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    <title>Sirius</title>
    <link>https://infosec.press/sirius/</link>
    <description>Ideias sobre política, filosofia e a experiência cotidiana.</description>
    <pubDate>Fri, 11 Sep 2026 08:35:36 +0000</pubDate>
    <item>
      <title>Big Techs: Autonomização e Recusa Construtiva</title>
      <link>https://infosec.press/sirius/big-techs-autonomizacao-e-recusa-construtiva</link>
      <description>&lt;![CDATA[Sobre a autonomização das plataformas digitais, a liberdade de recusa e a construção de uma infraestrutura digital aberta.&#xA;Pintura representando o Leviatã no oceano !--more--&#xA;Reportagens como a de Luciana Marschall e Pedro Prata, para o “Estadão Verifica” -- Sri Lanka: contas lucram com polarização brasileira e usam IA para massificar produção de posts reforçam a importância de nos engajarmos contra as condições às quais estamos submetidos em certos ambientes digitais.&#xA;&#xA;Descobrimos que um jovem morador de Colombo, no Sri Lanka, que sequer sabe falar português, sem qualquer inclinação ou interesse nos rumos políticos do Brasil, mantinha páginas no Facebook, postando conteúdos enganosos, gerados por IA, exaltando o clã Bolsonaro e até mesmo algumas exaltando Lula, com o único propósito de gerar renda por meio do programa de recompensa por criação de conteúdo da Meta.&#xA;&#xA;Isso ocorre porque a remuneração que o Facebook paga pelas visualizações e cliques é maior para os conteúdos criados para o Brasil do que em relação aos conteúdos criados para o Sri Lanka.&#xA;&#xA;Natalia Vianna, da Pública, sintetizou a questão ao analisar a reportagem:&#xA;&#xA;  Quem mais paga e quem mais lucra com a desinformação, seja sobre um golpe localizado mirando velhinhos, seja sobre um candidato da República, são elas (As Big Techs). É essa a resposta, pura e simples.&#xA;&#xA;Sem me estender sobre as crises e prejuízos sociais já produzidos ou amplificados por essas plataformas, quero me concentrar em um fenômeno específico: a autonomização das instituições criadas pela atividade humana.&#xA;&#xA;Quando refletia sobre o fenômeno do bolsonarismo, pensava que estávamos diante de um movimento político que mostrou um grande domínio das redes sociais, bem como uma sofisticadíssima propaganda e capacidade de canalizar e alimentar os ressentimentos de uma sociedade segregacionista, falsa moralista, sofrendo principalmente com questões de segurança pública. Parecia-me uma engenharia política cuidadosamente elaborada para dialogar tanto com parcelas das classes subordinadas quanto com setores das elites econômicas brasileiras.&#xA;&#xA;Todavia, hoje desconfio que talvez não seja o caso de engenheiros políticos dominando as redes com maestria, mas um domínio da arquitetura das plataformas digitais sobre a política.&#xA;&#xA;Vejamos Renato Lessa, em seu ensaio chamado Homo Bolsonarus, que descreve como a instituição do libertarismo bolsonarista (um animal artificial oposto ao Leviatã Estatal ou a outras formas normativas racionais), promove o descolamento da sociedade do marco normativo estatal, em um movimento oposto ao fascismo histórico ou ao republicanismo brasileiro pós 1930:&#xA;&#xA;  Não se trata de pôr a sociedade dentro do Estado, mas de devolver a sociedade ao estado de natureza; de retirar da sociedade os graus de “estatalidade” que ela contém, para fazer com se aproxime cada vez mais de um ideal de estado de natureza espontâneo: um cenário no qual as interações humanas são governadas pelas vontades, pelos instintos, pelas pulsões, e no qual a mediação artificial é mínima, ou mesmo inexistente.&#xA;&#xA;Poucas coisas expressam melhor esse cenário de interação governada por vontades, instintos e pulsões do que a lógica algorítmica da indústria da atenção. São as relações sociais objetivadas nessas plataformas, por meio da recompensa a conteúdos que mobilizam sentimentos mais viscerais e enganosos, que favorecem o florescimento de formas de política como o bolsonarismo.&#xA;&#xA;Nisso consiste a autonomização das instituições: as redes sociais deixam de funcionar como meros instrumentos e se tornam estruturas dotadas de uma lógica própria, à qual os indivíduos precisam continuamente adaptar suas condutas, da mesma forma como Marx descreve o mercado, o dinheiro e o capital como formas sociais que adquirem autonomia relativa diante dos próprios indivíduos. A política, a comunicação, o trabalho, os empresários e os governos estão cada vez mais submetidos à lógica algorítmica das plataformas digitais de propriedade capitalista.