eu tirei esta postagem dos rascunhos que provavelmente nunca veriam a luz do dia por causa do BEDA no Entreblogs sobre o que pode ter sido uma tentativa de golpe ou várias coincidências em série, muito bem encaixadas demais para não parecerem indícios pro meu gosto.

O preço acessível de uma viagem de volta para SP custou cinco horas de espera em Brasília durante a madrugada para pegar o avião para Congonhas. Eu tomei café, li, naveguei e fumei, e a tentativa de gole justamente foi por causa do cigarro – para acrescentar mais um malefício em potencial aos outros malefícios do cigarro já consagrados.

Eu me perco em aeroportos, que não são intuitivos como as rodoviárias. Até onde eu consegui entender, o aeroporto de Brasília tem uma parte de baixo e uma parte de cima, desembarques e embarques, respectivamente (mas se tiver outras tudo bem, são só essas duas que interessam). Eu tomei um café da madrugada num Starbucks (que apesar de vender café, não chama nada lá pelo nome de café, e talvez os nomes chiques sejam pra justificar o preço – mas pelo menos a moça não se importou que eu só comprasse o café e comesse os meus suprimentos que eu trouxe do supermercado, acho que isso deve estar embutido no preço do café).

Esse Starbucks fica na parte do desembarque, embaixo. Tanto embaixo quanto em cima é comprido por causa da circulação dos carros (e do ônibus que só passa embaixo). No lado por onde eles entram, na parte de cima, tem outro Starbucks (que depois eu descobri que fica exatamente em cima do primeiro) e um pouco mais adiante é o fumódromo, e eu ia ali uma vez a cada hora.

Primeiro indício

Na segunda ou na terceira vez que eu fui ali fumar, um cara acendeu um cigarro e me estendeu o resto do maço (mesmo eu estando já com o meu cigarro aceso) a uma distância estrategicamente distante o suficiente para não invadir o meu espaço, mas próximo o suficente para o maço ficar ao meu alcance. E explicou que iria parar de fumar depois da viagem que tinha acabado de fazer (com as devidas desculpas por estar oferecendo cigarros sabendo que eles fazem mal).

Por solidariedade (“bom, se isso te ajuda”) e por instinto de viciado (“cigarro-cigarro-cigarro-mais-cigarro!” tipo aquele bicho feio lá do Senhor dos Anéis) eu peguei o maço e ele logo me estendeu o isqueiro também. Eu sugeri que ele ficasse com o isqueiro, afinal serve pra acender o fogão, queimar um fio de uma blusa em vez de puxar e ele repuxar os outros fios, etc, mas ele tinha outros isqueiros em casa (porque não levar mais um então?, ele estava parando de fumar e não abandonando o uso do fogo). Peguei o isqueiro também, guardei dentro do maço e joguei tudo dentro da bolsa que eu estava usando. Desejei boa sorte na tentativa dele de parar de fumar.

Imagem de dois Langoliers maiores que um avião pousado abaixo deles, prestes a engolir um homem de costas na imagem, os Langoliers são uns monstros feios voadores virados praticamente em boca e dentes.Eu num aeroporto sem nem precisar desses bichos feios para me assustar.

E aí eu lembrei dos velhos conselhos dos meus pais de não aceitar balas de estranhos na rua. Mas eu já estava quase acabando o meu cigarro, ele bem no começo “do último” dele. Como eu ia jogar fora sem ser indelicado? Ele estava meio dentro meio fora da minha visão lateral, mas se escorou pra fumar virado pra mim olhando o celular dele. Entre eu e ele, a lixeira. Disfarcei também com o celular (vi qualquer coisa, fiz uma cara de espanto e depois de profundo interesse). Ele se demorou um pouco mais, viu que eu não estava indo, apagou o cigarro dele e foi embora. Eu aproveitei para abrir discretamente a bolsa, dei três segundos e clunc (fez a lixeira de metal quando) joguei o presente fora. Mas continuei sem parar de fingir que estava muito interessado no celular.

