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    <title>Sirius</title>
    <link>https://infosec.press/sirius/</link>
    <description>É preciso imaginar Sísifo pistola! Unindo-se a  Prometeu, Tício, Tântalo e Íxion. Superando as condições impostas por Zeus e acabando com o Olimpo.</description>
    <pubDate>Thu, 16 Apr 2026 18:16:32 +0000</pubDate>
    <item>
      <title>Animais artificiais</title>
      <link>https://infosec.press/sirius/animais-artificiais</link>
      <description>&lt;![CDATA[Destruição de Leviatã -gravura de Gustave Doré&#xA;!--more--&#xA;Outro dia desses estava lendo “homo bolsonarus” do Renato Lessa (disponibilizado de graça na rede) e uma das coisas que acho instigante no texto é a concepção de que o bolsonarismo é uma instituição. &#xA;&#xA;Lessa fala sobre como Hobbes observou a capacidade humana de produzir “animais artificiais”, que são as instituições. &#xA;&#xA;Nem todo animal artificial que criamos, por certo, precisa ser necessariamente uma besta perversa. Também é possível ver uma luta entre estes constructos animais (mas não no estilo duelo Pokemon). Inclusive estamos assistindo na atualidade as instituições oficiais do Judiciário e PGR (antes leniente sob o comando de Augusto Aras) combatendo a besta bolsonarista.&#xA;&#xA;Mas deixando de lado a atenção principal do texto do professor, o bolsonarismo, o que mais gostei foi a dica final, de que podemos criar outras instituições! E acrescento que nossos animais artificiais não necessitam ser estatais. &#xA;&#xA;O Poder Central é expressivo, mas também é limitado, uma instituição precisa mesmo é ter um “discurso forte”, capaz de reunir as pessoas em torno de convicções e crenças sólidas.&#xA;&#xA;Este fediverso, por exemplo, é a infraestrutura de uma instituição, de um animal artificial que criamos. Não é estatal, não criamos um Leviatã, nem é um passarinho ou uma borboleta, de propriedade capitalista. Alguns de nós chamam de mastodonte, mas sabemos que é maior que isso.&#xA;&#xA;Nesse caso específico, ademais, nós, que alimentamos nosso bichinho, precisamos tornar esse discurso mais forte para dar mais consistência às crenças que sustentam essa instituição (informação, diálogos, comunicação públicas, abertas, descentralizadas, etc.).&#xA;&#xA;Quando o bolsonarismo alcançou o Poder Executivo (além de parcela relevante das cadeiras do Congresso) por certo ele ganhou mais força e foram quatro anos sofridos, com direito a uma pandemia mundial para a besta fazer mais vítimas…&#xA;&#xA;Mas só conseguiu alcançar o executivo por ser uma instituição forte, independentemente do Poder Central, que canalizava as emoções e crenças de muitas pessoas! &#xA;&#xA;O poder parcial conquistado com a eleição e ascensão ao executivo federal teve também um aspecto limitador. A estrutura de Separação dos Poderes fez a criatura guinchar de ódio e se queixar que o Judiciário não a deixava desgovernar em paz… Até mesmo o Legislativo exigia muitas emendas e não admitia todas as vontades da besta.&#xA;&#xA;O que gostaria de ressaltar, contudo, é que estas experiências nos mostram que também podemos cristalizar nossas crenças em uma humanidade não alienada, não oprimida, livre do jugo do poder financeiro e da vigilância do capitalismo atual, por meio de novos constructos animais!&#xA;&#xA;Para tanto precisamos de união, cooperação, consenso, diálogo, respeito, técnica politica e, principalmente, praticar a experimentação e a criatividade.&#xA;&#xA;Comente este humilde ensaio aqui&#xA;&#xA;#instituições #fediverso #bolsonarismo]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/9/9d/Destruction_of_Leviathan.png/1280px-Destruction_of_Leviathan.png" alt="Destruição de Leviatã -gravura de Gustave Doré">

Outro dia desses estava lendo “homo bolsonarus” do Renato Lessa (disponibilizado de graça na rede) e uma das coisas que acho instigante no texto é a concepção de que o bolsonarismo é uma instituição.</p>

<p>Lessa fala sobre como Hobbes observou a capacidade humana de produzir “animais artificiais”, que são as instituições.</p>

<p>Nem todo animal artificial que criamos, por certo, precisa ser necessariamente uma besta perversa. Também é possível ver uma luta entre estes constructos animais (mas não no estilo duelo Pokemon). Inclusive estamos assistindo na atualidade as instituições oficiais do Judiciário e PGR (antes leniente sob o comando de Augusto Aras) combatendo a besta bolsonarista.</p>

<p>Mas deixando de lado a atenção principal do texto do professor, o bolsonarismo, o que mais gostei foi a dica final, de que podemos criar outras instituições! E acrescento que nossos animais artificiais não necessitam ser estatais.</p>

<p>O Poder Central é expressivo, mas também é limitado, uma instituição precisa mesmo é ter um “discurso forte”, capaz de reunir as pessoas em torno de convicções e crenças sólidas.</p>

<p>Este fediverso, por exemplo, é a infraestrutura de uma instituição, de um animal artificial que criamos. Não é estatal, não criamos um Leviatã, nem é um passarinho ou uma borboleta, de propriedade capitalista. Alguns de nós chamam de mastodonte, mas sabemos que é maior que isso.</p>

<p>Nesse caso específico, ademais, nós, que alimentamos nosso bichinho, precisamos tornar esse discurso mais forte para dar mais consistência às crenças que sustentam essa instituição (informação, diálogos, comunicação públicas, abertas, descentralizadas, etc.).</p>

<p>Quando o bolsonarismo alcançou o Poder Executivo (além de parcela relevante das cadeiras do Congresso) por certo ele ganhou mais força e foram quatro anos sofridos, com direito a uma pandemia mundial para a besta fazer mais vítimas…</p>

<p>Mas só conseguiu alcançar o executivo por ser uma instituição forte, independentemente do Poder Central, que canalizava as emoções e crenças de muitas pessoas!</p>

<p>O poder parcial conquistado com a eleição e ascensão ao executivo federal teve também um aspecto limitador. A estrutura de Separação dos Poderes fez a criatura guinchar de ódio e se queixar que o Judiciário não a deixava desgovernar em paz… Até mesmo o Legislativo exigia muitas emendas e não admitia todas as vontades da besta.</p>

<p>O que gostaria de ressaltar, contudo, é que estas experiências nos mostram que também podemos cristalizar nossas crenças em uma humanidade não alienada, não oprimida, livre do jugo do poder financeiro e da vigilância do capitalismo atual, por meio de novos constructos animais!</p>

<p>Para tanto precisamos de união, cooperação, consenso, diálogo, respeito, técnica politica e, principalmente, praticar a experimentação e a criatividade.</p>

<p><a href="https://infosec.space/@sirius/115167602418508080" rel="nofollow">Comente este humilde ensaio aqui</a></p>