&#xA;&#xA;Ser parte das engrenagens de instituições como a bolsonarista, portanto, não é apenas uma questão de ideal ou de compromisso político. Também envolve a reprodução da própria vida material: uma atividade voltada à obtenção de sustento.&#xA;&#xA;A ideia de que as plataformas seriam um instrumento neutro que também pode ser utilizado para boas ações, como, por exemplo, organização social e atividades proveitosas em grupos, também esbarra na lógica do lucro para a qual foram desenhadas, diante do fato de a moderação e o combate ativos contra usos inadequados serem dispendiosos e trabalhosos para as corporações proprietárias. Assim, por mais que exista empenho institucional para regulamentar as redes, tais redes frequentemente resistem ao cumprimento das regulamentações, como se estivessem acima das legislações domésticas dos países.&#xA;&#xA;Recentemente, a Meta foi condenada por uma Corte estadual do Novo México, nos Estados Unidos, a pagar US$ 567 milhões e a alterar o funcionamento de suas plataformas para jovens, após a Justiça considerar que a empresa havia adotado práticas de design que contribuíam para o uso viciante por jovens e falhado na proteção de crianças contra danos em suas plataformas.&#xA;&#xA;No Brasil, uma adolescente de 13 anos em Naviraí/MS foi induzida a transmitir ao vivo atos de automutilação e o próprio suicídio em um servidor da plataforma do Discord, para dezenas de pessoas. Isso levou o Advogado-Geral da União a afirmar que vai ajuizar uma ação civil pública contra o Discord, requerendo a responsabilização e a retirada da plataforma no Brasil por não cumprir as regras de verificação de idade previstas no ECA Digital e nem as recentes alterações no Marco Civil da Internet. O Telegram também está sendo investigado e acusado pelo Ministério da Justiça pelo descumprimento das normas, por não adotar medidas para impedir a circulação de conteúdos criminosos compartilhados em grupos abertos.&#xA;&#xA;Não se pode, portanto, atribuir esses problemas tão somente aos indivíduos, mas também às próprias escolhas de desenho, aos mecanismos de proteção e aos incentivos das plataformas. Hans Jonas, em sua obra “O Princípio da Responsabilidade”, argumentava que a tecnologia moderna não é um instrumento neutro que depende exclusivamente da vontade dos indivíduos que a utilizam, pois cria novas formas de poder que alteram profundamente a relação entre os seres humanos e a experiência vivida, produzindo riscos de grande escala. A responsabilidade, portanto, não pode ser pensada apenas em relação ao uso individual dos instrumentos, mas também em relação às estruturas que eles produzem e aos comportamentos que passam a induzir.&#xA;&#xA;A lógica estrutural dessas plataformas tende a capturar e instigar comportamentos capazes de maximizar a retenção e, consequentemente, o lucro. A presença massiva de brasileiros nesses ambientes significa submeter parcela expressiva da sociabilidade nacional a uma estrutura que, embora possa contribuir em alguma medida para usos socialmente benéficos, como o aprimoramento da inteligência social, do discurso público franco e da divulgação científica, oferece incentivos econômicos muito mais fortes à exploração do medo, do ódio, da fabricação de inimigos existenciais e de outras pulsões autodestrutivas.&#xA;&#xA;Ações de Recusa e Construção&#xA;&#xA;Não estamos, todavia, fadados a nos adequar a esferas digitais de convívio social que não foram projetadas por nós mesmos e acabam por incentivar e lucrar com uma fragmentação na comunicação pública, criando bolhas dentro de seus ambientes. &#xA;&#xA;Infelizmente, não é um processo fácil. As redes sociais não começam a oferecer seus serviços repletas de propagandas de Bets, vendendo verificação, monetizando e incentivando discursos de neonazistas ou privilegiando a disseminação de desinformação por seus algoritmos. A arquitetura dessas redes compreende que os seres humanos desenvolvem hábitos e relações sociais e que, uma vez sedimentadas essas experiências, o ambiente de suas redes se torna mais difícil de ser abandonado. Facebook é o lugar onde muitos amigos e familiares se adicionaram, Instagram se tornou um ponto de encontro de celebridades e pessoas divulgando estilos de vida cativantes, e o antigo Twitter era uma rede muito melhor antes de ser comprado e administrado pelo trilionário incel Elon Musk.