Segundo e terceiro indícios

Enquanto eu estava fingindo estar entretido no celular, uma outra fumante passou por mim para (supostamente) apagar o cigarro dela na lixeira (é uma dessas lixeiras adaptadas pros fumantes, tem uma gradezinha em cima onde se apaga o cigarro e a lixeira propriamente dita embaixo). Mas enquanto ela apagava o cigarro, pareceu muito interessada no conteúdo da lixeira embaixo. Deu uma olhada por alguns segundos, olhou de passagem pra mim e foi embora também. Dei um tempinho e me virei pra sair dali também, e tinha um outro cara, olhando pra mim, com uma cara de espanto. Passei por ele e fui em direção ao embarque, embora ainda faltassem umas duas ou três horas, não para embarcar, e sim porque tinha duas guardas conferindo os bilhetes de quem ia embarcar (o Starbucks de cima fica estrategicamente quase do lado do embarque). Não vi se o sr. Cara de Espanto ficou me olhando, mas qualquer coisa eu correria pra elas. Mas nada aconteceu.

Último indício

Como não aconteceu mais nada de estranho, eu desencanei, li, fumei, etc, e fui embarcar. Depois do labirinto de direcionadores, fui para o primeiro posto de inspeção de bagagens e quando eu ia dar bom dia pro cara que pega as bandejas de colocar coisas que não sejam malas, um colega dele apareceu do nada, pegou a bandeja que ele segurava e supostamente rendeu ele. Dei bom dia pra esse também, coloquei a mochila na esteira, bolsa, cigarro e isqueiro (os meus) na bandeja e passei pelo detecor de (eu acho) metais. E ele apitou. Eu gelei, no melhor estilo meu Deus, será que eu estou armado e não sabia e fiquei olhando pro funcionário que estava de olho no detector – o mesmo que foi supostamente rendido no começo.

Ele ficou me olhando, e depois de alguns segundos em um pânico silencioso eu perguntei “o que que eu faço?”. Ele respondeu, num tom calmo, que era uma inspeção aleatória, ou seja, o troço não apitou porque detectou alguma coisa suspeita, mas porque “aleatoriamente” (pra mim alguém apertou um botão em algum lugar) escolheu um passageiro para uma inspeção mais detalhada.

Só uma outra vez aconteceu isso em um aeroporto, ninguém explicou nada, só mandaram abrir os braços e as pernas e passaram aqueles detectores portáteis, não acharam nada, deram uma olhada nas minhas coisas e tchau (“tchau” da parte deles, da minha parte eu lembro desse primeiro pânico até hoje).

Mas dessa vez ele não passou detector nenhum. Ele pegou um papel, que talvez na verdade fosse um plástico flexível, e passou pelos meus braços, pelo meu peito e na parte de cima de cada perna. Eu fiquei imaginando que não estivessem buscando nada de metal (talvez estivessem, sei lá), mas sim resquícios de produtos químicos.

A minha teoria é que se eu fumasse um dos cigarros do cara, ou se tivesse colocado o maço no bolso, teriam ficado resquícios de alguma coisa ou ilegal, ou pelo menos proibida em vôos (talvez drogas, pólvora, algo assim). Aí com todas as atenções das forças de segurança do aeroporto voltadas pra mim, os outros com coisas ilegais ou proibidas de verdade poderiam passar desapercebidos.

Eu elaborei outras teorias depois, mas essas, assim como toda essa história, podem tanto indicar que eu estou na profissão errada e o mundo está perdendo um grande investigador, ou que eu talvez precise mais de terapia do que eu possa imaginar.

No fim o cara me liberou, ninguém (que eu tenha visto) ficou me seguindo, e eu pude me dedicar a ter medo do avião cair pelas três horas seguintes (mais um indício, nesse caso, de que talvez seja o caso de terapia).


Eu copiei a imagem desse site e o bicho feio na imagem é de uma minissérie em dois episódios chamada The Langoliers, que também é o nome do bicho feio.