<p><a href="/sirius/tag:institui%C3%A7%C3%B5es" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">instituições</span></a> <a href="/sirius/tag:fediverso" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">fediverso</span></a> <a href="/sirius/tag:bolsonarismo" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">bolsonarismo</span></a></p>
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      <guid>https://infosec.press/sirius/animais-artificiais</guid>
      <pubDate>Mon, 08 Sep 2025 07:39:48 +0000</pubDate>
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    <item>
      <title>Protágoras: mito de Prometeu e Epimeteu</title>
      <link>https://infosec.press/sirius/protagoras-mito-de-prometeu-e-epimeteu-mjk3</link>
      <description>&lt;![CDATA[Prometheus&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Dando seguimento ao meu projeto de retomada de Protágoras, com algumas considerações bem informais entendo ser interessante disponibilizar uma boa tradução do mito do mais famoso sofista.&#xA;&#xA;É possível observar uma forte ligação do mito de Prometeu e Epimeteu com as concepções naturalistas da história dos primeiros homens de Diodoro Sículo, atribuído a Demócrito.&#xA;&#xA;A presente tradução do mito de prometeu foi extraída de outra em inglês, por James A. Arieti e Roger M. Barrus, na obra &#34;Plato&#39;s Protagoras&#34;. Mantive algumas das notas de rodapé do original, que considerei bem interessantes, pouco acrescentei à algumas notas, mas recomendo a leitura do texto original pois há mais notas que tornam a leitura ainda mais interessante.&#xA;&#xA;Nesse diálogo, Sócrates é acordado pelo jovem Hipócrates (filho de Apolodoro) que vem bater à porta de sua casa para avisar que Protágoras está em Atenas, na casa de Hipponicus, filho de Calias.&#xA;&#xA;Ao chegarem na residência, encontram o local repleto de sofistas e discipulos. Sócrates então começa a debater com Protágoras e seu primeiro questionamento é sobre a possibilidade de a excelência (arete) ser ensinada, uma vez que Protágoras era pago como professor de tal matéria.&#xA;&#xA;Protágoras utiliza o mito como uma alegoria para demonstrar que a excelência pode ser ensinada e prossegue discursando sobre outro questionamento de Sócrates sobre bons homens não conseguirem ensinar seus filhos a também serem virtuosos.&#xA;&#xA;Muitas das ideias inovadoras no pensamento político filosófico que estão nessa alegoria, suas ideias humanistas, democráticas, juspositivistas e sociológicas, vou abordar mais detalhadamente em outros escritos.&#xA;&#xA;Segue por enquanto o trecho.&#xA;&#xA;O Mito de Prometeu &#xA;(Protágoras, no diálogo homônimo de Platão)&#xA;&#xA;Era uma vez, como você vê, havia deuses, mas não havia gêneros mortais. [320d] Mas quando também para esses [gêneros] chegou o tempo [que foi] ordenado para [seu] processo de vir a ser, os deuses os moldaram dentro da terra [ao] misturá-los com terra e fogo e todas as coisas misturadas com fogo e terra. E quando os [deuses] estavam prestes a trazer esses [seres] à luz, designaram Prometeu e Epimeteusupa id=&#34;fnr.1&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.1&#34; name=&#34;fnr.1&#34;1/a/sup para organizar e distribuir poderes para cada [um dos gêneros mortais] conforme apropriado. E Epimeteu pede a Prometeu [que lhe conceda o favor de] fazer a distribuição. &#39;Mas, [você] supervisionará minha distribuição&#39;, ele disse. E, tendo assim persuadido [Prometeu], ele faz a distribuição. [320e] E ao fazer a distribuição, a alguns ele atribuiu força sem rapidez, mas organizou os mais fracos com rapidez; a outros ele armou, mas ao dar a outros uma natureza desarmada, ele concebeu para eles algum outro poder para sua segurança. Como você vê, para aqueles seres que ele vestiu com pequenez, ele distribuiu uma fuga alada ou o hábito de habitar no subsolo; aqueles que ele aumentou em tamanho, ele salvou por meio desse [tamanho]; [321a] e igualando outras coisas dessa forma, ele continuou a fazer a distribuição. E ele concebeu essas coisas, sendo cauteloso para que nenhum gênero desaparecesse da vista.&#xA;&#xA;E quando ele os havia provido de um meio de escapar de destruições mútuas, ele concebeu um conforto para as estações [que vêm] de Zeus, vestindo-os com espessa pelagem e peles sólidas, suficientes para afastar o inverno e até capazes [de afastar] o calor, e para esses [animais], enquanto vão para suas camas [Epimeteu concebeu] que pudessem possuir seus próprios colchões caseiros, [321b] colocando alguns sob suas armas, mas providenciando a outros peles espessas e sem sanguesupa id=&#34;fnr.2&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.2&#34; name=&#34;fnr.2&#34;2/a/sup.&#xA;&#xA;Então, ele distribuiu diferentes alimentos para diferentes seres; a alguns [ele deu] erva da terra; a outros, frutas das árvores; a outros, raízes. E há aqueles a quem ele deu a carne de outros animais como alimento. E a alguns ele atribuiu uma baixa taxa de natalidade, mas atribuiu uma alta taxa de natalidade àqueles que eram capturados por eles, proporcionando segurança ao gênero [dos animais consumidos como presa]supa id=&#34;fnr.3&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.3&#34; name=&#34;fnr.3&#34;3/a/sup.&#xA;&#xA;E assim, na medida em que não era absolutamente sábio, Epimeteu não percebeu que havia esgotado todos os poderes nos [gêneros] desprovidos de razão [321c] e que a raça humana ainda estava desorganizada por ele, ficando sem saber o que fazersupa id=&#34;fnr.4&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.4&#34; name=&#34;fnr.4&#34;4/a/sup. E enquanto estava perplexo, Prometeu se aproxima dele para examinar a distribuição, e vê os outros animais [harmoniosamente] em sintonia em todos [seus recursos], mas o [animal] humano ele vê nu e descalço e sem cama e sem armas. E já havia chegado o dia determinado em que era necessário que a humanidade também [como os outros animais] saísse da terra para a luz. E Prometeu, sem saber que segurança poderia encontrar para o ser humano, rouba de Hefesto e Atena a sabedoria técnica junto com o fogo—[321d] você vê, sem fogo, essa posse [da sabedoria técnica] era para ele sem aplicação prática [ao invés de se tornar uma posse útil]—e assim ele realmente concede um presente à humanidade. E dessa forma, a humanidade tinha sabedoria sobre os meios de subsistência, mas não tinha sabedoria sobre a arte da polis; você vê, [essa sabedoria] estava na casa de Zeus; e não era mais possível para Prometeu ir à acrópole, à casa de Zeus; e além disso, os guardas de Zeus eram temíveis; [321e] e à casa comum de Atena e Hefesto, onde os dois praticavam carinhosamente suas habilidades técnicas, Prometeu vai secretamente e, depois de roubar a habilidade técnica de Hefesto de usar o fogo e outras habilidades técnicas de Atena, ele as dá à humanidade, e por causa disso [os humanos] têm um meio abundante de subsistência; mas depois, como se diz, uma acusação de furto perseguiu Prometeu [322a] por causa de Epimeteu.&#xA;&#xA;E uma vez que o animal humano tinha uma parte do que foi atribuído aos deusessupa id=&#34;fnr.5&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.5&#34; name=&#34;fnr.5&#34;5/a/sup, porque (sozinho entre os animais) ele tinha uma afinidade com o divino, primeiro estabeleceu convenções sobre os deuses e se comprometeu a construir altares e imagens dos deuses; segundo, por meio da habilidade técnica, articulou rapidamente a linguagem e os nomes, e descobriu casas, roupas, sapatos, lençóis e os alimentos da terra. Tendo sido assim providos desde o início, de fato, os humanos viveram espalhados, e não havia poleis. [322b] E assim foram destruídos por feras, pois eram mais fracos de todas as maneiras. E embora sua habilidade técnica artesanal fosse uma ajuda suficiente para a alimentação, ela era insuficiente para a guerra com as feras. Veja, eles ainda não tinham uma habilidade técnica de construção política, da qual a habilidade em guerrear é uma parte. Continuavam buscando, de fato, se reunir e se salvar [por meio] da construção de poleis. E assim, quando conseguiam se reunir, agiam injustamente uns com os outros por não possuírem a habilidade técnica no que diz respeito aos assuntos da polis, de modo que, espalhando-se novamente, eram destruídos. [322c] E assim Zeus, temendo por nossa espécie, para que não fosse destruída completamente, envia Hermes para trazer temor reverencialsupa id=&#34;fnr.6&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.6&#34; name=&#34;fnr.6&#34;6/a/sup e um senso do que é legalmente justosupa id=&#34;fnr.7&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.7&#34; name=&#34;fnr.7&#34;7/a/sup, de modo que possam haver tanto princípios de ordenação das poleis quanto os laços que promovem a amizadesupa id=&#34;fnr.8&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.8&#34; name=&#34;fnr.8&#34;8/a/sup. E assim Hermes pergunta a Zeus de que maneira poderia dar aos humanos um senso do que é legalmente justo e um temor reverencial. “Devo distribuir isso da mesma maneira que as habilidades técnicas foram distribuídas? Elas foram distribuídas assim: uma pessoa que possui habilidade técnica médica é suficiente para muitos leigos, e é o mesmo para os outros artesãos. Devo, de fato, colocar um senso do que é legalmente justo e um temor reverencial nos humanos assim, ou devo distribuí-los a todos?”.&#xA;&#xA;“A todos”, disse Zeus, “e que todos tenham uma parte. [322d] Vocês veem, não haveria pólis se poucos participassem disso, assim como nas outras habilidades técnicas. E considere isso como uma convenção [estabelecida por meu comando] que [é incumbente] matar aquele que não consegue compartilhar do temor reverencial e do senso do que é legalmente justo, [matando-o como] uma praga da pólis”.&#xA;&#xA;Dessa forma, de fato, Sócrates, e por causa dessas coisas, tanto os outros quanto os atenienses, quando há uma discussão sobre a excelência da habilidade técnica de marcenaria ou sobre algum outro ofício, pensam que [apenas] alguns devem ter uma participação no aconselhamento, e se alguém fora desse grupo restrito oferece conselhos, [322e] eles não suportam isso, como você diz—justamente, como eu digo; mas quando vão compartilhar conselhos sobre [a condução] dos assuntos da pólis de forma excelente, [323a] que deve surgir inteiramente de uma prática de justiçasupa id=&#34;fnr.9&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.9&#34; name=&#34;fnr.9&#34;9/a/sup e autocontrole, eles de maneira apropriada aceitam [o conselho de] cada homem, como é adequado, claro, pois todos têm uma parte nessa excelência, ou não haveria pólis. Isso, Sócrates, é [o que] é responsável por esse [fenômeno].&#xA;&#xA;E assim, para que você não pense que está sendo enganado [ao aceitar] que todos os seres humanos realmente acreditam que cada homem tem uma parte na prática da justiça e nas demais excelências que envolvem os assuntos da pólis, considere a próxima evidência. Nas outras formas de excelência, como você diz, se alguém afirma que é um bom flautista ou [que é bom] em alguma outra habilidade técnica da qual não é [bom], ou eles riem dele ou dificultam [sua vida], [323b] e seus parentes vêm e o avisam de que ele está louco; mas nas [questões de] prática da justiça e nas demais excelências que dizem respeito aos assuntos da pólis, mesmo que saibam que alguém é injusto, se ele mesmo diz a verdade na frente de muitos [pessoas: que ele é injusto]—o que [na questão de outras formas de excelência] eles consideram como autocontrole—ou seja, dizer a verdade, lá eles consideram isso uma loucura, e afirmam que todas as pessoas precisam dizer que são justas, estejam elas sendo ou não, ou que a pessoa que não faz alarde de praticar a justiça está loucasupa id=&#34;fnr.10&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.10&#34; name=&#34;fnr.10&#34;10/a/sup —como se fosse necessário que qualquer um que não tivesse uma participação na [prática da justiça] [323c] não pertencesse à raça humana.&#xA;&#xA;E assim, isso é o que estou dizendo: que [os cidadãos da pólis] adequadamente aceitam cada homem como conselheiro sobre essa excelência porque pensam que todos têm uma parte nela. E isso tentarei mostrar a você a seguir: Eles não pensam que [essa excelência] é por natureza ou que surge automaticamente, mas [pensam] que é ensinável e que surge da atenção que se dedica a ela. Veja, ninguém fica emocional [323d] em relação aos muitos defeitos que os seres humanos acreditam que uns têm dos outros por natureza ou por acaso, nem dá avisos ou instrui ou disciplina aqueles que têm esses [defeitos] com o objetivo de que não sejam assim, mas sentem pena [por eles]. Pois quem é tão insensato a ponto de se empenhar em fazer qualquer uma dessas coisas em relação àqueles que são feios, pequenos ou fracos? Veja, eu acho que eles sabem que essas coisas—beleza e o oposto, [feiura] —surgem nas pessoas por natureza e por acaso. Mas em relação às muitas coisas boas que pensam surgir para os seres humanos por causa da atenção ou da prática ou do ensino, se alguém não tem essas [323e] mas tem os males opostos a essas, [é em relação] a essas pessoas, suponho, que eles [direcionam] suas emoções e punições e avisos. Entre essas [qualidades ruins], uma é a injustiça e a impiedade e, de maneira geral, tudo que é o oposto da excelência que diz respeito aos assuntos da pólissupa id=&#34;fnr.11&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.11&#34; name=&#34;fnr.11&#34;11/a/sup. [324a] É aqui que, de fato, cada pessoa direciona sua emoção e adverte cada [outra pessoa]—claramente porque a posse [da excelência] vem da atenção e do aprendizado. Veja, Sócrates, se você está disposto a voltar sua mente para a disciplina, sobre o que isso pode [fazer] por aqueles que agem injustamente, o [assunto] em si lhe ensinará que os seres humanos pensam que a excelência é algo que pode ser fornecido. Veja, ninguém que tenha uma mente disciplina aqueles que agem injustamente por esse [motivo] e por causa disso—[apenas] porque ele agiu injustamente [324b]—[ou seja,] quem não toma vingança irracionalmente como uma besta; e aquele que se propõe a punir com razão não toma vingança por uma injustiça que foi perpetrada—veja, uma coisa [já] feita não pode [ser feita] não ter acontecido—mas por causa do futuro, para que nem [o perpetrador] novamente atue injustamente, nem outro que o veja punido. E tendo isso em mente, ele tem em mente que a excelência é uma questão de educação: ele pune para o fim de desencorajar. E assim todas as pessoas têm essa opinião, [324c] [ou seja,] todos que tomam vingança privada e publicamente. E o restante da humanidade toma vingança e pune aqueles que pensam que agem injustamente, e não menos os atenienses, seus [colegas] cidadãos; de modo que, de acordo com esse argumento, os atenienses também estão entre aqueles que pensam que a excelência é uma coisa que pode ser fornecida e ensinada. E assim foi suficientemente demonstrado a você, Sócrates, [324d] como, é claro, me parece, que seus cidadãos a aceitam de maneira apropriada quando um ferreiro e um sapateiro dão conselhos sobre assuntos pertinentes à pólis—[porque] pensam que a excelência é uma coisa que pode ser fornecida.&#xA;&#xA;Ainda há o restante da sua perplexidade a respeito dos homens bons—por que, de fato, os homens bons ensinam a seus filhos as outras [lições] dos professores e os tornam sábios [nessas coisas], mas nessa excelência particular [dos seres humanos], os homens bons não tornam [seus filhos] melhores do que ninguém [mais]. Sobre isso, de fato, Sócrates, não contarei mais uma história, mas [apresentarei] um argumento. Veja, considere o seguinte:&#xA;&#xA;Há ou não há uma coisa [324e] que é necessária para que todos os cidadãos compartilhem se houver uma pólis? Nesse ponto, você vê, a mesma perplexidade que o perturba é resolvida, ou não será resolvida em nenhum outro lugar. Veja, se, por um ladosupa id=&#34;fnr.12&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.12&#34; name=&#34;fnr.12&#34;12/a/sup, existe essa [uma coisa], e essa uma coisa não é a [habilidade] do construtor ou do ferreiro ou do oleiro [325a], mas é a prática da justiça, do autocontrole e da santidade (e estou falando de tudo isso junto como uma só coisa, a excelência de um homem), se há essa [uma coisa] da qual é necessário que todos tenham uma parte (e cada homem, se também deseja aprender ou fazer algo mais, deve agir com essa [uma coisa, a excelência de um homem] e sem isso [ele deve] não [agir])—ou, [se existe essa uma excelência, então é necessário] ensinar e disciplinar aquele que não compartilha disso (uma criança, um homem e uma mulher) até que, sendo disciplinado, [a pessoa] se torne melhor; mas [se acontecer que] mesmo sendo disciplinada e ensinada, a pessoa não obedece [e não se torna melhor], [será necessário] expulsar essa [pessoa], como se incurável, da pólis ou matá-la [325b]—se for dessa forma, e se for naturalmente dessa forma, considere como os homens bons são estranhos, se enquanto ensinam seus filhos outras coisas, não os ensinam isso. Mostramos, você vê, que eles pensam que é uma coisa ensinável tanto privada quanto publicamente. E uma vez que é ensinável e um [assunto] de cuidado, enquanto seus filhos são ensinados as outras coisas para as quais a morte não é a penalidade se não as conhecem, por que a penalidade é a morte e o exílio para seus próprios filhos quando não aprendem e não cuidam da excelência, e [325c] além da morte, a apropriação pública de seus bens e, para ser breve, a completa destruição de seus lares—veja, essas coisas não são ensinadas e não se preocupam [em ensiná-las] com todo o cuidadosupa id=&#34;fnr.13&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.13&#34; name=&#34;fnr.13&#34;13/a/sup? É, claro, necessário, Sócrates, pensar [assim].&#xA;&#xA;Começando [desde quando] seus filhos são pequenos, durante toda a vida dos [pais], eles ensinam e aconselham [seus filhos]. Assim que um [filho] entende o que é dito mais rapidamente [do que entendia quando era menor], sua ama, mãe, pedagogosupa id=&#34;fnr.14&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.14&#34; name=&#34;fnr.14&#34;14/a/sup e [325d] o próprio pai brigam sobre isso—como o filho pode ser melhor—ensinando e mostrando [a ele] que para cada ato e palavra isso é o que é justo, isso é o que é injusto, e isso aqui é o belo, e isso o feio, e isso aqui o sagrado, e isso o profano, e &#39;faça essas coisas&#39;, mas &#39;não faça essas.&#39; E se ele obedece de bom grado . . . mas se não, como se fosse um pedaço de madeira torta ou curvada, eles o endireitam [com] ameaças e golpes. E depois disso, eles o enviam para as [escolas] dos professores e, com muito mais [força], ordenam [aos professores] que se preocupem muito mais com o comportamento ordeiro de seus filhos do que com sua leitura, escrita e sua execução na lira.&#xA;&#xA;[325e] E os professores se preocupam com essas coisas, e assim que os [crianças] aprendem suas letras e estão prestes a entender o que está escrito tão bem quanto já entendiam a fala articulada, os [professores], por sua vez, oferecem-lhes em suas carteiras os poemas de bons poetas para ler e os obrigam a aprendê-los completamente, [poemas] nos quais há muitos avisos e [326a] muitas histórias detalhadas e canções de louvor e encômios aos bons homens do passado, para que a criança, admirando-os, possa imitá-los e esforçar-se para se tornar como eles.&#xA;&#xA;E os professores de lira, por sua vez, em relação a outros assuntos semelhantes, cuidam da [moderação das crianças] para que os jovens não se comportem mal; além desses assuntos, quando as [crianças] aprenderam a tocar lira, eles lhes ensinam também os poemas de outros bons poetas — poetas líricos — ajustando os [poemas] à execução na lira, [326b] e eles fazem com que os ritmos e harmonias se familiarizem nas almas das crianças, para que [as crianças] se tornem mais gentis, [de modo que], ao se tornarem mais rítmicas e harmoniosas, sejam úteis ao falar e agir. Toda a vida de um ser humano, como você vê, precisa de ritmo e harmoniasupa id=&#34;fnr.15&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.15&#34; name=&#34;fnr.15&#34;15/a/sup.&#xA;&#xA;Então, além dessas coisas, eles ainda enviam [as crianças] ao professor de ginástica para que, estando seus corpos em melhor [condição], possam servir ao bom pensamentosupa id=&#34;fnr.16&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.16&#34; name=&#34;fnr.16&#34;16/a/sup [326c] e não sejam obrigadas a agir de forma covarde tanto nas guerras quanto em outras ações, por conta da má condição de seus corpos. E aqueles que fazem essas coisas mais são os mais poderosos; e os mais poderosos são os mais ricos; e os filhos desses começam desde a mais tenra idade a ir aos seus professores [e] param [de ir a eles] na idade mais tardia. E quando eles deixam de [ir aos] seus professores, a pólis, por sua vez, os obriga a aprender as convenções e a viver de acordo com elas [326d] como um paradigma, para que não ajam por conta própria ao acaso, mas [os obriga] de uma forma simples: Assim como os professores de escrita riscam o contorno das letras em uma tábua de escrever e dão a tábua àquelas crianças que ainda não são hábeis na escrita e as forçam a [praticar] escrevendo entre as letras delineadas, assim também a pólis, tendo traçado o contorno das convenções — as descobertas dos bons homens do passado que estabeleceram as convenções — obriga [as crianças] a governar e ser governadas de acordo com elas, e aquele que se desvia dessas, [a pólis] castiga. [326e] E o nome para esse castigo entre vocês e em toda parte, já que a pena legal é corretiva, é chamado de &#39;correção&#39;. E assim, já que há tanto cuidado com a excelência, tanto em privado quanto em público, você se admira, Sócrates, e está perplexo sobre se a excelência é ensinável? Mas não é necessário se admirar, seria muito mais [admirável] se ela não fosse ensinável.&#xA;&#xA;E então, por que muitos filhos de bons pais se tornam inconsequentes? Aprenda isso a seguir. Você vê, não é surpreendente se eu estava dizendo a verdade em minhas observações anteriores, que [327a] se houver uma pólis, é necessário que ninguém seja leigo nesse aspecto — a excelência. Você vê, se o que digo é de fato assim — e de todas as coisas isso é o mais verdadeiro — reflita sobre qualquer uma das práticas e coisas a serem aprendidas além da [excelência] e escolha [uma delas]. Se não fosse possível que uma pólis existisse a menos que todos [as pessoas] fossem flautistas — o tipo [de flautista] que cada um poderia ser — cada pessoa [estaria] ensinando cada pessoa [a tocar flauta], tanto privada quanto publicamente, e reprovando qualquer um que não tocasse flauta bem, não se importando [com ninguém] em dar essa [instrução], assim como agora ninguém se importa em [ensinar aos outros] coisas justas e legais e não as esconde como [esconderia] outras questões técnicas; [327b] eu penso, você vê, que a prática da justiça e da excelência [dos indivíduos entre] si nos beneficiasupa id=&#34;fnr.17&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.17&#34; name=&#34;fnr.17&#34;17/a/sup; por causa dessas coisas, todos falam ansiosamente uns com os outros e ensinam o que é justo e legal; e assim, se compartilhássemos toda nossa empolgação e altruísmo em ensinar uns aos outros a tocar flauta, você acha, Sócrates,” ele disse, “que os filhos de bons flautistas se tornariam bons flautistas mais do que [os filhos de] flautistas inconsequentes? Eu acho que não, mas qualquer filho, tendo nascido excelente por natureza em música de flauta, poderia se tornar grande e famoso, e qualquer filho que [327c] não tivesse [excelência] natural ficaria sem fama. E muitas vezes [o filho] de um bom flautista acabaria sendo um flautista inconsequente e o [filho de um flautista inconsequente acabaria sendo] um bom. Mas, de qualquer forma, na verdade, todos [esses] flautistas seriam adequados em comparação a leigos que não sabem nada sobre flauta. E dessa forma, pense mesmo agora que qualquer um criado entre convenções e seres humanos que lhe parece ser um ser humano muito injusto [327d] é [no entanto] justo, mesmo um artesão disso, se ele tiver que ser julgado em comparação com seres humanos que não têm educação nem tribunais nem convenções nem qualquer necessidade que continuamente obrigue alguém a cuidar da excelência, mas são selvagens — o tipo [de pessoas] que o poeta Pherecrates colocou no palco no ano passado no [festival] Lenaiansupa id=&#34;fnr.18&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.18&#34; name=&#34;fnr.18&#34;18/a/sup.&#xA;&#xA;[Se você se encontrasse] entre tais seres humanos, como os que odeiam os homens em seu coro, você ficaria extremamente feliz se encontrasse Eurybates e Phrynondassupa id=&#34;fnr.19&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.19&#34; name=&#34;fnr.19&#34;19/a/sup, [327e] e você choraria alto, desejando a maldade das pessoas aqui. E agora você está amoado, Sócrates, porque todos são professores de excelência, cada um na medida em que pode ser, e ninguém lhe parece ser [um professor disso]; é como isto: Se você estivesse procurando alguém para ser um professor de grego, [328a] ninguém apareceria, nem, de fato, eu penso, se você estivesse buscando alguém para ensinar os filhos dos artesãos a mesma habilidade técnica que, de fato, eles aprenderam com seus pais, na medida em que seu pai e os amigos de seu pai que tinham a mesma habilidade ainda pudessem ensinar [a eles], eu não acho que seria fácil, Sócrates, encontrar um professor dessas [artes], mas para [jovens que eram] totalmente inexperientes, seria fácil [encontrar um professor], e é assim também nas [questões] de excelência e de todas as outras coisas. [328b] Mas se alguém diferir de nós um pouco ao nos levar adiante para a excelência, é algo a ser celebrado. Eu acho que sou um desses e [que eu] beneficio uma pessoa de forma diferente das outras em se tornar um homem bom e digno, e merecidamente faço isso por um pagamento e por um pagamento ainda maior, como parece [certo] para o próprio aprendiz. Por causa dessas coisas, também fiz isso em relação ao pagamento. Você vê, sempre que alguém aprende comigo, se desejar, [ele paga] o valor que eu cobro, mas se ele não [quiser], ele vai a um templo e jura [328c] quanto ele acha que minhas aulas valem, [e] é isso que ele colocasupa id=&#34;fnr.20&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.20&#34; name=&#34;fnr.20&#34;20/a/sup. &#xA;&#xA;Para você, Sócrates,” ele disse, “esta é a história e o argumento que eu contei, sobre como a excelência é um [assunto] ensinável e como os atenienses pensam isso e como não é de modo algum surpreendente que os filhos de homens bons se tornem inconsequentes e os filhos de [pais] inconsequentes se tornem bons, uma vez que os filhos de Policleto, que têm a mesma idade que Paralus e Xanthippus aqui, não são nada comparados ao pai deles, e outros [filhos] de outros artesãos são iguais. Mas não é correto acusar esses [rapazes]supa id=&#34;fnr.21&#34; class=&#34;footref&#34; href=&#34;#fn.21&#34; name=&#34;fnr.21&#34;21/a/sup. [328d] Você vê, ainda há esperanças neles; você vê, eles são jovens.&#xA;&#xA;div id=&#34;footnotes&#34;        h3 class=&#34;footnotes&#34;Notas de Rodapé/h3        div id=&#34;text-footnotes&#34;            div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.1&#34; name=&#34;fn.1&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.1&#34;1/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Os nomes são significativos: Prometeu significa &#34;compreensão antecipada&#34;; Epimeteu significa &#34;compreensão tardia”./p/div            div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.2&#34; name=&#34;fn.2&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.2&#34;2/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Toda esta frase é obscura. Talvez Protágoras esteja falando sobre as camas ou os locais de dormir dos animais que não têm “um colchão de pelagem.” Aqueles que se escondem sob suas armas seriam animais como os porcos-espinhos, que dormem sob seus espinhos; aqueles que são providos de pele espessa seriam animais como elefantes ou vacas; aqueles que são dotados de partes sem sangue seriam animais como caracóis ou tartarugas. Uma tradução alternativa poderia ser “vestindo alguns com armas, outros com peles espessas e sem sangue.” Esses seriam animais que usam seus pés como armas e como meio de locomoção. Talvez, neste caso, as peles espessas e sem sangue se refiram a cascos./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.3&#34; name=&#34;fn.3&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.3&#34;3/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Heródoto faz praticamente a mesma observação (3.108)./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.4&#34; name=&#34;fn.4&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.4&#34;4/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Ficar sem saber o que fazer se refere aqui ao estado de aporia./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.5&#34; name=&#34;fn.5&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.5&#34;5/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Isso provavelmente se refere à capacidade de raciocinar./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.6&#34; name=&#34;fn.6&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.6&#34;6/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Aidós (Αἰδώς): reverência, temor, respeito pelo sentimento ou opinião dos outros ou pela própria consciência, vergonha, autorrespeito, senso de honra, sobriedade, consideração pelos outros, especialmente os desamparados, compaixão. Na mitologia grega, Aedos ou Aesquine era uma Daemon, a personificação da vergonha, da humildade e do pudor, sendo ao mesmo tempo a divindade que representava o sentimento da dignidade humana, tendo como qualidade o respeito ou a vergonha que reprime aos homens do inapropriado. Sua equivalente romana seria Pudor ou Pudicia. Traduzido como &#34;temor reverencial&#34; pois no texto está em algum lugar entre &#34;reverência&#34;, que parece inspirada pela bondade, e &#34;medo&#34;, que é uma expectativa de dano./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.7&#34; name=&#34;fn.7&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.7&#34;7/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Dike (δίκη): Um termo do direito ático que significa, de forma geral, qualquer procedimento legal de uma parte diretamente ou indiretamente contra outras. O objetivo de todas essas ações é proteger o corpo político, ou um ou mais de seus membros individuais, de lesões e agressões. Esta é a nossa tradução de dike, que, embora às vezes seja traduzida como “justiça”, de forma mais geral significa “processo judicial”, “ação legal” e até mesmo “pena atribuída”, e, portanto, tem uma associação com um processo ou sensibilidade legal. É análoga ao nosso termo “temor reverencial” e combina um senso do que é certo com um medo de sofrer uma penalidade./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.8&#34; name=&#34;fn.8&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.8&#34;8/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Talvez na frase de Protágoras tenhamos uma lista dos componentes do artesanato político. A ordem e a amizade são as bases da vida social. Essas opiniões são muito antigas. Em Heródoto, Deioces é o fundador da realeza porque mantém sua sociedade, a Média, longe da anarquia. Os antigos argumentos sobre o fortalecimento da cidade incluem o aumento do número de laços (desmoi) entre os indivíduos. O principal argumento moral contra o casamento incestuoso é que ele duplica os laços (o mesmo homem pode ser irmão, tio, primo) em vez de multiplicar os laços entre famílias distintas por meio de casamentos fora da própria família (criando parentes por meio do casamento)./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.9&#34; name=&#34;fn.9&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.9&#34;9/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Anteriormente, Protágoras havia associado os termos &#39;senso do que é legalmente justo&#39; com &#39;temor reverencial.&#39; Agora, em vez de &#39;senso do que é legal,&#39; ele está usando dikaiosyne, que traduzimos como &#39;prática de justiça,&#39; embora ela, assim como dike (veja a nota 7), também seja frequentemente traduzida simplesmente como &#39;justiça&#39;./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.10&#34; name=&#34;fn.10&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.10&#34;10/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Esta é uma visão completamente oposta àquela que Sócrates defende no Górgias, onde ele persuade seu interlocutor Pólis de que um homem deve se denunciar e denunciar seus amigos quando eles estiverem errados e deixar seus inimigos em liberdade (Górgias 480b–481b)./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.11&#34; name=&#34;fn.11&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.11&#34;11/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Injustiça e impiedade e, de maneira geral, tudo que é o oposto da excelência que diz respeito aos assuntos da pólis&#39; são entendidos como uma só coisa. Um hendíadis é o recurso pelo qual uma coisa é expressa por duas palavras (por exemplo, &#39;força e vigor&#39;). Há um debate sobre se uma ideia ou várias ideias distintas são pretendidas aqui. Em Platão, há a questão recorrente de se a virtude é uma coisa só e se todas as aparentemente várias virtudes se reduzem a uma única virtude. A linguagem que Platão aqui dá a seu personagem Protágoras parece deliberadamente provocativa, já que Protágoras diz que uma das qualidades ruins consiste em partes, uma delas extremamente grande (&#39;de maneira geral, tudo que é o oposto da excelência que diz respeito aos assuntos da pólis&#39;)./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.12&#34; name=&#34;fn.12&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.12&#34;12/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Platão faz com que Protágoras se esqueça do pensamento que começaria com &#39;por outro lado.&#39; Protágoras nunca retoma as consequências de não haver uma excelência humana básica e se perde em um argumento divagante./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.13&#34; name=&#34;fn.13&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.13&#34;13/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Protágoras está fazendo um argumento a fortiori, argumentando &#39;a partir do que é mais forte.&#39; Por exemplo, se uma pessoa pode levantar cinquenta libras (o que requer maior força), ela certamente pode levantar dez libras. Sem dúvida, este é um dos tipos de argumento que Protágoras ensinou./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.14&#34; name=&#34;fn.14&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.14&#34;14/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Um pedagogo era o escravo que acompanhava um menino à escola e de volta para casa./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.15&#34; name=&#34;fn.15&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.15&#34;15/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Na República, Sócrates discute extensivamente o papel da música na educação dos guardiões. A música, segundo Sócrates, tem o poder de agir diretamente sobre as paixões, até contra e sem a razão. O uso da música, juntamente com a ginástica, serve para refinar a alma adequadamente — tornar a alma mais dura ou mais suave conforme necessário — para preparar os guardiões para o cumprimento de sua responsabilidade política (liderar sua sociedade em tempos de paz e guerra) e, ainda mais, para o cumprimento de sua responsabilidade intelectual (buscar a verdade do ser). Veja, por exemplo, República 410a–412a./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.16&#34; name=&#34;fn.16&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.16&#34;16/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Protágoras parece aqui antecipar o argumento de que corpos saudáveis podem ser usados para o bem ou para o mal. No Górgias, o personagem Górgias diz que a retórica não deve ser acusada se for usada de forma errada, um argumento repetido mais tarde por Isócrates (Antídose 252) e Aristóteles (Retórica 1355b3–7). Aqui, Protágoras afirma que corpos saudáveis são úteis para servir pensamentos saudáveis, e ele não convida a possibilidade de serem úteis para más ações./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.17&#34; name=&#34;fn.17&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.17&#34;17/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Este é o argumento de Sócrates na Apologia (25c–26a), onde ele afirma que nunca intencionalmente prejudicaria outra pessoa porque tornaria a sociedade pior e, portanto, como membro da sociedade, tornaria sua própria vida pior. Todo criminoso, é claro, poderia usar o mesmo argumento. O problema com o argumento surge da suposição de que as pessoas estão sempre agindo racionalmente ou sem erro nos pressupostos./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.18&#34; name=&#34;fn.18&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.18&#34;18/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Em 421–420 a.C.E., o dramaturgo cômico Pherecrates produziu Os Homens Selvagens, que sobrevive em muito poucos fragmentos. Hermann Sauppe sugere que os &#39;homens selvagens&#39; se assemelhavam aos ciclopes de Homero em sua barbaridade. Pouco se sabe sobre Pherecrates, que se diz ter vencido sua primeira competição em 438 e ter composto vinte e uma comédias. O que parece claro é que a peça abordou, em forma cômica, o debate sobre natureza e convenção, mostrando mais uma vez que a comédia, como os diálogos de Platão — e como a nossa comédia contemporânea — se sentia à vontade para zombar de debates intelectuais./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.19&#34; name=&#34;fn.19&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.19&#34;19/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Segundo a Suída, uma compilação do século X d.C. de coleções anteriores de dados, a única fonte de informação sobre esses homens, Eurybatos era um homem perverso que foi enviado por Crésus com dinheiro em uma embaixada e traiu Crésus, indo para Ciro, o inimigo de Crésus. Phrynondas era um indivíduo igualmente perverso./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.20&#34; name=&#34;fn.20&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.20&#34;20/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Aristóteles, na Ética a Nicômaco (1164a25), parece confirmar o método de pagamento de Protágoras, mas é, claro, possível que Aristóteles tenha aprendido isso do diálogo presente. Aristóteles cita Hesíodo como tendo estabelecido a prática. Em Os Trabalhos e os Dias (370), Hesíodo cantou: &#39;Que o salário seja suficiente&#39;./p/div&#x9;div class=&#34;footdef&#34;supa id=&#34;fn.21&#34; name=&#34;fn.21&#34; class=&#34;footnum&#34; href=&#34;#fnr.21&#34;21/a/sup p class=&#34;footpara&#34;Para a audiência de Platão, se as histórias contadas por Plutarco (Vida de Péricles 36) já eram conhecidas, essas palavras estariam cheias de ironia dramática. Xanthippus, segundo Plutarco, o filho legítimo mais velho de Péricles, casou-se com uma esposa jovem e gastadora, e se ressentiu amargamente dos modos avarentos de seu pai. Assim, ele pegou emprestado dinheiro de um dos amigos de seu pai, alegando falsamente que estava fazendo isso a pedido de Péricles. Quando Péricles não apenas se recusou a pagar o homem de volta, mas o processou, Xanthippus ficou furioso e começou a denegrir seu pai, acusando-o de indiscrições com a esposa de Xanthippus e afirmando que Péricles desperdiçou seu tempo discutindo com Protágoras sobre se um homem morto por um lançamento acidental de uma lança foi morto pelo lançador ou pela lança. Xanthippus e seu pai nunca reconciliaram sua briga, e Xanthippus morreu na praga pouco antes de seu pai. Plutarco também relata que, quando o único filho sobrevivente de Péricles, Paralus, morreu, Péricles, embora normalmente não chorasse nos funerais de seus parentes mais próximos, durante o funeral de Paralus rompeu em um choro descontrolado pela primeira vez em sua vida. Assim, o Protágoras de Platão termina seu discurso, então, com uma nota de triste ironia./p/div      /div    /div&#xA;Link para comentários.&#xA;&#xA;#Filosofia #Protágoras #Platão #Prometheus #Socrates]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/0e/Prometheus_Adam_Louvre_MR1745_edit_atoma.jpg" alt="Prometheus">
</p>