&#xA;&#xA;Essas plataformas digitais costumam começar como um agradável jardim murado, atrativo, onde se desenvolve uma sociabilidade proveitosa, até que as regras do jogo comecem a se modificar. Os fortes hábitos e laços afetivos desenvolvidos nesse ambiente permitem às redes submeter seus usuários e criadores de conteúdo, em um momento posterior, a um gradativo processo de maus-tratos, tendo em vista o lucro dos acionistas, processo que Cory Doctorow denominou enshitification (embostificação ou bostificação).&#xA;&#xA;Apenas abandonar tais redes geralmente implica o sentimento de perda de um lar do qual se tem boas recordações e que se tornou tóxico com o tempo. Será que pode melhorar? Será que poderá voltar a ser como antes? Perderei meus contatos, meus seguidores, meus likes, minha turma?&#xA;&#xA;Mas esse sentimento de perda esconde o fato de que a plataforma não é um mundo construído para nós, mas um mundo que nós mesmos construímos dentro de uma esfera de propriedade privada.&#xA;&#xA;A dedicação de tempo e esforço criativo dos usuários nessas redes pode ser descrita como uma das maiores formas contemporâneas de apropriação de trabalho social por grupos privados. Cada meme, cada notícia, cada vídeo, cada foto e cada texto agrega valor à plataforma, enquanto os conteúdos, relações e dados produzidos por essa atividade passam a constituir ativos econômicos que contribuíram para erigir alguns empresários do setor de tecnologia entre os indivíduos mais ricos e poderosos do mundo.&#xA;&#xA;Quando a ausência de moderação eficaz e determinadas formas de extração de lucro das plataformas produzem efeitos destrutivos ao tecido social e entram em conflito com as legislações locais, como no recente caso do Discord, e as autoridades buscam inclusive medidas de bloqueio da rede no território nacional, não é raro observar reclamações de usuários que usam a rede de forma legal, no sentido de que perderão seus contatos, suas relações e atividades da qual dependem inclusive para a sua subsistência financeira.&#xA;&#xA;Mas a causa do problema reside justamente no fato de as plataformas adotarem uma lógica de mercado que produz uma dependência institucional e um estado de natureza digital, que exploram financeiramente. A ausência de portabilidade de identidade, contatos e dados de publicações deve ser compreendida como uma restrição à liberdade dos usuários, uma prática anticompetitiva de retenção de trabalho criativo social, que inclusive serve de instrumentalização da dependência que enraíza em seus usuários contra as autoridades domésticas.&#xA;&#xA;Em outros ramos de atividade econômica isso é impensável. Toda empresa de telefonia que opere no País, por exemplo, é obrigada a fornecer portabilidade de número de linha. Do mesmo modo seria inconcebível uma instituição financeira que se negasse a participar da infraestrutura pública do PIX, ou que retenha para si os investimentos, aplicações e dados dos correntistas, negando a possibilidade de portabilidade e interoperabilidade entre contas de outras instituições financeiras.&#xA;&#xA;Assim, a ação de Recusa exige um processo que vai além dos esforços individuais, demandando institucionalidade estatal; envolve compreender que não precisamos submeter nossas atividades criativas e nossas relações a uma estrutura privada, e que a tecnologia e a interface digital disponibilizadas para essa troca não justificam a apropriação privada do trabalho e das relações que nós mesmos produzimos. Essa lógica se liga aos princípios de interoperabilidade e de portabilidade dos dados e das identidades digitais. Se uma rede social se &#34;embostifica&#34; ao ponto de não haver um mínimo de salubridade, por que se deve admitir que a migração para outra rede importe na perda dos seguidores, do conteúdo criado e das próprias relações construídas, sobretudo quando, muitas vezes, um criador de conteúdo depende de suas redes sociais para garantir a sua subsistência?&#xA;&#xA;Essa institucionalidade estatal, contudo, não significa abandonar os meios digitais e as tecnologias, mas construir novos modelos de institucionalidade e reintroduzir estatalidade como antídoto à lógica de mercado que produz e reproduz esse estado de natureza digital.