<p>Dando seguimento ao meu projeto de retomada de Protágoras, com algumas considerações bem <a href="https://infosec.press/sirius/por-que-voltar-a-protagoras" rel="nofollow">informais</a> entendo ser interessante disponibilizar uma boa tradução do mito do mais famoso sofista.</p>

<p>É possível observar uma forte ligação do mito de Prometeu e Epimeteu com as concepções naturalistas da <a href="https://infosec.press/sirius/diodoro-da-sicilia-os-primeiros-homens" rel="nofollow">história dos primeiros homens</a> de Diodoro Sículo, atribuído a Demócrito.</p>

<p>A presente tradução do mito de prometeu foi extraída de outra em inglês, por James A. Arieti e Roger M. Barrus, na obra “Plato&#39;s Protagoras”. Mantive algumas das notas de rodapé do original, que considerei bem interessantes, pouco acrescentei à algumas notas, mas recomendo a leitura do texto original pois há mais notas que tornam a leitura ainda mais interessante.</p>

<p>Nesse diálogo, Sócrates é acordado pelo jovem Hipócrates (filho de Apolodoro) que vem bater à porta de sua casa para avisar que Protágoras está em Atenas, na casa de Hipponicus, filho de Calias.</p>

<p>Ao chegarem na residência, encontram o local repleto de sofistas e discipulos. Sócrates então começa a debater com Protágoras e seu primeiro questionamento é sobre a possibilidade de a excelência (arete) ser ensinada, uma vez que Protágoras era pago como professor de tal matéria.</p>

<p>Protágoras utiliza o mito como uma alegoria para demonstrar que a excelência pode ser ensinada e prossegue discursando sobre outro questionamento de Sócrates sobre bons homens não conseguirem ensinar seus filhos a também serem virtuosos.</p>

<p>Muitas das ideias inovadoras no pensamento político filosófico que estão nessa alegoria, suas ideias humanistas, democráticas, juspositivistas e sociológicas, vou abordar mais detalhadamente em outros escritos.</p>

<p>Segue por enquanto o trecho.</p>

<h2 id="o-mito-de-prometeu">O Mito de Prometeu</h2>

<p>(Protágoras, no diálogo homônimo de Platão)</p>

<p>Era uma vez, como você vê, havia deuses, mas não havia gêneros mortais. [320d] Mas quando também para esses [gêneros] chegou o tempo [que foi] ordenado para [seu] processo de vir a ser, os deuses os moldaram dentro da terra [ao] misturá-los com terra e fogo e todas as coisas misturadas com fogo e terra. E quando os [deuses] estavam prestes a trazer esses [seres] à luz, designaram Prometeu e Epimeteu<sup><a id="fnr.1" class="footref" href="#fn.1" rel="nofollow">1</a></sup> para organizar e distribuir poderes para cada [um dos gêneros mortais] conforme apropriado. E Epimeteu pede a Prometeu [que lhe conceda o favor de] fazer a distribuição. &#39;Mas, [você] supervisionará minha distribuição&#39;, ele disse. E, tendo assim persuadido [Prometeu], ele faz a distribuição. [320e] E ao fazer a distribuição, a alguns ele atribuiu força sem rapidez, mas organizou os mais fracos com rapidez; a outros ele armou, mas ao dar a outros uma natureza desarmada, ele concebeu para eles algum outro poder para sua segurança. Como você vê, para aqueles seres que ele vestiu com pequenez, ele distribuiu uma fuga alada ou o hábito de habitar no subsolo; aqueles que ele aumentou em tamanho, ele salvou por meio desse [tamanho]; [321a] e igualando outras coisas dessa forma, ele continuou a fazer a distribuição. E ele concebeu essas coisas, sendo cauteloso para que nenhum gênero desaparecesse da vista.</p>

<p>E quando ele os havia provido de um meio de escapar de destruições mútuas, ele concebeu um conforto para as estações [que vêm] de Zeus, vestindo-os com espessa pelagem e peles sólidas, suficientes para afastar o inverno e até capazes [de afastar] o calor, e para esses [animais], enquanto vão para suas camas [Epimeteu concebeu] que pudessem possuir seus próprios colchões caseiros, [321b] colocando alguns sob suas armas, mas providenciando a outros peles espessas e sem sangue<sup><a id="fnr.2" class="footref" href="#fn.2" rel="nofollow">2</a></sup>.</p>

<p>Então, ele distribuiu diferentes alimentos para diferentes seres; a alguns [ele deu] erva da terra; a outros, frutas das árvores; a outros, raízes. E há aqueles a quem ele deu a carne de outros animais como alimento. E a alguns ele atribuiu uma baixa taxa de natalidade, mas atribuiu uma alta taxa de natalidade àqueles que eram capturados por eles, proporcionando segurança ao gênero [dos animais consumidos como presa]<sup><a id="fnr.3" class="footref" href="#fn.3" rel="nofollow">3</a></sup>.</p>

<p>E assim, na medida em que não era absolutamente sábio, Epimeteu não percebeu que havia esgotado todos os poderes nos [gêneros] desprovidos de razão [321c] e que a raça humana ainda estava desorganizada por ele, ficando sem saber o que fazer<sup><a id="fnr.4" class="footref" href="#fn.4" rel="nofollow">4</a></sup>. E enquanto estava perplexo, Prometeu se aproxima dele para examinar a distribuição, e vê os outros animais [harmoniosamente] em sintonia em todos [seus recursos], mas o [animal] humano ele vê nu e descalço e sem cama e sem armas. E já havia chegado o dia determinado em que era necessário que a humanidade também [como os outros animais] saísse da terra para a luz. E Prometeu, sem saber que segurança poderia encontrar para o ser humano, rouba de Hefesto e Atena a sabedoria técnica junto com o fogo—[321d] você vê, sem fogo, essa posse [da sabedoria técnica] era para ele sem aplicação prática [ao invés de se tornar uma posse útil]—e assim ele realmente concede um presente à humanidade. E dessa forma, a humanidade tinha sabedoria sobre os meios de subsistência, mas não tinha sabedoria sobre a arte da polis; você vê, [essa sabedoria] estava na casa de Zeus; e não era mais possível para Prometeu ir à acrópole, à casa de Zeus; e além disso, os guardas de Zeus eram temíveis; [321e] e à casa comum de Atena e Hefesto, onde os dois praticavam carinhosamente suas habilidades técnicas, Prometeu vai secretamente e, depois de roubar a habilidade técnica de Hefesto de usar o fogo e outras habilidades técnicas de Atena, ele as dá à humanidade, e por causa disso [os humanos] têm um meio abundante de subsistência; mas depois, como se diz, uma acusação de furto perseguiu Prometeu [322a] por causa de Epimeteu.</p>

<p>E uma vez que o animal humano tinha uma parte do que foi atribuído aos deuses<sup><a id="fnr.5" class="footref" href="#fn.5" rel="nofollow">5</a></sup>, porque (sozinho entre os animais) ele tinha uma afinidade com o divino, primeiro estabeleceu convenções sobre os deuses e se comprometeu a construir altares e imagens dos deuses; segundo, por meio da habilidade técnica, articulou rapidamente a linguagem e os nomes, e descobriu casas, roupas, sapatos, lençóis e os alimentos da terra. Tendo sido assim providos desde o início, de fato, os humanos viveram espalhados, e não havia poleis. [322b] E assim foram destruídos por feras, pois eram mais fracos de todas as maneiras. E embora sua habilidade técnica artesanal fosse uma ajuda suficiente para a alimentação, ela era insuficiente para a guerra com as feras. Veja, eles ainda não tinham uma habilidade técnica de construção política, da qual a habilidade em guerrear é uma parte. Continuavam buscando, de fato, se reunir e se salvar [por meio] da construção de poleis. E assim, quando conseguiam se reunir, agiam injustamente uns com os outros por não possuírem a habilidade técnica no que diz respeito aos assuntos da polis, de modo que, espalhando-se novamente, eram destruídos. [322c] E assim Zeus, temendo por nossa espécie, para que não fosse destruída completamente, envia Hermes para trazer temor reverencial<sup><a id="fnr.6" class="footref" href="#fn.6" rel="nofollow">6</a></sup> e um senso do que é legalmente justo<sup><a id="fnr.7" class="footref" href="#fn.7" rel="nofollow">7</a></sup>, de modo que possam haver tanto princípios de ordenação das poleis quanto os laços que promovem a amizade<sup><a id="fnr.8" class="footref" href="#fn.8" rel="nofollow">8</a></sup>. E assim Hermes pergunta a Zeus de que maneira poderia dar aos humanos um senso do que é legalmente justo e um temor reverencial. “Devo distribuir isso da mesma maneira que as habilidades técnicas foram distribuídas? Elas foram distribuídas assim: uma pessoa que possui habilidade técnica médica é suficiente para muitos leigos, e é o mesmo para os outros artesãos. Devo, de fato, colocar um senso do que é legalmente justo e um temor reverencial nos humanos assim, ou devo distribuí-los a todos?”.</p>

<p>“A todos”, disse Zeus, “e que todos tenham uma parte. [322d] Vocês veem, não haveria pólis se poucos participassem disso, assim como nas outras habilidades técnicas. E considere isso como uma convenção [estabelecida por meu comando] que [é incumbente] matar aquele que não consegue compartilhar do temor reverencial e do senso do que é legalmente justo, [matando-o como] uma praga da pólis”.</p>

<p>Dessa forma, de fato, Sócrates, e por causa dessas coisas, tanto os outros quanto os atenienses, quando há uma discussão sobre a excelência da habilidade técnica de marcenaria ou sobre algum outro ofício, pensam que [apenas] alguns devem ter uma participação no aconselhamento, e se alguém fora desse grupo restrito oferece conselhos, [322e] eles não suportam isso, como você diz—justamente, como eu digo; mas quando vão compartilhar conselhos sobre [a condução] dos assuntos da pólis de forma excelente, [323a] que deve surgir inteiramente de uma prática de justiça<sup><a id="fnr.9" class="footref" href="#fn.9" rel="nofollow">9</a></sup> e autocontrole, eles de maneira apropriada aceitam [o conselho de] cada homem, como é adequado, claro, pois todos têm uma parte nessa excelência, ou não haveria pólis. Isso, Sócrates, é [o que] é responsável por esse [fenômeno].</p>

<p>E assim, para que você não pense que está sendo enganado [ao aceitar] que todos os seres humanos realmente acreditam que cada homem tem uma parte na prática da justiça e nas demais excelências que envolvem os assuntos da pólis, considere a próxima evidência. Nas outras formas de excelência, como você diz, se alguém afirma que é um bom flautista ou [que é bom] em alguma outra habilidade técnica da qual não é [bom], ou eles riem dele ou dificultam [sua vida], [323b] e seus parentes vêm e o avisam de que ele está louco; mas nas [questões de] prática da justiça e nas demais excelências que dizem respeito aos assuntos da pólis, mesmo que saibam que alguém é injusto, se ele mesmo diz a verdade na frente de muitos [pessoas: que ele é injusto]—o que [na questão de outras formas de excelência] eles consideram como autocontrole—ou seja, dizer a verdade, lá eles consideram isso uma loucura, e afirmam que todas as pessoas precisam dizer que são justas, estejam elas sendo ou não, ou que a pessoa que não faz alarde de praticar a justiça está louca<sup><a id="fnr.10" class="footref" href="#fn.10" rel="nofollow">10</a></sup> —como se fosse necessário que qualquer um que não tivesse uma participação na [prática da justiça] [323c] não pertencesse à raça humana.</p>

<p>E assim, isso é o que estou dizendo: que [os cidadãos da pólis] adequadamente aceitam cada homem como conselheiro sobre essa excelência porque pensam que todos têm uma parte nela. E isso tentarei mostrar a você a seguir: Eles não pensam que [essa excelência] é por natureza ou que surge automaticamente, mas [pensam] que é ensinável e que surge da atenção que se dedica a ela. Veja, ninguém fica emocional [323d] em relação aos muitos defeitos que os seres humanos acreditam que uns têm dos outros por natureza ou por acaso, nem dá avisos ou instrui ou disciplina aqueles que têm esses [defeitos] com o objetivo de que não sejam assim, mas sentem pena [por eles]. Pois quem é tão insensato a ponto de se empenhar em fazer qualquer uma dessas coisas em relação àqueles que são feios, pequenos ou fracos? Veja, eu acho que eles sabem que essas coisas—beleza e o oposto, [feiura] —surgem nas pessoas por natureza e por acaso. Mas em relação às muitas coisas boas que pensam surgir para os seres humanos por causa da atenção ou da prática ou do ensino, se alguém não tem essas [323e] mas tem os males opostos a essas, [é em relação] a essas pessoas, suponho, que eles [direcionam] suas emoções e punições e avisos. Entre essas [qualidades ruins], uma é a injustiça e a impiedade e, de maneira geral, tudo que é o oposto da excelência que diz respeito aos assuntos da pólis<sup><a id="fnr.11" class="footref" href="#fn.11" rel="nofollow">11</a></sup>. [324a] É aqui que, de fato, cada pessoa direciona sua emoção e adverte cada [outra pessoa]—claramente porque a posse [da excelência] vem da atenção e do aprendizado. Veja, Sócrates, se você está disposto a voltar sua mente para a disciplina, sobre o que isso pode [fazer] por aqueles que agem injustamente, o [assunto] em si lhe ensinará que os seres humanos pensam que a excelência é algo que pode ser fornecido. Veja, ninguém que tenha uma mente disciplina aqueles que agem injustamente por esse [motivo] e por causa disso—[apenas] porque ele agiu injustamente [324b]—[ou seja,] quem não toma vingança irracionalmente como uma besta; e aquele que se propõe a punir com razão não toma vingança por uma injustiça que foi perpetrada—veja, uma coisa [já] feita não pode [ser feita] não ter acontecido—mas por causa do futuro, para que nem [o perpetrador] novamente atue injustamente, nem outro que o veja punido. E tendo isso em mente, ele tem em mente que a excelência é uma questão de educação: ele pune para o fim de desencorajar. E assim todas as pessoas têm essa opinião, [324c] [ou seja,] todos que tomam vingança privada e publicamente. E o restante da humanidade toma vingança e pune aqueles que pensam que agem injustamente, e não menos os atenienses, seus [colegas] cidadãos; de modo que, de acordo com esse argumento, os atenienses também estão entre aqueles que pensam que a excelência é uma coisa que pode ser fornecida e ensinada. E assim foi suficientemente demonstrado a você, Sócrates, [324d] como, é claro, me parece, que seus cidadãos a aceitam de maneira apropriada quando um ferreiro e um sapateiro dão conselhos sobre assuntos pertinentes à pólis—[porque] pensam que a excelência é uma coisa que pode ser fornecida.</p>

<p>Ainda há o restante da sua perplexidade a respeito dos homens bons—por que, de fato, os homens bons ensinam a seus filhos as outras [lições] dos professores e os tornam sábios [nessas coisas], mas nessa excelência particular [dos seres humanos], os homens bons não tornam [seus filhos] melhores do que ninguém [mais]. Sobre isso, de fato, Sócrates, não contarei mais uma história, mas [apresentarei] um argumento. Veja, considere o seguinte:</p>

<p>Há ou não há uma coisa [324e] que é necessária para que todos os cidadãos compartilhem se houver uma pólis? Nesse ponto, você vê, a mesma perplexidade que o perturba é resolvida, ou não será resolvida em nenhum outro lugar. Veja, se, por um lado<sup><a id="fnr.12" class="footref" href="#fn.12" rel="nofollow">12</a></sup>, existe essa [uma coisa], e essa uma coisa não é a [habilidade] do construtor ou do ferreiro ou do oleiro [325a], mas é a prática da justiça, do autocontrole e da santidade (e estou falando de tudo isso junto como uma só coisa, a excelência de um homem), se há essa [uma coisa] da qual é necessário que todos tenham uma parte (e cada homem, se também deseja aprender ou fazer algo mais, deve agir com essa [uma coisa, a excelência de um homem] e sem isso [ele deve] não [agir])—ou, [se existe essa uma excelência, então é necessário] ensinar e disciplinar aquele que não compartilha disso (uma criança, um homem e uma mulher) até que, sendo disciplinado, [a pessoa] se torne melhor; mas [se acontecer que] mesmo sendo disciplinada e ensinada, a pessoa não obedece [e não se torna melhor], [será necessário] expulsar essa [pessoa], como se incurável, da pólis ou matá-la [325b]—se for dessa forma, e se for naturalmente dessa forma, considere como os homens bons são estranhos, se enquanto ensinam seus filhos outras coisas, não os ensinam isso. Mostramos, você vê, que eles pensam que é uma coisa ensinável tanto privada quanto publicamente. E uma vez que é ensinável e um [assunto] de cuidado, enquanto seus filhos são ensinados as outras coisas para as quais a morte não é a penalidade se não as conhecem, por que a penalidade é a morte e o exílio para seus próprios filhos quando não aprendem e não cuidam da excelência, e [325c] além da morte, a apropriação pública de seus bens e, para ser breve, a completa destruição de seus lares—veja, essas coisas não são ensinadas e não se preocupam [em ensiná-las] com todo o cuidado<sup><a id="fnr.13" class="footref" href="#fn.13" rel="nofollow">13</a></sup>? É, claro, necessário, Sócrates, pensar [assim].</p>

<p>Começando [desde quando] seus filhos são pequenos, durante toda a vida dos [pais], eles ensinam e aconselham [seus filhos]. Assim que um [filho] entende o que é dito mais rapidamente [do que entendia quando era menor], sua ama, mãe, pedagogo<sup><a id="fnr.14" class="footref" href="#fn.14" rel="nofollow">14</a></sup> e [325d] o próprio pai brigam sobre isso—como o filho pode ser melhor—ensinando e mostrando [a ele] que para cada ato e palavra isso é o que é justo, isso é o que é injusto, e isso aqui é o belo, e isso o feio, e isso aqui o sagrado, e isso o profano, e &#39;faça essas coisas&#39;, mas &#39;não faça essas.&#39; E se ele obedece de bom grado . . . mas se não, como se fosse um pedaço de madeira torta ou curvada, eles o endireitam [com] ameaças e golpes. E depois disso, eles o enviam para as [escolas] dos professores e, com muito mais [força], ordenam [aos professores] que se preocupem muito mais com o comportamento ordeiro de seus filhos do que com sua leitura, escrita e sua execução na lira.</p>

<p>[325e] E os professores se preocupam com essas coisas, e assim que os [crianças] aprendem suas letras e estão prestes a entender o que está escrito tão bem quanto já entendiam a fala articulada, os [professores], por sua vez, oferecem-lhes em suas carteiras os poemas de bons poetas para ler e os obrigam a aprendê-los completamente, [poemas] nos quais há muitos avisos e [326a] muitas histórias detalhadas e canções de louvor e encômios aos bons homens do passado, para que a criança, admirando-os, possa imitá-los e esforçar-se para se tornar como eles.</p>

<p>E os professores de lira, por sua vez, em relação a outros assuntos semelhantes, cuidam da [moderação das crianças] para que os jovens não se comportem mal; além desses assuntos, quando as [crianças] aprenderam a tocar lira, eles lhes ensinam também os poemas de outros bons poetas — poetas líricos — ajustando os [poemas] à execução na lira, [326b] e eles fazem com que os ritmos e harmonias se familiarizem nas almas das crianças, para que [as crianças] se tornem mais gentis, [de modo que], ao se tornarem mais rítmicas e harmoniosas, sejam úteis ao falar e agir. Toda a vida de um ser humano, como você vê, precisa de ritmo e harmonia<sup><a id="fnr.15" class="footref" href="#fn.15" rel="nofollow">15</a></sup>.</p>

<p>Então, além dessas coisas, eles ainda enviam [as crianças] ao professor de ginástica para que, estando seus corpos em melhor [condição], possam servir ao bom pensamento<sup><a id="fnr.16" class="footref" href="#fn.16" rel="nofollow">16</a></sup> [326c] e não sejam obrigadas a agir de forma covarde tanto nas guerras quanto em outras ações, por conta da má condição de seus corpos. E aqueles que fazem essas coisas mais são os mais poderosos; e os mais poderosos são os mais ricos; e os filhos desses começam desde a mais tenra idade a ir aos seus professores [e] param [de ir a eles] na idade mais tardia. E quando eles deixam de [ir aos] seus professores, a pólis, por sua vez, os obriga a aprender as convenções e a viver de acordo com elas [326d] como um paradigma, para que não ajam por conta própria ao acaso, mas [os obriga] de uma forma simples: Assim como os professores de escrita riscam o contorno das letras em uma tábua de escrever e dão a tábua àquelas crianças que ainda não são hábeis na escrita e as forçam a [praticar] escrevendo entre as letras delineadas, assim também a pólis, tendo traçado o contorno das convenções — as descobertas dos bons homens do passado que estabeleceram as convenções — obriga [as crianças] a governar e ser governadas de acordo com elas, e aquele que se desvia dessas, [a pólis] castiga. [326e] E o nome para esse castigo entre vocês e em toda parte, já que a pena legal é corretiva, é chamado de &#39;correção&#39;. E assim, já que há tanto cuidado com a excelência, tanto em privado quanto em público, você se admira, Sócrates, e está perplexo sobre se a excelência é ensinável? Mas não é necessário se admirar, seria muito mais [admirável] se ela não fosse ensinável.</p>

<p>E então, por que muitos filhos de bons pais se tornam inconsequentes? Aprenda isso a seguir. Você vê, não é surpreendente se eu estava dizendo a verdade em minhas observações anteriores, que [327a] se houver uma pólis, é necessário que ninguém seja leigo nesse aspecto — a excelência. Você vê, se o que digo é de fato assim — e de todas as coisas isso é o mais verdadeiro — reflita sobre qualquer uma das práticas e coisas a serem aprendidas além da [excelência] e escolha [uma delas]. Se não fosse possível que uma pólis existisse a menos que todos [as pessoas] fossem flautistas — o tipo [de flautista] que cada um poderia ser — cada pessoa [estaria] ensinando cada pessoa [a tocar flauta], tanto privada quanto publicamente, e reprovando qualquer um que não tocasse flauta bem, não se importando [com ninguém] em dar essa [instrução], assim como agora ninguém se importa em [ensinar aos outros] coisas justas e legais e não as esconde como [esconderia] outras questões técnicas; [327b] eu penso, você vê, que a prática da justiça e da excelência [dos indivíduos entre] si nos beneficia<sup><a id="fnr.17" class="footref" href="#fn.17" rel="nofollow">17</a></sup>; por causa dessas coisas, todos falam ansiosamente uns com os outros e ensinam o que é justo e legal; e assim, se compartilhássemos toda nossa empolgação e altruísmo em ensinar uns aos outros a tocar flauta, você acha, Sócrates,” ele disse, “que os filhos de bons flautistas se tornariam bons flautistas mais do que [os filhos de] flautistas inconsequentes? Eu acho que não, mas qualquer filho, tendo nascido excelente por natureza em música de flauta, poderia se tornar grande e famoso, e qualquer filho que [327c] não tivesse [excelência] natural ficaria sem fama. E muitas vezes [o filho] de um bom flautista acabaria sendo um flautista inconsequente e o [filho de um flautista inconsequente acabaria sendo] um bom. Mas, de qualquer forma, na verdade, todos [esses] flautistas seriam adequados em comparação a leigos que não sabem nada sobre flauta. E dessa forma, pense mesmo agora que qualquer um criado entre convenções e seres humanos que lhe parece ser um ser humano muito injusto [327d] é [no entanto] justo, mesmo um artesão disso, se ele tiver que ser julgado em comparação com seres humanos que não têm educação nem tribunais nem convenções nem qualquer necessidade que continuamente obrigue alguém a cuidar da excelência, mas são selvagens — o tipo [de pessoas] que o poeta Pherecrates colocou no palco no ano passado no [festival] Lenaian<sup><a id="fnr.18" class="footref" href="#fn.18" rel="nofollow">18</a></sup>.</p>

<p>[Se você se encontrasse] entre tais seres humanos, como os que odeiam os homens em seu coro, você ficaria extremamente feliz se encontrasse Eurybates e Phrynondas<sup><a id="fnr.19" class="footref" href="#fn.19" rel="nofollow">19</a></sup>, [327e] e você choraria alto, desejando a maldade das pessoas aqui. E agora você está amoado, Sócrates, porque todos são professores de excelência, cada um na medida em que pode ser, e ninguém lhe parece ser [um professor disso]; é como isto: Se você estivesse procurando alguém para ser um professor de grego, [328a] ninguém apareceria, nem, de fato, eu penso, se você estivesse buscando alguém para ensinar os filhos dos artesãos a mesma habilidade técnica que, de fato, eles aprenderam com seus pais, na medida em que seu pai e os amigos de seu pai que tinham a mesma habilidade ainda pudessem ensinar [a eles], eu não acho que seria fácil, Sócrates, encontrar um professor dessas [artes], mas para [jovens que eram] totalmente inexperientes, seria fácil [encontrar um professor], e é assim também nas [questões] de excelência e de todas as outras coisas. [328b] Mas se alguém diferir de nós um pouco ao nos levar adiante para a excelência, é algo a ser celebrado. Eu acho que sou um desses e [que eu] beneficio uma pessoa de forma diferente das outras em se tornar um homem bom e digno, e merecidamente faço isso por um pagamento e por um pagamento ainda maior, como parece [certo] para o próprio aprendiz. Por causa dessas coisas, também fiz isso em relação ao pagamento. Você vê, sempre que alguém aprende comigo, se desejar, [ele paga] o valor que eu cobro, mas se ele não [quiser], ele vai a um templo e jura [328c] quanto ele acha que minhas aulas valem, [e] é isso que ele coloca<sup><a id="fnr.20" class="footref" href="#fn.20" rel="nofollow">20</a></sup>.</p>

<p>Para você, Sócrates,” ele disse, “esta é a história e o argumento que eu contei, sobre como a excelência é um [assunto] ensinável e como os atenienses pensam isso e como não é de modo algum surpreendente que os filhos de homens bons se tornem inconsequentes e os filhos de [pais] inconsequentes se tornem bons, uma vez que os filhos de Policleto, que têm a mesma idade que Paralus e Xanthippus aqui, não são nada comparados ao pai deles, e outros [filhos] de outros artesãos são iguais. Mas não é correto acusar esses [rapazes]<sup><a id="fnr.21" class="footref" href="#fn.21" rel="nofollow">21</a></sup>. [328d] Você vê, ainda há esperanças neles; você vê, eles são jovens.</p>