&#xA;&#xA;Entre as regulamentações que os Estados nacionais discutem, talvez uma das mais relevantes seja a obrigatoriedade da adoção de protocolos abertos que permitam a interoperabilidade entre redes e aplicações, viabilizando a liberdade de migrar a identidade, o conteúdo e as relações construídas. Cabe ressaltar que, em países como o Brasil, isso não é algo inovador, mas um objetivo basilar, embora frequentemente esquecido, da disciplina do uso da internet, conforme se verifica no artigo 4º do Marco Civil da Internet (Lei n. 12.965/2014):&#xA;&#xA;  Art. 4º A disciplina do uso da internet no Brasil tem por objetivo a promoção:&#xA;  I - do direito de acesso à internet a todos;&#xA;  II - do acesso à informação, ao conhecimento e à participação na vida cultural e na condução dos assuntos públicos;&#xA;  III - da inovação e do fomento à ampla difusão de novas tecnologias e modelos de uso e acesso; e&#xA;  IV - da adesão a padrões tecnológicos abertos que permitam a comunicação, a acessibilidade e a interoperabilidade entre aplicações e bases de dados. &#xA;&#xA;Um exemplo empírico demonstra que tais princípios não são uma mera possibilidade teórica. No âmbito da Comissão Europeia, o Digital Markets Act (DMA), em seu artigo 7º, estabeleceu obrigações de interoperabilidade para os serviços de mensagem dos chamados gatekeepers - que devem abrir suas redes, possibilitando que outros provedores de serviços de mensagem possam solicitar sua interoperabilidade. A regulamentação já produziu mecanismos de comunicação direta entre diferentes serviços e vem sendo implementada progressivamente, incluindo conversas em grupo e, futuramente, chamadas de áudio e vídeo.&#xA;&#xA;Embora a extensão dessas regras às redes sociais das Big Techs tenha sido considerada prematura pela Comissão Europeia, o debate regulatório aponta para a superação da prática anticompetitiva de estabelecer jardins murados que causam dependência institucional, garantindo aos indivíduos a liberdade de escolher as condições técnicas e institucionais da própria sociabilidade e de não permanecerem presos às plataformas de agentes que descumpram as normas legais de moderação, proteção social da infância e adolescência e combate à desinformação.&#xA;&#xA;É nesse sentido que vêm sendo desenvolvidos protocolos abertos e interoperáveis, como o ActivityPub e o AT Protocol, utilizado pelo Bluesky. O primeiro já sustenta uma rede federada mais madura, embora a portabilidade integral de identidades, conteúdos e relações entre servidores ainda apresente limitações práticas. O segundo foi concebido desde o início com a portabilidade de contas como uma de suas características fundamentais, permitindo migrar uma identidade e seus dados entre diferentes servidores, embora sua arquitetura e seu ecossistema ainda estejam em desenvolvimento. Cabe ressaltar que a própria Meta, sem qualquer obrigação legal, desenvolveu um meio de interoperabilidade parcial entre o Threads e o Fediverso, mostrando a viabilidade técnica de medidas do tipo.&#xA;&#xA;É aqui que fica mais claro o aspecto de Construção da atividade de recusa. Ela não se restringe à construção normativa e jurídica, mas se articula com a investigação, a experimentação e o desenvolvimento tecnológico de protocolos abertos. Por mais que o ActivityPub seja um protocolo mais maduro e descentralizado, o AT Protocol constitui atualmente um importante laboratório experimental: além de ser um protocolo aberto, possui dezenas de desenvolvedores, fora da empresa do Bluesky, criando novas soluções, aplicações e servidores PDS. Essa experimentação revela, na prática, que padrões abertos e interoperáveis para identidades, histórico, posts, contatos e dados não são uma ideia distante, mas uma possibilidade tecnológica concreta.&#xA;&#xA;O Brasil pode e deve dar um passo à frente da União Europeia ao estabelecer a efetivação do art. 4º, IV, do Marco Civil, vedando o cercamento das identidades e determinando que as plataformas sociais adotem um padrão aberto que permita a interoperabilidade e a portabilidade.&#xA;&#xA;Convido vocês, portanto, ao engajamento na construção de uma normatividade pública que caminhe de mãos dadas com o incentivo aos desenvolvedores dos protocolos públicos, abertos e suas aplicações, para que tenhamos mais agência sobre a arquitetura de nossas redes e o nosso debate público deixe de ser moldado pelos incentivos que uma corporação oferece a um jovem do Sri Lanka, que nem sabe o que está em jogo. Trata-se de Soberania Digital, ou, se me permitem, descolonização digital.&#xA;&#xA;---&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;Comentários e críticas são sempre bem-vindos.&#xD;&#xA;Mastodon · Matrix (@sirius:nope.chat)]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<h4 id="sobre-a-autonomização-das-plataformas-digitais-a-liberdade-de-recusa-e-a-construção-de-uma-infraestrutura-digital-aberta">Sobre a autonomização das plataformas digitais, a liberdade de recusa e a construção de uma infraestrutura digital aberta.</h4>