<p><div id="footnotes">        <h3 class="footnotes">Notas de Rodapé</h3>        <div id="text-footnotes">            <div class="footdef"><sup><a id="fn.1" class="footnum" href="#fnr.1" rel="nofollow">1</a></sup> <p class="footpara">Os nomes são significativos: Prometeu significa “compreensão antecipada”; Epimeteu significa “compreensão tardia”.</p></div>            <div class="footdef"><sup><a id="fn.2" class="footnum" href="#fnr.2" rel="nofollow">2</a></sup> <p class="footpara">Toda esta frase é obscura. Talvez Protágoras esteja falando sobre as camas ou os locais de dormir dos animais que não têm “um colchão de pelagem.” Aqueles que se escondem sob suas armas seriam animais como os porcos-espinhos, que dormem sob seus espinhos; aqueles que são providos de pele espessa seriam animais como elefantes ou vacas; aqueles que são dotados de partes sem sangue seriam animais como caracóis ou tartarugas. Uma tradução alternativa poderia ser “vestindo alguns com armas, outros com peles espessas e sem sangue.” Esses seriam animais que usam seus pés como armas e como meio de locomoção. Talvez, neste caso, as peles espessas e sem sangue se refiram a cascos.</p></div>  <div class="footdef"><sup><a id="fn.3" class="footnum" href="#fnr.3" rel="nofollow">3</a></sup> <p class="footpara">Heródoto faz praticamente a mesma observação (3.108).</p></div>    <div class="footdef"><sup><a id="fn.4" class="footnum" href="#fnr.4" rel="nofollow">4</a></sup> <p class="footpara">Ficar sem saber o que fazer se refere aqui ao estado de aporia.</p></div>  <div class="footdef"><sup><a id="fn.5" class="footnum" href="#fnr.5" rel="nofollow">5</a></sup> <p class="footpara">Isso provavelmente se refere à capacidade de raciocinar.</p></div> <div class="footdef"><sup><a id="fn.6" class="footnum" href="#fnr.6" rel="nofollow">6</a></sup> <p class="footpara">Aidós (Αἰδώς): reverência, temor, respeito pelo sentimento ou opinião dos outros ou pela própria consciência, vergonha, autorrespeito, senso de honra, sobriedade, consideração pelos outros, especialmente os desamparados, compaixão. Na mitologia grega, Aedos ou Aesquine era uma Daemon, a personificação da vergonha, da humildade e do pudor, sendo ao mesmo tempo a divindade que representava o sentimento da dignidade humana, tendo como qualidade o respeito ou a vergonha que reprime aos homens do inapropriado. Sua equivalente romana seria Pudor ou Pudicia. Traduzido como “temor reverencial” pois no texto está em algum lugar entre “reverência”, que parece inspirada pela bondade, e “medo”, que é uma expectativa de dano.</p></div>   <div class="footdef"><sup><a id="fn.7" class="footnum" href="#fnr.7" rel="nofollow">7</a></sup> <p class="footpara">Dike (δίκη): Um termo do direito ático que significa, de forma geral, qualquer procedimento legal de uma parte diretamente ou indiretamente contra outras. O objetivo de todas essas ações é proteger o corpo político, ou um ou mais de seus membros individuais, de lesões e agressões. Esta é a nossa tradução de dike, que, embora às vezes seja traduzida como “justiça”, de forma mais geral significa “processo judicial”, “ação legal” e até mesmo “pena atribuída”, e, portanto, tem uma associação com um processo ou sensibilidade legal. É análoga ao nosso termo “temor reverencial” e combina um senso do que é certo com um medo de sofrer uma penalidade.</p></div>    <div class="footdef"><sup><a id="fn.8" class="footnum" href="#fnr.8" rel="nofollow">8</a></sup> <p class="footpara">Talvez na frase de Protágoras tenhamos uma lista dos componentes do artesanato político. A ordem e a amizade são as bases da vida social. Essas opiniões são muito antigas. Em Heródoto, Deioces é o fundador da realeza porque mantém sua sociedade, a Média, longe da anarquia. Os antigos argumentos sobre o fortalecimento da cidade incluem o aumento do número de laços (desmoi) entre os indivíduos. O principal argumento moral contra o casamento incestuoso é que ele duplica os laços (o mesmo homem pode ser irmão, tio, primo) em vez de multiplicar os laços entre famílias distintas por meio de casamentos fora da própria família (criando parentes por meio do casamento).</p></div> <div class="footdef"><sup><a id="fn.9" class="footnum" href="#fnr.9" rel="nofollow">9</a></sup> <p class="footpara">Anteriormente, Protágoras havia associado os termos &#39;senso do que é legalmente justo&#39; com &#39;temor reverencial.&#39; Agora, em vez de &#39;senso do que é legal,&#39; ele está usando dikaiosyne, que traduzimos como &#39;prática de justiça,&#39; embora ela, assim como dike (veja a nota 7), também seja frequentemente traduzida simplesmente como &#39;justiça&#39;.</p></div> <div class="footdef"><sup><a id="fn.10" class="footnum" href="#fnr.10" rel="nofollow">10</a></sup> <p class="footpara">Esta é uma visão completamente oposta àquela que Sócrates defende no Górgias, onde ele persuade seu interlocutor Pólis de que um homem deve se denunciar e denunciar seus amigos quando eles estiverem errados e deixar seus inimigos em liberdade (Górgias 480b–481b).</p></div>  <div class="footdef"><sup><a id="fn.11" class="footnum" href="#fnr.11" rel="nofollow">11</a></sup> <p class="footpara">Injustiça e impiedade e, de maneira geral, tudo que é o oposto da excelência que diz respeito aos assuntos da pólis&#39; são entendidos como uma só coisa. Um hendíadis é o recurso pelo qual uma coisa é expressa por duas palavras (por exemplo, &#39;força e vigor&#39;). Há um debate sobre se uma ideia ou várias ideias distintas são pretendidas aqui. Em Platão, há a questão recorrente de se a virtude é uma coisa só e se todas as aparentemente várias virtudes se reduzem a uma única virtude. A linguagem que Platão aqui dá a seu personagem Protágoras parece deliberadamente provocativa, já que Protágoras diz que uma das qualidades ruins consiste em partes, uma delas extremamente grande (&#39;de maneira geral, tudo que é o oposto da excelência que diz respeito aos assuntos da pólis&#39;).</p></div>  <div class="footdef"><sup><a id="fn.12" class="footnum" href="#fnr.12" rel="nofollow">12</a></sup> <p class="footpara">Platão faz com que Protágoras se esqueça do pensamento que começaria com &#39;por outro lado.&#39; Protágoras nunca retoma as consequências de não haver uma excelência humana básica e se perde em um argumento divagante.</p></div>  <div class="footdef"><sup><a id="fn.13" class="footnum" href="#fnr.13" rel="nofollow">13</a></sup> <p class="footpara">Protágoras está fazendo um argumento a fortiori, argumentando &#39;a partir do que é mais forte.&#39; Por exemplo, se uma pessoa pode levantar cinquenta libras (o que requer maior força), ela certamente pode levantar dez libras. Sem dúvida, este é um dos tipos de argumento que Protágoras ensinou.</p></div>    <div class="footdef"><sup><a id="fn.14" class="footnum" href="#fnr.14" rel="nofollow">14</a></sup> <p class="footpara">Um pedagogo era o escravo que acompanhava um menino à escola e de volta para casa.</p></div>   <div class="footdef"><sup><a id="fn.15" class="footnum" href="#fnr.15" rel="nofollow">15</a></sup> <p class="footpara">Na República, Sócrates discute extensivamente o papel da música na educação dos guardiões. A música, segundo Sócrates, tem o poder de agir diretamente sobre as paixões, até contra e sem a razão. O uso da música, juntamente com a ginástica, serve para refinar a alma adequadamente — tornar a alma mais dura ou mais suave conforme necessário — para preparar os guardiões para o cumprimento de sua responsabilidade política (liderar sua sociedade em tempos de paz e guerra) e, ainda mais, para o cumprimento de sua responsabilidade intelectual (buscar a verdade do ser). Veja, por exemplo, República 410a–412a.</p></div>  <div class="footdef"><sup><a id="fn.16" class="footnum" href="#fnr.16" rel="nofollow">16</a></sup> <p class="footpara">Protágoras parece aqui antecipar o argumento de que corpos saudáveis podem ser usados para o bem ou para o mal. No Górgias, o personagem Górgias diz que a retórica não deve ser acusada se for usada de forma errada, um argumento repetido mais tarde por Isócrates (Antídose 252) e Aristóteles (Retórica 1355b3–7). Aqui, Protágoras afirma que corpos saudáveis são úteis para servir pensamentos saudáveis, e ele não convida a possibilidade de serem úteis para más ações.</p></div>   <div class="footdef"><sup><a id="fn.17" class="footnum" href="#fnr.17" rel="nofollow">17</a></sup> <p class="footpara">Este é o argumento de Sócrates na Apologia (25c–26a), onde ele afirma que nunca intencionalmente prejudicaria outra pessoa porque tornaria a sociedade pior e, portanto, como membro da sociedade, tornaria sua própria vida pior. Todo criminoso, é claro, poderia usar o mesmo argumento. O problema com o argumento surge da suposição de que as pessoas estão sempre agindo racionalmente ou sem erro nos pressupostos.</p></div>  <div class="footdef"><sup><a id="fn.18" class="footnum" href="#fnr.18" rel="nofollow">18</a></sup> <p class="footpara">Em 421–420 a.C.E., o dramaturgo cômico Pherecrates produziu Os Homens Selvagens, que sobrevive em muito poucos fragmentos. Hermann Sauppe sugere que os &#39;homens selvagens&#39; se assemelhavam aos ciclopes de Homero em sua barbaridade. Pouco se sabe sobre Pherecrates, que se diz ter vencido sua primeira competição em 438 e ter composto vinte e uma comédias. O que parece claro é que a peça abordou, em forma cômica, o debate sobre natureza e convenção, mostrando mais uma vez que a comédia, como os diálogos de Platão — e como a nossa comédia contemporânea — se sentia à vontade para zombar de debates intelectuais.</p></div>  <div class="footdef"><sup><a id="fn.19" class="footnum" href="#fnr.19" rel="nofollow">19</a></sup> <p class="footpara">Segundo a Suída, uma compilação do século X d.C. de coleções anteriores de dados, a única fonte de informação sobre esses homens, Eurybatos era um homem perverso que foi enviado por Crésus com dinheiro em uma embaixada e traiu Crésus, indo para Ciro, o inimigo de Crésus. Phrynondas era um indivíduo igualmente perverso.</p></div> <div class="footdef"><sup><a id="fn.20" class="footnum" href="#fnr.20" rel="nofollow">20</a></sup> <p class="footpara">Aristóteles, na Ética a Nicômaco (1164a25), parece confirmar o método de pagamento de Protágoras, mas é, claro, possível que Aristóteles tenha aprendido isso do diálogo presente. Aristóteles cita Hesíodo como tendo estabelecido a prática. Em Os Trabalhos e os Dias (370), Hesíodo cantou: &#39;Que o salário seja suficiente&#39;.</p></div> <div class="footdef"><sup><a id="fn.21" class="footnum" href="#fnr.21" rel="nofollow">21</a></sup> <p class="footpara">Para a audiência de Platão, se as histórias contadas por Plutarco (Vida de Péricles 36) já eram conhecidas, essas palavras estariam cheias de ironia dramática. Xanthippus, segundo Plutarco, o filho legítimo mais velho de Péricles, casou-se com uma esposa jovem e gastadora, e se ressentiu amargamente dos modos avarentos de seu pai. Assim, ele pegou emprestado dinheiro de um dos amigos de seu pai, alegando falsamente que estava fazendo isso a pedido de Péricles. Quando Péricles não apenas se recusou a pagar o homem de volta, mas o processou, Xanthippus ficou furioso e começou a denegrir seu pai, acusando-o de indiscrições com a esposa de Xanthippus e afirmando que Péricles desperdiçou seu tempo discutindo com Protágoras sobre se um homem morto por um lançamento acidental de uma lança foi morto pelo lançador ou pela lança. Xanthippus e seu pai nunca reconciliaram sua briga, e Xanthippus morreu na praga pouco antes de seu pai. Plutarco também relata que, quando o único filho sobrevivente de Péricles, Paralus, morreu, Péricles, embora normalmente não chorasse nos funerais de seus parentes mais próximos, durante o funeral de Paralus rompeu em um choro descontrolado pela primeira vez em sua vida. Assim, o Protágoras de Platão termina seu discurso, então, com uma nota de triste ironia.</p></div>      </div>    </div>
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<p><a href="/sirius/tag:Filosofia" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Filosofia</span></a> <a href="/sirius/tag:Prot%C3%A1goras" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Protágoras</span></a> <a href="/sirius/tag:Plat%C3%A3o" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Platão</span></a> <a href="/sirius/tag:Prometheus" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Prometheus</span></a> <a href="/sirius/tag:Socrates" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Socrates</span></a></p>
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      <guid>https://infosec.press/sirius/protagoras-mito-de-prometeu-e-epimeteu-mjk3</guid>
      <pubDate>Sun, 26 Jan 2025 20:53:23 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Diodoro da Sicília: os primeiros homens</title>
      <link>https://infosec.press/sirius/diodoro-da-sicilia-os-primeiros-homens</link>
      <description>&lt;![CDATA[Prometheus&#xA;!--more--&#xA;O historiador grego do século I a.C., Diodoro, é considerado um compilador de fontes antigas, dentre elas alguns dos ensinamentos de Demócrito de Abdera. Em sua obra, Biblioteca de História (Tomo I, Capítulo 8), encontramos um relato da origem dos seres vivos e dos primeiros homens, que são atribuídos aos ensinamentos de Demócrito por especialistas como Diels, Vlastos, Reinhardt e Beresford. Dando início a meus estudos sobre Protágoras que, como discípulo de Demócrito, compartilhava com ele algumas concepções naturalistas e humanistas, apresento uma tradução do relato da pré-história de Diodoro.&#xA;&#xA;Felizmente a obra Biblioteca de História, de Diodoro, foi disponibilizada em inglês pela Universidade de Chicago nesse site.&#xA;&#xA;Transcrevo a seguir o relato dos primeiros homens de Diodoro, como texto inicial para o estudo da conexão do pensamento de Demócrito com o de Protágoras (inclusive as semelhanças e diferenças com o mito de Prometeu e Epimeteu, atribuído a Protágoras no diálogo homônimo, de Platão):&#xA;&#xA;Relato da pré-história de Diodoro&#xA;&#xA;(…) os primeiros homens a nascer (…) levavam uma vida indisciplinada e bestial, saindo um a um para garantir sua subsistência e alimentando-se tanto das ervas mais tenras quanto dos frutos das árvores selvagens. Então, como foram atacados pelas feras, vieram em auxílio uns dos outros, sendo instruídos pela necessidade, e, quando se reuniram dessa maneira devido ao medo, gradualmente começaram a reconhecer suas características mútuas. E embora os sons que produziam fossem no início incompreensíveis e indistintos, aos poucos conseguiram articular sua fala, e, ao concordar entre si sobre símbolos para cada coisa que se apresentava a eles, tornaram conhecido entre si o significado que deveria ser atribuído a cada termo. Mas, como grupos desse tipo surgiram por todas as partes do mundo habitado, nem todos os homens tinham a mesma linguagem, uma vez que cada grupo organizou os elementos de sua fala por mero acaso. Esta é a explicação da existência atual de todos os tipos concebíveis de linguagem e, além disso, a partir desses primeiros grupos formados surgiram todas as nações originais do mundo.&#xA; &#xA;Agora, os primeiros homens, uma vez que nenhuma das coisas úteis para a vida havia sido descoberta ainda, levavam uma existência miserável, não tendo roupas para se cobrir, não sabendo o uso de habitações e fogo, e também sendo totalmente ignorantes de alimentos cultivados. Pois como também negligenciaram até mesmo a colheita dos alimentos selvagens, não acumularam nenhum estoque de seus frutos contra suas necessidades; consequentemente, um grande número deles pereceu nos invernos devido ao frio e à falta de alimentos. Pouco a pouco, no entanto, a experiência os ensinou tanto a buscar as cavernas no inverno quanto a armazenar os frutos que podiam ser preservados. E quando se familiarizaram com o fogo e outras coisas úteis, as artes também e tudo o que é capaz de promover a vida social do homem foram gradualmente descobertos. De fato, falando de modo geral, em todas as coisas foi a própria necessidade que se tornou a professora do homem, fornecendo de maneira apropriada instrução em todos os assuntos a uma criatura que foi bem dotada pela natureza e que tinha, como assistentes para todos os propósitos, mãos, logos (razão) e anchinoia (sagacidade mental).&#xA;&#xA;E no que diz respeito à primeira origem dos homens e seu modo de vida mais primitivo, nos contentaremos com o que foi dito, uma vez que desejamos manter a devida proporção em nosso relato.&#xA;&#xA;#Filosofia #Demócrito #Protágoras]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/37/Roman_fresco_depicting_Prometheus_creating_man_in_the_presence_of_Athena%2C_from_the_arcosolium_of_a_tomb_near_the_Basilica_of_St._Paul%2C_3rd_century_AD%2C_Museo_della_Via_Ostiense%2C_Rome_-_31140766536.jpg/2560px-thumbnail.jpg" alt="Prometheus">

O historiador grego do século I a.C., Diodoro, é considerado um compilador de fontes antigas, dentre elas alguns dos ensinamentos de Demócrito de Abdera. Em sua obra, Biblioteca de História (Tomo I, Capítulo 8), encontramos um relato da origem dos seres vivos e dos primeiros homens, que são atribuídos aos ensinamentos de Demócrito por especialistas como Diels, Vlastos, Reinhardt e Beresford. Dando início a meus estudos sobre Protágoras que, como discípulo de Demócrito, compartilhava com ele algumas concepções naturalistas e humanistas, apresento uma tradução do relato da pré-história de Diodoro.</p>

<p>Felizmente a obra <strong>Biblioteca de História</strong>, de Diodoro, foi disponibilizada em inglês pela Universidade de Chicago nesse <a href="https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Diodorus_Siculus/home.html" rel="nofollow">site</a>.</p>

<p>Transcrevo a seguir o relato dos primeiros homens de Diodoro, como texto inicial para o estudo da conexão do pensamento de Demócrito com o de Protágoras (inclusive as semelhanças e diferenças com o mito de Prometeu e Epimeteu, atribuído a Protágoras no diálogo homônimo, de Platão):</p>

<h3 id="relato-da-pré-história-de-diodoro">Relato da pré-história de Diodoro</h3>

<p>(…) os primeiros homens a nascer (…) levavam uma vida indisciplinada e bestial, saindo um a um para garantir sua subsistência e alimentando-se tanto das ervas mais tenras quanto dos frutos das árvores selvagens. Então, como foram atacados pelas feras, vieram em auxílio uns dos outros, sendo instruídos pela necessidade, e, quando se reuniram dessa maneira devido ao medo, gradualmente começaram a reconhecer suas características mútuas. E embora os sons que produziam fossem no início incompreensíveis e indistintos, aos poucos conseguiram articular sua fala, e, ao concordar entre si sobre símbolos para cada coisa que se apresentava a eles, tornaram conhecido entre si o significado que deveria ser atribuído a cada termo. Mas, como grupos desse tipo surgiram por todas as partes do mundo habitado, nem todos os homens tinham a mesma linguagem, uma vez que cada grupo organizou os elementos de sua fala por mero acaso. Esta é a explicação da existência atual de todos os tipos concebíveis de linguagem e, além disso, a partir desses primeiros grupos formados surgiram todas as nações originais do mundo.</p>

<p>Agora, os primeiros homens, uma vez que nenhuma das coisas úteis para a vida havia sido descoberta ainda, levavam uma existência miserável, não tendo roupas para se cobrir, não sabendo o uso de habitações e fogo, e também sendo totalmente ignorantes de alimentos cultivados. Pois como também negligenciaram até mesmo a colheita dos alimentos selvagens, não acumularam nenhum estoque de seus frutos contra suas necessidades; consequentemente, um grande número deles pereceu nos invernos devido ao frio e à falta de alimentos. Pouco a pouco, no entanto, a experiência os ensinou tanto a buscar as cavernas no inverno quanto a armazenar os frutos que podiam ser preservados. E quando se familiarizaram com o fogo e outras coisas úteis, as artes também e tudo o que é capaz de promover a vida social do homem foram gradualmente descobertos. De fato, falando de modo geral, em todas as coisas foi a própria necessidade que se tornou a professora do homem, fornecendo de maneira apropriada instrução em todos os assuntos a uma criatura que foi bem dotada pela natureza e que tinha, como assistentes para todos os propósitos, mãos, <em>logos</em> (razão) e <em>anchinoia</em> (sagacidade mental).</p>

<p>E no que diz respeito à primeira origem dos homens e seu modo de vida mais primitivo, nos contentaremos com o que foi dito, uma vez que desejamos manter a devida proporção em nosso relato.</p>

<p><a href="/sirius/tag:Filosofia" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Filosofia</span></a> <a href="/sirius/tag:Dem%C3%B3crito" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Demócrito</span></a> <a href="/sirius/tag:Prot%C3%A1goras" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Protágoras</span></a></p>
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      <guid>https://infosec.press/sirius/diodoro-da-sicilia-os-primeiros-homens</guid>
      <pubDate>Wed, 20 Nov 2024 09:31:44 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Hashtags no Mastodon</title>
      <link>https://infosec.press/sirius/hashtags-no-mastodon</link>
      <description>&lt;![CDATA[Para quem inicia no Mastodon aqui vão algumas explicações sobre a importância que as hashtags possuem.&#xA;&#xA;Imagem de hashtags&#xA;!--more--&#xA;A hashtag é uma palavra ou frase que, uma vez precedida pelo símbolo de cerquilha (#), sem espaços, transforma-se em uma etiqueta ou rótulo, na forma de um hiperlink que leva para uma página com outras publicações relacionadas ao mesmo tema.&#xA;&#xA;No Mastodon, bem como em toda federação ActivityPub, a compreensão de suas funcionalidades é essencial, inclusive por questões de acessibilidade.&#xA;&#xA;Barra de pesquisa do Mastodon&#xA;&#xA;Por motivos técnicos de privacidade o Mastodon foi inicialmente desenhado para permitir apenas as seguintes formas de busca:&#xA;&#xA;Por hashtags (#exemplo);&#xA;Pessoas (@nomedousuário@domínio);&#xA;URL (links) de perfis e de posts;&#xA;&#xA;Atualmente o mastodon permite a busca por texto simples, mas para que as postagens dos usuários se tornem visíveis é necessário que optem por isso (então se você quer que o texto de suas postagens públicas sejam vistos na busca, acesse as configurações de sua conta e marque para permitir essa opção).&#xA;&#xA;A pesquisa por hashtags é precisa e abrange todas as pessoas de instâncias federadas à sua, independentemente de você seguir a pessoa ou não, e sem a influência de qualquer algoritmo. &#xA;&#xA;Note também que você pode seguir uma hashtag, caso seja um assunto do seu interesse, clicando no botão destacado acima. Quando você segue uma hashtag, todas as postagens das pessoas pertencentes à sua instância ou das instâncias federadas à sua, independentemente ou não de você segui-las, que contenham essa hashtag, serão exibidas na sua página inicial.&#xA;&#xA;Usando Hashtags e Noções de Respeito&#xA;&#xA;As hashtags, portanto, devem ter um # no início e não podem ter alguns caracteres especiais no início e no meio (ponto, espaço, arroba, asterisco, etc.). &#xA;&#xA;O sistema de hashtags atualmente não diferencia a acentuação e alguns caracteres especiais que são permitidos, como o (ç), por exemplo, de modo que as hashtags #política e #politica (sem acento no i) ou #paçoca e #pacoca, são unificadas pela busca da plataforma.&#xA;&#xA;Se você deseja pesquisar uma frase, digite tudo como uma palavra, como #CatsOfMastodon. &#xA;&#xA;Se você deseja que sua postagem seja encontrada com mais facilidade nas pesquisas, inclua muitas hashtags relevantes. Não há problema em usar muitas dessas etiquetas, as pessoas entendem que são necessárias nesse tipo de sistema de busca. &#xA;&#xA;Ademais, o uso das Hashtags devem respeitar uma relevante questão de acessibilidade. Existem muitos usuários cegos no Mastodon e no Fediverso que usam leitores de tela para converter texto em áudio.&#xA;&#xA;Portanto, ao postar hashtags, existe uma formatação correta, que consiste no uso do método chamado de CamelCase (onde cada palavra começa com uma letra maiúscula), por exemplo #CatsOfMastodon em vez de #catsofmastodon. As letras maiúsculas permitem que os aplicativos de leitura de tela separem as palavras corretamente e leiam a hashtag em voz alta corretamente.&#xA;&#xA;Aliás, é importante mencionar uma hashtag super relevante do universo Mastodon, a famosa #Alt4Me. &#xA;&#xA;Quando uma imagem de uma postagem não possui descrição e há a hashtag #Alt4Me adicionada a ela pela pessoa que a postou, isso pode significar que o autor da postagem não consegue adicionar uma descrição (por exemplo, devido a uma deficiência), mas esteja ciente de que é necessário, então ele adicionou a etiqueta preventivamente. &#xA;&#xA;A hashtag #Alt4Me geralmente significa que uma pessoa cega quer que você escreva uma descrição da imagem. Responda à postagem com a hashtag e forneça a descrição. &#xA;&#xA;Note que a sistemática de hashtags não faz distinção se as palavras estão em caixa alta ou caixa baixa, portanto, #CatsOfMastodon ou #catsofmastodon são exatamente a mesma coisa para fins de pesquisa, de modo que o único diferencial em seguir o &#34;CamelCase&#34; está em propiciar um ambiente mais acessível às pessoas cegas, que deve ser respeitado.&#xA;&#xA;Hashtags e filtros&#xA;&#xA;Outra funcionalidade importante das hashtags é que elas permitem às pessoas que não querem ver postagens relacionadas a determinado assunto ou tema, que utilizem um filtro cuja função é tornar esses posts invisíveis, sem a necessidade de silenciar, bloquear ou deixar de seguir um usuário.&#xA;&#xA;Ao utilizar o Mastodon é muito importante que você compreenda que se trata de uma rede social que recebe e acolhe pessoas que vieram de outras redes sociais, de propriedade capitalista, buscando um ambiente menos tóxico.&#xA;&#xA;Sendo assim, existem temas que devem ser rotulados pelas hashtags não só para facilitar que pessoas interessadas os encontrem, mas também para permitir que pessoas que se incomodam com eles os filtrem.&#xA;&#xA;Vamos usar como exemplo o caso do futebol. Eu adoro o esporte, tenho meu time de coração (Flamengo) mas convenhamos  que há pessoas que não veem a menor graça e, ademais, existe uma &#34;cultura do futebol&#34; em nosso País, que é extremamente problemática, incluindo violência entre torcidas, machismo, homofobia e racismo.&#xA;&#xA;Não custa nada, portanto, incluir a hashtag #futebol em suas postagens sobre o tema, ou outras em temas sensíveis, como #PolíticaPartidária. &#xA;&#xA;Evidentemente você também tem a ferramenta dos avisos de conteúdo, mas acho a hashtag mais eficiente, pelo fato de permitir que os interessados encontrem a postagem, bem como os desinteressados a tornem completamente invisível sem sequer a necessidade de ler o aviso de conteúdo sobre o tema.&#xA;&#xA;Aqui explico, portanto, como filtrar as hashtags.&#xA;&#xA;No menu lateral vá em Preferências   Filtros e depois clique em Adicionar Filtro. Abrirá a seguinte tela:&#xA;&#xA;Aba de filtros no Mastodon&#xA;&#xA;O título do filtro, indicado pela seta vermelha, como o nome diz, é apenas um título, para te ajudar a encontrar o filtro em sua lista de filtros.&#xA;&#xA;A seta verde indica o tempo de validade do filtro (que pode ser permanente, como visto no exemplo). Às vezes você não se importa em visualizar algo sobre futebol ou política, mas durante os jogos ou durante o período eleitoral, você não quer ser inundado de postagens sobre o tema, de modo que pode criar um filtro com duração provisória.&#xA;&#xA;Em &#34;Contextos do filtro&#34; (retângulo rosa) você escolhe onde o filtro vai exercer sua função de ocultar mensagens, no exemplo dado marquei a opção de ocultar as postagens da página inicial e das linhas públicas, mas você pode fazer uma filtragem mais severa, se preferir, filtrando perfis de usuário e conversas.&#xA;&#xA;Em &#34;Filter action&#34; você pode escolher se a postagem filtrada vai ser indicada para você com um aviso ou se ela desaparecerá completamente sem qualquer notificação, como se a postagem jamais tivesse existido.&#xA;&#xA;Em &#34;Palavra-chave ou frase&#34;, indicado pela seta amarela na parte de baixo, você digita a hashtag que quer filtrar.&#xA;&#xA;Após Salvar Novo Filtro, conforme o botão indicado pela seta azul, você não irá visualizar qualquer postagem em sua linha do tempo ou nas linhas públicas que contenham a hashtag selecionada (no caso do nosso exemplo: #futebol).&#xA;&#xA;Você pode adicionar quantos filtros desejar.&#xA;&#xA;Essas eram as minhas considerações a respeito das hashtags. Espero que aproveitem bastante e criem muitas hashtags interessantes no universo brasileiro do Mastodon.&#xA;&#xA;#Hashtag #MastoDicas #Mastodon #Tutorial]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Para quem inicia no Mastodon aqui vão algumas explicações sobre a importância que as hashtags possuem.</p>

<p><img src="https://s3.metapixl.com/metapixl-media/public/m/_v2/601929212388709068/c51ea9690-856390/c8jjvcBKn9Am/I1ovkvOVBWC3wyooNNhvoGB2vQbnJVQFkDuwDwuj.jpg" alt="Imagem de hashtags">

A hashtag é uma palavra ou frase que, uma vez precedida pelo símbolo de cerquilha (#), sem espaços, transforma-se em uma etiqueta ou rótulo, na forma de um hiperlink que leva para uma página com outras publicações relacionadas ao mesmo tema.</p>

<p>No Mastodon, bem como em toda federação ActivityPub, a compreensão de suas funcionalidades é essencial, inclusive por questões de acessibilidade.</p>

<h3 id="barra-de-pesquisa-do-mastodon">Barra de pesquisa do Mastodon</h3>

<p>Por motivos técnicos de privacidade o Mastodon foi inicialmente desenhado para permitir apenas as seguintes formas de busca:</p>
<ol><li>Por hashtags (<a href="/sirius/tag:exemplo" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">exemplo</span></a>);</li>
<li>Pessoas (@nomedousuário@domínio);</li>
<li>URL (links) de perfis e de posts;</li></ol>

<p>Atualmente o mastodon permite a busca por texto simples, mas para que as postagens dos usuários se tornem visíveis é necessário que optem por isso (então se você quer que o texto de suas postagens públicas sejam vistos na busca, acesse as configurações de sua conta e marque para permitir essa opção).</p>

<p>A pesquisa por hashtags é precisa e abrange todas as pessoas de instâncias federadas à sua, independentemente de você seguir a pessoa ou não, e sem a influência de qualquer algoritmo.</p>

<p>Note também que <strong>você pode seguir uma hashtag</strong>, caso seja um assunto do seu interesse, clicando no botão destacado acima. Quando você segue uma hashtag, todas as postagens das pessoas pertencentes à sua instância ou das instâncias federadas à sua, independentemente ou não de você segui-las, que contenham essa hashtag, serão exibidas na sua página inicial.</p>

<h3 id="usando-hashtags-e-noções-de-respeito">Usando Hashtags e Noções de Respeito</h3>

<p>As hashtags, portanto, devem ter um # no início e não podem ter alguns caracteres especiais no início e no meio (ponto, espaço, arroba, asterisco, etc.).</p>

<p>O sistema de hashtags atualmente não diferencia a acentuação e alguns caracteres especiais que são permitidos, como o (ç), por exemplo, de modo que as hashtags <a href="/sirius/tag:pol%C3%ADtica" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">política</span></a> e <a href="/sirius/tag:politica" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">politica</span></a> (sem acento no i) ou <a href="/sirius/tag:pa%C3%A7oca" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">paçoca</span></a> e <a href="/sirius/tag:pacoca" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">pacoca</span></a>, são unificadas pela busca da plataforma.</p>

<p>Se você deseja pesquisar uma frase, digite tudo como uma palavra, como <a href="/sirius/tag:CatsOfMastodon" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">CatsOfMastodon</span></a>.</p>

<p><strong>Se você deseja que sua postagem seja encontrada com mais facilidade nas pesquisas, inclua muitas hashtags relevantes</strong>. Não há problema em usar muitas dessas etiquetas, as pessoas entendem que são necessárias nesse tipo de sistema de busca.</p>

<p>Ademais, o uso das Hashtags devem respeitar uma relevante questão <strong>de acessibilidade</strong>. Existem muitos usuários cegos no Mastodon e no Fediverso que usam <strong>leitores de tela para converter texto em áudio</strong>.</p>

<p>Portanto, ao postar hashtags, existe uma formatação correta, que consiste no uso do método chamado de CamelCase (onde cada palavra começa com uma letra maiúscula), por exemplo <a href="/sirius/tag:CatsOfMastodon" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">CatsOfMastodon</span></a> em vez de <a href="/sirius/tag:catsofmastodon" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">catsofmastodon</span></a>. <strong>As letras maiúsculas permitem que os aplicativos de leitura de tela separem as palavras corretamente e leiam a hashtag em voz alta corretamente</strong>.</p>

<p>Aliás, é importante mencionar uma hashtag super relevante do universo Mastodon, a famosa <strong><a href="/sirius/tag:Alt4Me" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Alt4Me</span></a></strong>.</p>

<p>Quando uma imagem de uma postagem não possui descrição e há a hashtag <a href="/sirius/tag:Alt4Me" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Alt4Me</span></a> adicionada a ela pela pessoa que a postou, isso pode significar que o autor da postagem não consegue adicionar uma descrição (por exemplo, devido a uma deficiência), mas esteja ciente de que é necessário, então ele adicionou a etiqueta preventivamente.</p>

<p>A hashtag <a href="/sirius/tag:Alt4Me" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Alt4Me</span></a> geralmente significa que uma pessoa cega quer que você escreva uma descrição da imagem. Responda à postagem com a hashtag e forneça a descrição.</p>

<p>Note que a sistemática de hashtags não faz distinção se as palavras estão em caixa alta ou caixa baixa, portanto, <a href="/sirius/tag:CatsOfMastodon" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">CatsOfMastodon</span></a> ou <a href="/sirius/tag:catsofmastodon" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">catsofmastodon</span></a> são exatamente a mesma coisa para fins de pesquisa, de modo que o único diferencial em seguir o “CamelCase” está em propiciar um ambiente mais acessível às pessoas cegas, que deve ser respeitado.</p>

<h3 id="hashtags-e-filtros">Hashtags e filtros</h3>

<p>Outra funcionalidade importante das hashtags é que elas permitem às pessoas que não querem ver postagens relacionadas a determinado assunto ou tema, que utilizem um filtro cuja função é tornar esses posts invisíveis, sem a necessidade de silenciar, bloquear ou deixar de seguir um usuário.</p>

<p>Ao utilizar o Mastodon é muito importante que você compreenda que se trata de uma rede social que recebe e acolhe pessoas que vieram de outras redes sociais, de propriedade capitalista, buscando um ambiente menos tóxico.</p>

<p>Sendo assim, existem temas que devem ser rotulados pelas hashtags não só para facilitar que pessoas interessadas os encontrem, mas também para permitir que pessoas que se incomodam com eles os filtrem.</p>

<p>Vamos usar como exemplo o caso do futebol. Eu adoro o esporte, tenho meu time de coração (Flamengo) mas convenhamos  que há pessoas que não veem a menor graça e, ademais, existe uma “cultura do futebol” em nosso País, que é extremamente problemática, incluindo violência entre torcidas, machismo, homofobia e racismo.</p>

<p>Não custa nada, portanto, incluir a hashtag <a href="/sirius/tag:futebol" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">futebol</span></a> em suas postagens sobre o tema, ou outras em temas sensíveis, como <a href="/sirius/tag:Pol%C3%ADticaPartid%C3%A1ria" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">PolíticaPartidária</span></a>.</p>

<p>Evidentemente você também tem a ferramenta dos avisos de conteúdo, mas acho a hashtag mais eficiente, pelo fato de permitir que os interessados encontrem a postagem, bem como os desinteressados a tornem completamente invisível sem sequer a necessidade de ler o aviso de conteúdo sobre o tema.</p>

<p>Aqui explico, portanto, como filtrar as hashtags.</p>

<p>No menu lateral vá em <strong>Preferências</strong> &gt; <strong>Filtros</strong> e depois clique em <strong>Adicionar Filtro</strong>. Abrirá a seguinte tela:</p>

<p><img src="https://telegra.ph/file/b63e5065e93786bb45924.png" alt="Aba de filtros no Mastodon"></p>

<p>O título do filtro, indicado pela seta vermelha, como o nome diz, é apenas um título, para te ajudar a encontrar o filtro em sua lista de filtros.</p>

<p>A seta verde indica o tempo de validade do filtro (que pode ser permanente, como visto no exemplo). Às vezes você não se importa em visualizar algo sobre futebol ou política, mas durante os jogos ou durante o período eleitoral, você não quer ser inundado de postagens sobre o tema, de modo que pode criar um filtro com duração provisória.</p>

<p>Em “Contextos do filtro” (retângulo rosa) você escolhe onde o filtro vai exercer sua função de ocultar mensagens, no exemplo dado marquei a opção de ocultar as postagens da página inicial e das linhas públicas, mas você pode fazer uma filtragem mais severa, se preferir, filtrando perfis de usuário e conversas.</p>

<p>Em “Filter action” você pode escolher se a postagem filtrada vai ser indicada para você com um aviso ou se ela desaparecerá completamente sem qualquer notificação, como se a postagem jamais tivesse existido.</p>

<p>Em “Palavra-chave ou frase”, indicado pela seta amarela na parte de baixo, você digita a hashtag que quer filtrar.</p>

<p>Após <strong>Salvar Novo Filtro</strong>, conforme o botão indicado pela seta azul, você não irá visualizar qualquer postagem em sua linha do tempo ou nas linhas públicas que contenham a hashtag selecionada (no caso do nosso exemplo: <a href="/sirius/tag:futebol" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">futebol</span></a>).</p>

<p>Você pode adicionar quantos filtros desejar.</p>

<p>Essas eram as minhas considerações a respeito das hashtags. Espero que aproveitem bastante e criem muitas hashtags interessantes no universo brasileiro do Mastodon.</p>

<p><a href="/sirius/tag:Hashtag" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Hashtag</span></a> <a href="/sirius/tag:MastoDicas" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">MastoDicas</span></a> <a href="/sirius/tag:Mastodon" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Mastodon</span></a> <a href="/sirius/tag:Tutorial" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Tutorial</span></a></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://infosec.press/sirius/hashtags-no-mastodon</guid>
      <pubDate>Sun, 15 Sep 2024 21:39:12 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>A Farsa da Ditadura da Maioria</title>
      <link>https://infosec.press/sirius/a-farsa-da-ditadura-da-maioria-jzvr</link>
      <description>&lt;![CDATA[Engendrado por inimigos da democracia, o constructo da &#34;ditadura da maioria&#34; persiste como fundamento de uma sociedade cada vez mais tecnocrata, autoritária e oligárquica. &#xA;&#xA;Pintura do século XIX de Philipp Foltz retratando o político ateniense Péricles fazendo seu famoso discurso fúnebre em frente à Assembleia&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Desde Platão, passando por John Adams, Tocqueville, Stuart Mill, Lord Acton, etc., a democracia é acusada de ser inconsequente e vulnerável, além de oprimir as minorias por meio de uma pretensa tirania das maiorias.&#xA;&#xA;Para começar, precisamos entender a formação da democracia e quais os seus fundamentos. &#xA;&#xA;O consenso historiográfico nos indica que desde a primeira experiência democrática, por volta de 508 a.C., na cidade-estado de Atenas, tal como implantado pelas reformas de Clístenes, havia o sorteio de cidadãos para ocupar cargos governamentais (para exercer funções administrativas e judiciais) e a participação de todos os cidadãos elegíveis em uma assembleia legislativa nas votações ou deliberações que estabeleciam as leis da pólis. &#xA;&#xA;Apesar de a democracia ser &#34;o governo do povo&#34; ela não se confunde com a oclocracia, governo das massas. A primeira relaciona-se à participação dos cidadãos na tomada de decisões e elaboração de leis, a outra à imposição da vontade das multidões sobre a lei.&#xA;&#xA;A democracia pode ser compreendida como uma forma de governo que se opõe à autocracia (poder concentrado nas mãos de um indivíduo, seja um monarca ou tirano) e ao governo de poucos (aristocracia ou oligarquia).&#xA;&#xA;Por ser a antítese de um poder concentrado e autoritário a democracia tem por principal fundamento a liberdade, a oposição à opressão.&#xA;&#xA;A igualdade na democracia não é e nunca foi uma ilusão de que as pessoas sejam substancialmente iguais, mas a afirmação do princípio de que nenhum cidadão é mais ou melhor que os demais, de modo que possa estar autorizado a impor a sua vontade e arbítrio sobre a sociedade.&#xA;&#xA;Importante dar um contexto histórico e ressaltar que por cidadão não se está falando de todas as pessoas, visto que na sociedade ateniense, misógina e escravocrata, não eram considerados cidadãos os escravos e as mulheres, além dos estrangeiros.&#xA;&#xA;Transcrevo aqui alguns trechos do famoso discurso fúnebre em que Péricles foi escolhido pelos cidadãos para falar, tal como narrado por Tucídides, que expressam as características incipientes daquela democracia:&#xA;&#xA;  Vivemos sob uma forma de governo que não se baseia nas instituições de nossos vizinhos, ao contrário, servimos de modelo a alguns ao invés de imitar outros. Seu nome, como tudo dependem não de poucos mas da maioria, é democracia. Nela, enquanto no tocante às leis todos são iguais para a solução de suas divergências privadas, quando se trata de escolher (se é preciso distinguir em qualquer setor), não é o fato de pertencer a uma classe, mas o mérito, que dá acesso aos postos mais honrosos; inversamente, a pobreza não é razão para que alguém, sendo capaz de prestar serviços à cidade, seja impedido de fazê-lo pela obscuridade de sua condição. (...) Ao mesmo tempo que evitamos ofender os outros em nosso convívio privado, em nossa vida pública nos afastamos da ilegalidade principalmente por causa de um temor reverente, pois somos submissos às autoridades e às leis, especialmente àquelas promulgadas para socorrer os oprimidos e às que, embora não escritas, trazem aos transgressores uma desonra visível a todos. (...) Somos amantes da beleza sem extravagâncias e amantes da filosofia sem indolência. Usamos a riqueza mais como uma oportunidade para agir que como um motivo de vanglória; entre nós não há vergonha na pobreza, mas a maior vergonha é não fazer o possível para evitá-la. Ver-se-á em uma mesma pessoa ao mesmo tempo o interesse em atividades privadas e públicas, e em outros entre nós que dão atenção principalmente aos negócios não se verá falta de discernimento em assuntos políticos, pois olhamos o homem alheio às atividades públicas não como alguém que cuida apenas de seus próprios interesses, mas como um inútil; nós, cidadãos atenienses, decidimos as questões públicas por nós mesmos, ou pelo menos nos esforçamos por compreendê-las claramente, na crença de que não é o debate que é empecilho à ação, e sim o fato de não se estar esclarecido pelo debate antes de chegar a hora da ação. Consideramo-nos ainda superiores aos outros homens em outro ponto: somos ousados para agir, mas ao mesmo tempo gostamos de refletir sobre os riscos que pretendemos correr, para outros homens, ao contrário, ousadia significa ignorância e reflexão traz hesitação. Deveriam ser justamente considerados mais corajosos aqueles que, percebendo claramente tanto os sofrimentos quanto as satisfações inerentes a uma ação, nem por isso recuam diante do perigo. (...) nossa cidade, em seu conjunto, é a escola de toda Hélade e, segundo me parece, cada homem entre nós poderia, por sua personalidade própria, mostrar-se autossuficiente nas mais variadas formas de atividade, com a maior elegância e naturalidade. E isto não é mero ufanismo inspirado pela ocasião, mas a verdade real, atestada pela força mesma de nossa cidade, adquirida em consequência dessas qualidades. (...) Já demos muitas provas de nosso poder, e certamente não faltam testemunhos disto; seremos portanto admirados não somente pelos homens de hoje mas também do futuro. Não necessitamos de um Homero para cantar nossas glórias, nem de qualquer outro poeta cujos versos poderão talvez deleitar no momento, mas que verão a sua versão dos fatos desacreditada pela realidade. Compelimos todo o mar e toda a terra a dar passagem à nossa audácia, e em toda parte plantamos monumentos imorredouros dos males e dos bens que fizemos.&#xA;&#xA;Vemos, portanto, que a democracia, ao contrário do afirmado por detratores, não é uma forma social que despreza a filosofia, o conhecimento, o respeito às leis, para a satisfação de desejos irracionais de massas descontroladas. Pelo contrário, exige o debate, a participação ativa e a reflexão de todos os cidadãos. Nas palavras de Péricles, parece mais próxima de um regime social onde há o exercício da racionalidade do que alguma aristocracia em que a deliberação política e a elaboração de leis seja tarefa apenas de alguns poucos sábios.&#xA;&#xA;A democracia vai se desenvolvendo na história com o objetivo de prover a sobrevivência interna e externa do grupo social, incorporando inclusive os ideais do iluminismo, no século XVIII.&#xA;&#xA;Rousseu em &#34;O Contrato Social&#34; entendia a democracia como regime ideal, que consistia no seguinte:&#xA;&#xA;  (...) uma forma de associação que defenda e proteja qualquer membro a ela pertencente e na qual o indivíduo, mesmo se unindo a todos os outros, obedeça apenas a si mesmo e permaneça livre.&#xA;&#xA;Assim, a democracia possui um caráter legalista. Nela, as regras, ou leis, determinam os procedimentos para a tomada de decisões que vinculam o conjunto dos membros.&#xA;&#xA;Existe o reconhecimento da pluralidade, de modo que da maioria se presume uma ou mais minorias, igualmente protegidas, com liberdades individuais inalienáveis&#xA;&#xA;Norberto Bobbio aponta o seguinte: &#xA;&#xA;  Estado liberal e Estado democrático são interdependentes em dois modos: na direção que vai do liberalismo à democracia, no sentido de que são necessárias certas liberdades para o exercício correto do poder democrático, e na direção oposta que vai da democracia ao liberalismo, no sentido de que é necessário o poder democrático para garantir a existência e a persistência das liberdades fundamentais.&#xA;&#xA;No caso acima, cabe ressaltar, Bobbio se refere ao liberalismo político (liberdades individuais: vida, opinião, expressão, associação, reunião, etc.) o que se difere, por exemplo, das ideias do liberalismo econômico (laissez faire) extremado defendido por ancaps e neoliberais (apenas para esclarecer).&#xA;&#xA;Portanto, como a democracia significa a oposição a todas as formas de governo autoritário e tem por base a liberdade e a pluralidade, ela necessariamente resguarda as liberdades individuais, não sendo possível que contra as regras do jogo democrático seja possível utilizar uma pretensa ditadura da maioria para agredir as liberdades das minorias.&#xA;&#xA;Quando vemos um líder que foi eleito e autorizado pelas próprias regras democráticas a presidir um país (vocês devem ter em mente um exemplo recente), dizendo que “As minorias têm que se curvar para as maiorias” ele não está defendendo uma regra democrática, está se arvorando de uma autoridade que não possui (porque contraria a Constituição democrática à qual está submetido, onde se assegura liberdades individuais às minorias) e buscando ter um poder em contrariedade à lei, contra as regras democráticas portanto, buscando respaldo nas massas, como se fosse um tirano empossado por uma oclocracia.&#xA;&#xA;A democracia não permite que um tirano se julgue detentor do poder das massas e aja em contrariedade à liberdade dos indivíduos e minorias, principalmente em uma democracia direta. &#xA;&#xA;Na democracia as leis funcionam como um elemento que restringe o poder de autoridades estatais onde são erigidas instituições que atuam na guarda das liberdades elementares dos cidadãos.&#xA;&#xA;Outras características provenientes do fato de a democracia ser a antítese da autocracia é a exigência de transparência e publicidade em suas manifestações, como verdadeiro regime da visibilidade do poder, não comportando o segredo no que se refere às decisões que afetem a coletividade, bem como seu caráter anti elitista até no que concerne às decisões técnicas.&#xA;&#xA;Como bem observou Jacques Rancière, em “O ódio à democracia”, esta não se curva a qualquer autoridade, possui um caráter de ceticismo e, porque não, insolência, de modo que mesmo que um regime democrático nos tempos atuais exija uma administração técnica, tal administração não proferirá decisões herméticas: os especialistas precisam submeter os fundamentos de suas decisões técnicas ao escrutínio público, para que a sociedade se informe e eventualmente debata, questione e controle a atuação desses agentes.&#xA;&#xA;Link para comentários.&#xA;&#xA;#Democracia #Política #DitaduraDaMaioria #FilosofiaPolítica]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Engendrado por inimigos da democracia, o constructo da “ditadura da maioria” persiste como fundamento de uma sociedade cada vez mais tecnocrata, autoritária e oligárquica.</p>

<p><img src="https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f1/Discurso_funebre_pericles.PNG" alt="Pintura do século XIX de Philipp Foltz retratando o político ateniense Péricles fazendo seu famoso discurso fúnebre em frente à Assembleia">
</p>

<p>Desde Platão, passando por John Adams, Tocqueville, Stuart Mill, Lord Acton, etc., a democracia é acusada de ser inconsequente e vulnerável, além de oprimir as minorias por meio de uma pretensa tirania das maiorias.</p>

<p>Para começar, precisamos entender a formação da democracia e quais os seus fundamentos.</p>

<p>O consenso historiográfico nos indica que desde a primeira experiência democrática, por volta de 508 a.C., na cidade-estado de Atenas, tal como implantado pelas reformas de Clístenes, havia o <strong>sorteio</strong> de cidadãos para ocupar cargos governamentais (para exercer funções administrativas e judiciais) e a <strong>participação de todos os cidadãos elegíveis</strong> em uma assembleia legislativa nas votações ou deliberações que estabeleciam as leis da pólis.</p>

<p>Apesar de a democracia ser “o governo do povo” ela não se confunde com a oclocracia, governo das massas. A primeira relaciona-se à participação dos cidadãos na tomada de decisões e elaboração de leis, a outra à imposição da vontade das multidões sobre a lei.</p>

<p>A democracia pode ser compreendida como uma forma de governo que se opõe à autocracia (poder concentrado nas mãos de um indivíduo, seja um monarca ou tirano) e ao governo de poucos (aristocracia ou oligarquia).</p>

<p>Por ser a antítese de um poder concentrado e autoritário a democracia tem por principal fundamento a liberdade, a oposição à opressão.</p>

<p>A igualdade na democracia não é e nunca foi uma ilusão de que as pessoas sejam substancialmente iguais, mas a afirmação do princípio de que nenhum cidadão é mais ou melhor que os demais, de modo que possa estar autorizado a impor a sua vontade e arbítrio sobre a sociedade.</p>

<p>Importante dar um contexto histórico e ressaltar que por cidadão não se está falando de todas as pessoas, visto que na sociedade ateniense, misógina e escravocrata, não eram considerados cidadãos os escravos e as mulheres, além dos estrangeiros.</p>

<p>Transcrevo aqui alguns trechos do famoso discurso fúnebre em que Péricles foi escolhido pelos cidadãos para falar, tal como narrado por Tucídides, que expressam as características incipientes daquela democracia:</p>

<blockquote><p>Vivemos sob uma forma de governo que não se baseia nas instituições de nossos vizinhos, ao contrário, servimos de modelo a alguns ao invés de imitar outros. Seu nome, como tudo dependem não de poucos mas da maioria, é democracia. Nela, enquanto no tocante às leis todos são iguais para a solução de suas divergências privadas, quando se trata de escolher (se é preciso distinguir em qualquer setor), não é o fato de pertencer a uma classe, mas o mérito, que dá acesso aos postos mais honrosos; inversamente, a pobreza não é razão para que alguém, sendo capaz de prestar serviços à cidade, seja impedido de fazê-lo pela obscuridade de sua condição. (...) Ao mesmo tempo que evitamos ofender os outros em nosso convívio privado, em nossa vida pública nos afastamos da ilegalidade principalmente por causa de um temor reverente, pois somos submissos às autoridades e às leis, especialmente àquelas promulgadas para socorrer os oprimidos e às que, embora não escritas, trazem aos transgressores uma desonra visível a todos. (...) Somos amantes da beleza sem extravagâncias e amantes da filosofia sem indolência. Usamos a riqueza mais como uma oportunidade para agir que como um motivo de vanglória; entre nós não há vergonha na pobreza, mas a maior vergonha é não fazer o possível para evitá-la. Ver-se-á em uma mesma pessoa ao mesmo tempo o interesse em atividades privadas e públicas, e em outros entre nós que dão atenção principalmente aos negócios não se verá falta de discernimento em assuntos políticos, pois olhamos o homem alheio às atividades públicas não como alguém que cuida apenas de seus próprios interesses, mas como um inútil; nós, cidadãos atenienses, decidimos as questões públicas por nós mesmos, ou pelo menos nos esforçamos por compreendê-las claramente, na crença de que não é o debate que é empecilho à ação, e sim o fato de não se estar esclarecido pelo debate antes de chegar a hora da ação. Consideramo-nos ainda superiores aos outros homens em outro ponto: somos ousados para agir, mas ao mesmo tempo gostamos de refletir sobre os riscos que pretendemos correr, para outros homens, ao contrário, ousadia significa ignorância e reflexão traz hesitação. Deveriam ser justamente considerados mais corajosos aqueles que, percebendo claramente tanto os sofrimentos quanto as satisfações inerentes a uma ação, nem por isso recuam diante do perigo. (...) nossa cidade, em seu conjunto, é a escola de toda Hélade e, segundo me parece, cada homem entre nós poderia, por sua personalidade própria, mostrar-se autossuficiente nas mais variadas formas de atividade, com a maior elegância e naturalidade. E isto não é mero ufanismo inspirado pela ocasião, mas a verdade real, atestada pela força mesma de nossa cidade, adquirida em consequência dessas qualidades. (...) Já demos muitas provas de nosso poder, e certamente não faltam testemunhos disto; seremos portanto admirados não somente pelos homens de hoje mas também do futuro. Não necessitamos de um Homero para cantar nossas glórias, nem de qualquer outro poeta cujos versos poderão talvez deleitar no momento, mas que verão a sua versão dos fatos desacreditada pela realidade. Compelimos todo o mar e toda a terra a dar passagem à nossa audácia, e em toda parte plantamos monumentos imorredouros dos males e dos bens que fizemos.</p></blockquote>

<p>Vemos, portanto, que a democracia, ao contrário do afirmado por detratores, não é uma forma social que despreza a filosofia, o conhecimento, o respeito às leis, para a satisfação de desejos irracionais de massas descontroladas. Pelo contrário, exige o debate, a participação ativa e a reflexão de todos os cidadãos. Nas palavras de Péricles, parece mais próxima de um regime social onde há o exercício da racionalidade do que alguma aristocracia em que a deliberação política e a elaboração de leis seja tarefa apenas de alguns poucos sábios.</p>

<p>A democracia vai se desenvolvendo na história com o objetivo de prover a sobrevivência interna e externa do grupo social, incorporando inclusive os ideais do iluminismo, no século XVIII.</p>

<p>Rousseu em “O Contrato Social” entendia a democracia como regime ideal, que consistia no seguinte:</p>

<blockquote><p>(...) uma forma de associação que defenda e proteja qualquer membro a ela pertencente e na qual o indivíduo, mesmo se unindo a todos os outros, obedeça apenas a si mesmo e permaneça livre.</p></blockquote>

<p>Assim, a democracia possui um caráter legalista. Nela, as regras, ou leis, determinam os procedimentos para a tomada de decisões que vinculam o conjunto dos membros.</p>

<p>Existe o reconhecimento da pluralidade, de modo que da maioria se presume uma ou mais minorias, igualmente protegidas, com liberdades individuais inalienáveis</p>

<p>Norberto Bobbio aponta o seguinte:</p>

<blockquote><p>Estado liberal e Estado democrático são interdependentes em dois modos: na direção que vai do liberalismo à democracia, no sentido de que são necessárias certas liberdades para o exercício correto do poder democrático, e na direção oposta que vai da democracia ao liberalismo, no sentido de que é necessário o poder democrático para garantir a existência e a persistência das liberdades fundamentais.</p></blockquote>

<p>No caso acima, cabe ressaltar, Bobbio se refere ao liberalismo político (liberdades individuais: vida, opinião, expressão, associação, reunião, etc.) o que se difere, por exemplo, das ideias do liberalismo econômico (<em>laissez faire</em>) extremado defendido por ancaps e neoliberais (apenas para esclarecer).</p>

<p>Portanto, como a democracia significa a oposição a todas as formas de governo autoritário e tem por base a liberdade e a pluralidade, ela necessariamente resguarda as liberdades individuais, não sendo possível que contra as regras do jogo democrático seja possível utilizar uma pretensa ditadura da maioria para agredir as liberdades das minorias.</p>

<p>Quando vemos um líder que foi eleito e autorizado pelas próprias regras democráticas a presidir um país (vocês devem ter em mente um exemplo recente), dizendo que “As minorias têm que se curvar para as maiorias” ele não está defendendo uma regra democrática, está se arvorando de uma autoridade que não possui (porque contraria a Constituição democrática à qual está submetido, onde se assegura liberdades individuais às minorias) e buscando ter um poder em contrariedade à lei, contra as regras democráticas portanto, buscando respaldo nas massas, como se fosse um tirano empossado por uma oclocracia.</p>

<p>A democracia não permite que um tirano se julgue detentor do poder das massas e aja em contrariedade à liberdade dos indivíduos e minorias, principalmente em uma democracia direta.</p>

<p>Na democracia as leis funcionam como um elemento que restringe o poder de autoridades estatais onde são erigidas instituições que atuam na guarda das liberdades elementares dos cidadãos.</p>

<p>Outras características provenientes do fato de a democracia ser a antítese da autocracia é a exigência de transparência e publicidade em suas manifestações, como verdadeiro regime da visibilidade do poder, não comportando o segredo no que se refere às decisões que afetem a coletividade, bem como seu caráter anti elitista até no que concerne às decisões técnicas.</p>

<p>Como bem observou Jacques Rancière, em “O ódio à democracia”, esta não se curva a qualquer autoridade, possui um caráter de ceticismo e, porque não, insolência, de modo que mesmo que um regime democrático nos tempos atuais exija uma administração técnica, tal administração não proferirá decisões herméticas: os especialistas precisam submeter os fundamentos de suas decisões técnicas ao escrutínio público, para que a sociedade se informe e eventualmente debata, questione e controle a atuação desses agentes.</p>

<p><a href="https://infosec.space/@sirius/112862052936800369" rel="nofollow">Link</a> para comentários.</p>

<p><a href="/sirius/tag:Democracia" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Democracia</span></a> <a href="/sirius/tag:Pol%C3%ADtica" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Política</span></a> <a href="/sirius/tag:DitaduraDaMaioria" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">DitaduraDaMaioria</span></a> <a href="/sirius/tag:FilosofiaPol%C3%ADtica" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">FilosofiaPolítica</span></a></p>
]]></content:encoded>
      <guid>https://infosec.press/sirius/a-farsa-da-ditadura-da-maioria-jzvr</guid>
      <pubDate>Sun, 28 Jul 2024 03:35:25 +0000</pubDate>
    </item>
    <item>
      <title>Oralidade vs Escrita</title>
      <link>https://infosec.press/sirius/oralidade-vs-escrita</link>
      <description>&lt;![CDATA[Reflexões sobre a memória, a oralidade, a escrita e a retórica.&#xA;&#xA;Thoth&#xA;&#xA;!--more--&#xA;&#xA;Sócrates (segundo Platão) no diálogo Fedro, em determinado momento nos apresenta o seguinte mito, relativo à linguagem escrita:&#xA;&#xA;  Bem, ouvi dizer que na região de Náucratis, no Egito, houve um dos velhos deuses daquele país, um deus a que também é consagrada a ave chamada íbis. Quanto ao deus, porém, chamava-se Thoth. Foi ele que inventou os números e o cálculo, a geometria e a astronomia, o jogo de damas e os dados, e também a escrita. Naquele tempo governava todo o Egito, Tamuz, que residia ao sul do país, na grande cidade que os egípcios chamam Tebas do Egito, e a esse deus davam o nome de Amon. Thoth foi ter com ele e mostrou-lhe as suas artes, dizendo que elas deviam ser ensinadas aos egípcios. Mas o outro quis saber a utilidade de cada uma, e enquanto o inventor explicava, ele censurava ou elogiava, conforme essas artes lhe pareciam boas ou más. Dizem que Tamus fez a Thoth diversas exposições sobre cada arte, condenações ou louvores cuja menção seria por demais extensa. Quando chegaram à escrita, disse Thoth: “Esta arte, caro rei, tornará os egípcios mais sábios e lhes fortalecerá a memória; portanto, com a escrita inventei um grande auxiliar para a memória e a sabedoria.” Responde Tamuz: “Grande artista Thoth! Não é a mesma coisa inventar uma arte e julgar da utilidade ou prejuízo que advirá aos que a exercerem. Tu, como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos. Logo, tu não inventastes um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites para teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência, serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios.&#xA;&#xA;Outro dia desses me dispus a gravar um áudio vídeo e nas primeiras tentativas tentei ser espontâneo, tendo muita dificuldade para falar. Parei, escrevi o conteúdo do que iria falar, fiz algumas correções e alterações. Somente assim, seguindo esse roteiro, consegui, enfim, gravar o vídeo de maneira satisfatória. &#xA;&#xA;Recorri a essa tecnologia, criticada por Sócrates no mito, que é o recurso da linguagem escrita. Quão imerso estou na necessidade de uso da linguagem escrita?! A ponto de reconhecer certa incapacidade de me expressar oralmente de forma espontânea?! E vocês? Sentem essa dificuldade?! &#xA;&#xA;Pois bem, recentemente recordei um diálogo que tive com a minha irmã faz alguns anos. Ela, que, diferentemente de mim (ateu), é do candomblé, e historiadora, e certa vez me disse que a história de sua religião é passada oralmente, pois a tradição não confia na escrita.&#xA;&#xA;Recordei-me, cabe mencionar, porque um amigo meu me compartilhou uma matéria sobre a necessidade de alargarmos o conceito de &#34;música clássica&#34;, pois além da música de câmara europeia, mostrava a riqueza de músicas tradicionais de outras culturas: na Índia, Japão e, finalmente, na África.&#xA;&#xA;Em relação à África, fiquei fascinado com a beleza da sonoridade da kora (uma espécie de alaúde-harpa), conforme a imagem abaixo, tocada por bardos (chamados Jali) do  Guiné , Guiné-Bissau , Mali e Senegal.&#xA;&#xA;Kora&#xA;&#xA;Os Jali são historiadores, genealogistas e contadores de histórias tradicionais que possuem uma incrível memória e inteligência, transmitindo suas músicas, histórias e arte aos seus descendentes.&#xA;&#xA;As capacidades dessas pessoas são completamente destoantes das nossas, no que diz respeito a conseguirem armazenar memórias e acessarem sua mente diretamente (ao invés de ir consultar anotações em um caderno) ao serem consultadas sobre algum fato ou evento histórico, sendo certo que a música ainda as auxilia na rememoração, uma coisa simplesmente bela.&#xA;&#xA;Fico pensando, então, o quanto nos limitamos e somos diferentes dos bardos e oradores do passado, ao adotarmos prioritariamente a linguagem escrita e que tipo de humanos estamos nos tornando... &#xA;&#xA;Podemos até deter conhecimento científico moderno, podemos estar perto de alguma veracidade, mas como transmitimos o que sabemos, sem a prática de acessar imediatamente a memória e o intelecto que a oralidade nos propicia?! &#xA;&#xA;Em um debate contra cínicos, fascistas, propagandistas de mentiras e embustes, teríamos capacidade de responder de imediato, com precisão cirúrgica, ao contrário do que vimos no debate do sr. Álvaro com Arthur do Val, no podcast &#34;inteligência limitada&#34;?!&#xA;&#xA;Termino aqui com um agradecimento ao Guilherme Celestino (amigo do CPII e professor de filosofia) por trocar ideias comigo sobre textos filosóficos, tendo inclusive me lembrado recentemente deste mito presente no diálogo Fedro, e acrescento mais um trecho do mencionado diálogo, em que Sócrates imagina uma resposta que a habilidade/arte da retórica, tão criticada por ele, daria-lhe, caso ele continuasse a avaliar levianamente:&#xA;&#xA;  que estais a tagarelar, homens ridículos? Eu não obrigo ninguém que ignore a verdade a que aprenda a falar. Mas aquele que seguir o meu conselho tratará de adquirir primeiro os conhecimentos acerca da verdade para, depois, se dedicar a mim. Mas uma coisa posso afirmar com orgulho: sem as minhas lições, a posse da verdade de nada servirá para persuadir.&#xA;&#xA;Link para comentários.&#xA;&#xA;#Filosofia #Linguagem #Oralidade #Retórica #Platão]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Reflexões sobre a memória, a oralidade, a escrita e a retórica.</p>

<p><img src="https://i.etsystatic.com/5560263/r/il/3c9f87/313510340/il_fullxfull.313510340.jpg" alt="Thoth"></p>



<p>Sócrates (segundo Platão) no diálogo Fedro, em determinado momento nos apresenta o seguinte mito, relativo à linguagem escrita:</p>

<blockquote><p>Bem, ouvi dizer que na região de Náucratis, no Egito, houve um dos velhos deuses daquele país, um deus a que também é consagrada a ave chamada íbis. Quanto ao deus, porém, chamava-se Thoth. Foi ele que inventou os números e o cálculo, a geometria e a astronomia, o jogo de damas e os dados, e também a escrita. Naquele tempo governava todo o Egito, Tamuz, que residia ao sul do país, na grande cidade que os egípcios chamam Tebas do Egito, e a esse deus davam o nome de Amon. Thoth foi ter com ele e mostrou-lhe as suas artes, dizendo que elas deviam ser ensinadas aos egípcios. Mas o outro quis saber a utilidade de cada uma, e enquanto o inventor explicava, ele censurava ou elogiava, conforme essas artes lhe pareciam boas ou más. Dizem que Tamus fez a Thoth diversas exposições sobre cada arte, condenações ou louvores cuja menção seria por demais extensa. Quando chegaram à escrita, disse Thoth: “Esta arte, caro rei, tornará os egípcios mais sábios e lhes fortalecerá a memória; portanto, com a escrita inventei um grande auxiliar para a memória e a sabedoria.” Responde Tamuz: “Grande artista Thoth! Não é a mesma coisa inventar uma arte e julgar da utilidade ou prejuízo que advirá aos que a exercerem. Tu, como pai da escrita, esperas dela com o teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos. Logo, tu não inventastes um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites para teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência, serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios.</p></blockquote>

<p>Outro dia desses me dispus a gravar um áudio <a href="https://https://diode.zone/w/aRFhJzdgHBpBVozR9u7kzn" rel="nofollow">vídeo</a> e nas primeiras tentativas tentei ser espontâneo, tendo muita dificuldade para falar. Parei, escrevi o conteúdo do que iria falar, fiz algumas correções e alterações. Somente assim, seguindo esse roteiro, consegui, enfim, gravar o vídeo de maneira satisfatória.</p>

<p>Recorri a essa tecnologia, criticada por Sócrates no mito, que é o recurso da linguagem escrita. Quão imerso estou na necessidade de uso da linguagem escrita?! A ponto de reconhecer certa incapacidade de me expressar oralmente de forma espontânea?! E vocês? Sentem essa dificuldade?!</p>

<p>Pois bem, recentemente recordei um diálogo que tive com a minha irmã faz alguns anos. Ela, que, diferentemente de mim (ateu), é do candomblé, e historiadora, e certa vez me disse que a história de sua religião é passada oralmente, pois a tradição não confia na escrita.</p>

<p>Recordei-me, cabe mencionar, porque um amigo meu me compartilhou uma matéria sobre a necessidade de alargarmos o conceito de “música clássica”, pois além da música de câmara europeia, mostrava a riqueza de músicas tradicionais de outras culturas: na Índia, Japão e, finalmente, na África.</p>

<p>Em relação à África, fiquei fascinado com a beleza da sonoridade da kora (uma espécie de alaúde-harpa), conforme a imagem abaixo, tocada por bardos (chamados Jali) do  Guiné , Guiné-Bissau , Mali e Senegal.</p>

<p><img src="https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/b7/Kora_DSC_0355.JPG/679px-Kora_DSC_0355.JPG" alt="Kora"></p>

<p>Os Jali são historiadores, genealogistas e contadores de histórias tradicionais que possuem uma incrível memória e inteligência, transmitindo suas músicas, histórias e arte aos seus descendentes.</p>

<p>As capacidades dessas pessoas são completamente destoantes das nossas, no que diz respeito a conseguirem armazenar memórias e acessarem sua mente diretamente (ao invés de ir consultar anotações em um caderno) ao serem consultadas sobre algum fato ou evento histórico, sendo certo que a música ainda as auxilia na rememoração, uma coisa simplesmente bela.</p>

<p>Fico pensando, então, o quanto nos limitamos e somos diferentes dos bardos e oradores do passado, ao adotarmos prioritariamente a linguagem escrita e que tipo de humanos estamos nos tornando...</p>

<p>Podemos até deter conhecimento científico moderno, podemos estar perto de alguma veracidade, mas como transmitimos o que sabemos, sem a prática de acessar imediatamente a memória e o intelecto que a oralidade nos propicia?!</p>

<p>Em um debate contra cínicos, fascistas, propagandistas de mentiras e embustes, teríamos capacidade de responder de imediato, com precisão cirúrgica, ao contrário do que vimos no debate do sr. Álvaro com Arthur do Val, no podcast “inteligência limitada”?!</p>

<p>Termino aqui com um agradecimento ao Guilherme Celestino (amigo do CPII e professor de filosofia) por trocar ideias comigo sobre textos filosóficos, tendo inclusive me lembrado recentemente deste mito presente no diálogo Fedro, e acrescento mais um trecho do mencionado diálogo, em que Sócrates imagina uma resposta que a habilidade/arte da retórica, tão criticada por ele, daria-lhe, caso ele continuasse a avaliar levianamente:</p>

<blockquote><p>que estais a tagarelar, homens ridículos? Eu não obrigo ninguém que ignore a verdade a que aprenda a falar. Mas aquele que seguir o meu conselho tratará de adquirir primeiro os conhecimentos acerca da verdade para, depois, se dedicar a mim. Mas uma coisa posso afirmar com orgulho: <strong>sem as minhas lições, a posse da verdade de nada servirá para persuadir</strong>.</p></blockquote>

<p><a href="https://infosec.space/@sirius/112527954997038461" rel="nofollow">Link</a> para comentários.</p>

<p><a href="/sirius/tag:Filosofia" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Filosofia</span></a> <a href="/sirius/tag:Linguagem" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Linguagem</span></a> <a href="/sirius/tag:Oralidade" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Oralidade</span></a> <a href="/sirius/tag:Ret%C3%B3rica" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Retórica</span></a> <a href="/sirius/tag:Plat%C3%A3o" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Platão</span></a></p>
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      <guid>https://infosec.press/sirius/oralidade-vs-escrita</guid>
      <pubDate>Thu, 30 May 2024 03:35:14 +0000</pubDate>
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      <title>Listas no Mastodon</title>
      <link>https://infosec.press/sirius/listas-no-mastodon</link>
      <description>&lt;![CDATA[Um tutorial sobre o recurso de criar listas no Mastodon.&#xA;!--more--&#xA;&#xA;O Mastodon oferece um importante recurso de organização dos perfis que você segue, permitindo que você crie listas, que funcionarão como um recorte da sua timeline principal.&#xA;&#xA;Como a plataforma não possui timelines com algoritmos que detectam os seus interesses, e os posts na plataforma obedecem uma ordem estritamente cronológica, o recurso de criação de listas se mostra muito interessante para você não perder os posts de determinado assunto ou de determinados perfis de seu interesse, possibilitando que você navegue pelas notícias ou temas em que você está interessado naquele momento específico.&#xA;&#xA;Com a versão 4.2 do Mastodon, você pode ocultar de sua timeline inicial os perfis que estão em uma lista que você criou, tornando-a menos poluída e lhe propiciando uma melhor experiência, pois você pode seguir centenas de perfis, sem ter a preocupação de ter uma página inicial caótica, em que posts interessantes são perdidos pelo caminho.&#xA;&#xA;Para criar uma lista é muito simples. Vamos usar como exemplo a criação de uma lista cujo tema é &#34;notícias científicas&#34; e vamos ocultar essa lista da linha inicial, supondo que às vezes você só quer entrar e ler as notícias mais recentes do meio científico sem ter que ficar as procurando em meio aos posts dos seus amigos.&#xA;&#xA;Você irá clicar na opção Listas no menu da plataforma, o que te levará para a aba de listas, onde são apresentadas todas as listas que você criou. Na parte de cima, você pode escrever o nome de uma nova lista que deseje criar (neste exemplo vamos criar a lista cujo nome é &#34;Ciência&#34;) e após clicar no botão de +, circulado na imagem, você a terá criado.&#xA;&#xA;imagem&#xA;&#xA;Uma vez criada a nova lista Ciência você clicará nela para a editar:&#xA;&#xA;imagem&#xA;&#xA;Clique no menu de Mostrar Configurações circulado em verde na imagem abaixo, para exibir as opões de edição, e então clique em Ocultar estes posts da página inicial, caso deseje que os perfis que irá adicionar a essa lista não sejam exibidos em sua timeline inicial.&#xA;&#xA;imagem&#xA;&#xA;Finalmente, você precisa seguir os perfis que pretende adicionar à sua lista. Você pode os incluir na lista de duas maneiras: na primeira forma, dentro do menu de opções da lista, conforme a imagem abaixo, você clica em Editar lista, o que abrirá a aba mostrada abaixo, onde você digita o nome do perfil e aperta enter para o localizar, clicando depois no sinal de + para adicionar o perfil à sua lista:&#xA;&#xA;imagem&#xA;&#xA;Na segunda forma, você entra diretamente na página do perfil que pretende incluir na lista, clica no ícone de três pontinhos, circulado na imagem abaixo, o que abrirá uma aba de opções, dentre as quais Adicionar ou remover de listas, em que você irá clicar para escolher em que lista deseja incluir o perfil selecionado, clicando em +, conforme está circulado na segunda imagem abaixo.&#xA;&#xA;imagem&#xA;&#xA;imagem&#xA;&#xA;Pronto, você terá incluído o perfil à lista criada. Você pode adicionar vários perfis temáticos relacionados em uma mesma lista. &#xA;&#xA;Como deve ter notado pelas imagens, é um recurso que utilizo bastante e possuo atualmente oito listas temáticas, nem todas ocultadas da minha linha inicial, visto que algumas uso apenas para focar em posts de determinados perfis que não me incomodarão se forem visualizados também na página inicial.&#xA;&#xA;Espero que sua experiência no Mastodon seja cada vez mais divertida!&#xA;&#xA;#Tutorial #MastoDicas]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p>Um tutorial sobre o recurso de criar listas no Mastodon.
</p>

<p>O Mastodon oferece um importante recurso de organização dos perfis que você segue, permitindo que você crie listas, que funcionarão como um recorte da sua timeline principal.</p>

<p>Como a plataforma não possui timelines com algoritmos que detectam os seus interesses, e os posts na plataforma obedecem uma ordem estritamente cronológica, o recurso de criação de listas se mostra muito interessante para você não perder os posts de determinado assunto ou de determinados perfis de seu interesse, possibilitando que você navegue pelas notícias ou temas em que você está interessado naquele momento específico.</p>

<p>Com a versão 4.2 do Mastodon, você pode ocultar de sua timeline inicial os perfis que estão em uma lista que você criou, tornando-a menos poluída e lhe propiciando uma melhor experiência, pois você pode seguir centenas de perfis, sem ter a preocupação de ter uma página inicial caótica, em que posts interessantes são perdidos pelo caminho.</p>

<p>Para criar uma lista é muito simples. Vamos usar como exemplo a criação de uma lista cujo tema é “notícias científicas” e vamos ocultar essa lista da linha inicial, supondo que às vezes você só quer entrar e ler as notícias mais recentes do meio científico sem ter que ficar as procurando em meio aos posts dos seus amigos.</p>

<p>Você irá clicar na opção <strong>Listas</strong> no menu da plataforma, o que te levará para a aba de listas, onde são apresentadas todas as listas que você criou. Na parte de cima, você pode escrever o nome de uma nova lista que deseje criar (neste exemplo vamos criar a lista cujo nome é <em>“Ciência”</em>) e após clicar no botão de <strong>+</strong>, circulado na imagem, você a terá criado.</p>

<p><img src="https://s3.metapixl.com/metapixl-media/public/m/_v2/601929212388709068/bf4779419-8cf74f/upZFHKh6OkEr/fxSTP0ZnjhIGk5ex9RAIMF6VrtBZ22wHlZphkx57.png" alt="imagem"></p>

<p>Uma vez criada a nova lista <strong>Ciência</strong> você clicará nela para a editar:</p>

<p><img src="https://s3.metapixl.com/metapixl-media/public/m/_v2/601929212388709068/bf4779419-8cf74f/tWe4NqiW10QF/t9q2ss6tDClIdHsORiobBVXur2S2zxrJkMAoPM6Q.png" alt="imagem"></p>

<p>Clique no menu de <strong>Mostrar Configurações</strong> circulado em verde na imagem abaixo, para exibir as opões de edição, e então clique em <strong>Ocultar estes posts da página inicial</strong>, caso deseje que os perfis que irá adicionar a essa lista não sejam exibidos em sua timeline inicial.</p>

<p><img src="https://s3.metapixl.com/metapixl-media/public/m/_v2/601929212388709068/bf4779419-8cf74f/i7dMZiO2Eh95/WknysXrJENt0GAlx3H90TRGoYBnvYfy7o8zctA4L.png" alt="imagem"></p>

<p>Finalmente, você precisa seguir os perfis que pretende adicionar à sua lista. Você pode os incluir na lista de duas maneiras: na primeira forma, dentro do menu de opções da lista, conforme a imagem abaixo, você clica em <strong>Editar lista</strong>, o que abrirá a aba mostrada abaixo, onde você digita o nome do perfil e aperta enter para o localizar, clicando depois no sinal de <strong>+</strong> para adicionar o perfil à sua lista:</p>

<p><img src="https://s3.metapixl.com/metapixl-media/public/m/_v2/601929212388709068/bf4779419-8cf74f/XDUf6slSn0AZ/c1FlDAInRnrjfOfRNVWEhUqCdoyWk0HGEj32pW1Q.png" alt="imagem"></p>

<p>Na segunda forma, você entra diretamente na página do perfil que pretende incluir na lista, clica no ícone de três pontinhos, circulado na imagem abaixo, o que abrirá uma aba de opções, dentre as quais <strong>Adicionar ou remover de listas</strong>, em que você irá clicar para escolher em que lista deseja incluir o perfil selecionado, clicando em <strong>+</strong>, conforme está circulado na segunda imagem abaixo.</p>

<p><img src="https://s3.metapixl.com/metapixl-media/public/m/_v2/601929212388709068/bf4779419-8cf74f/4YF2q78eRMr3/5qvpAEIf9oYwU8GbdJUANMy7KMOD3A4LhS66HFtf.png" alt="imagem"></p>

<p><img src="https://s3.metapixl.com/metapixl-media/public/m/_v2/601929212388709068/bf4779419-8cf74f/i57SqsDCs4z2/RuVnJmN2z0hlfp3QdXSuuzocDfLQ4jyb4QTMVJ2f.png" alt="imagem"></p>

<p>Pronto, você terá incluído o perfil à lista criada. Você pode adicionar vários perfis temáticos relacionados em uma mesma lista.</p>

<p>Como deve ter notado pelas imagens, é um recurso que utilizo bastante e possuo atualmente oito listas temáticas, nem todas ocultadas da minha linha inicial, visto que algumas uso apenas para focar em posts de determinados perfis que não me incomodarão se forem visualizados também na página inicial.</p>

<p>Espero que sua experiência no Mastodon seja cada vez mais divertida!</p>

<p><a href="/sirius/tag:Tutorial" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Tutorial</span></a> <a href="/sirius/tag:MastoDicas" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">MastoDicas</span></a></p>
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      <pubDate>Sun, 05 Nov 2023 18:56:23 +0000</pubDate>
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