<p><img src="https://cdn.offprint.app/p/12188/conversions/image-large.jpg" alt="Pintura representando o Leviatã no oceano"> 
Reportagens como a de Luciana Marschall e Pedro Prata, para o “Estadão Verifica” — <a href="https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/sri-lanka-contas-lucram-polarizacao-brasileira-ia-massificar-posts/" rel="nofollow">Sri Lanka: contas lucram com polarização brasileira e usam IA para massificar produção de posts</a> reforçam a importância de nos engajarmos contra as condições às quais estamos submetidos em certos ambientes digitais.</p>

<p>Descobrimos que um jovem morador de Colombo, no Sri Lanka, que sequer sabe falar português, sem qualquer inclinação ou interesse nos rumos políticos do Brasil, mantinha páginas no Facebook, postando conteúdos enganosos, gerados por IA, exaltando o clã Bolsonaro e até mesmo algumas exaltando Lula, com o único propósito de gerar renda por meio do programa de recompensa por criação de conteúdo da Meta.</p>

<p>Isso ocorre porque a remuneração que o Facebook paga pelas visualizações e cliques é maior para os conteúdos criados para o Brasil do que em relação aos conteúdos criados para o Sri Lanka.</p>

<p>Natalia Vianna, da Pública, sintetizou a questão ao analisar a <a href="https://apublica.org/2026/07/follow-the-money-quem-financia-os-criadores-de-desinformacao/" rel="nofollow">reportagem</a>:</p>

<blockquote><p>Quem mais paga e quem mais lucra com a desinformação, seja sobre um golpe localizado mirando velhinhos, seja sobre um candidato da República, são elas (As Big Techs). É essa a resposta, pura e simples.</p></blockquote>

<p>Sem me estender sobre as crises e prejuízos sociais já produzidos ou amplificados por essas plataformas, quero me concentrar em um fenômeno específico: a autonomização das instituições criadas pela atividade humana.</p>

<p>Quando refletia sobre o fenômeno do bolsonarismo, pensava que estávamos diante de um movimento político que mostrou um grande domínio das redes sociais, bem como uma sofisticadíssima propaganda e capacidade de canalizar e alimentar os ressentimentos de uma sociedade segregacionista, falsa moralista, sofrendo principalmente com questões de segurança pública. Parecia-me uma engenharia política cuidadosamente elaborada para dialogar tanto com parcelas das classes subordinadas quanto com setores das elites econômicas brasileiras.</p>

<p>Todavia, hoje desconfio que talvez não seja o caso de engenheiros políticos dominando as redes com maestria, mas um domínio da arquitetura das plataformas digitais sobre a política.</p>

<p>Vejamos Renato Lessa, em seu ensaio chamado <a href="https://www.revistaserrote.com.br/wp-content/uploads/2020/07/serrote-especial-em-quarentena.pdf" rel="nofollow"><em>Homo Bolsonarus</em></a>, que descreve como a instituição do libertarismo bolsonarista (um animal artificial oposto ao Leviatã Estatal ou a outras formas normativas racionais), promove o descolamento da sociedade do marco normativo estatal, em um movimento oposto ao fascismo histórico ou ao republicanismo brasileiro pós 1930:</p>

<blockquote><p>Não se trata de pôr a sociedade dentro do Estado, mas de devolver a sociedade ao estado de natureza; de retirar da sociedade os graus de “estatalidade” que ela contém, para fazer com se aproxime cada vez mais de um ideal de estado de natureza espontâneo: um cenário no qual as interações humanas são governadas pelas vontades, pelos instintos, pelas pulsões, e no qual a mediação artificial é mínima, ou mesmo inexistente.</p></blockquote>

<p>Poucas coisas expressam melhor esse cenário de interação governada por vontades, instintos e pulsões do que a lógica algorítmica da indústria da atenção. São as relações sociais objetivadas nessas plataformas, por meio da recompensa a conteúdos que mobilizam sentimentos mais viscerais e enganosos, que favorecem o florescimento de formas de política como o bolsonarismo.</p>

<p>Nisso consiste a autonomização das instituições: as redes sociais deixam de funcionar como meros instrumentos e se tornam estruturas dotadas de uma lógica própria, à qual os indivíduos precisam continuamente adaptar suas condutas, da mesma forma como Marx descreve o mercado, o dinheiro e o capital como formas sociais que adquirem autonomia relativa diante dos próprios indivíduos. A política, a comunicação, o trabalho, os empresários e os governos estão cada vez mais submetidos à lógica algorítmica das plataformas digitais de propriedade capitalista.</p>

<p>Ser parte das engrenagens de instituições como a bolsonarista, portanto, não é apenas uma questão de ideal ou de compromisso político. Também envolve a reprodução da própria vida material: uma atividade voltada à obtenção de sustento.</p>

<p>A ideia de que as plataformas seriam um instrumento neutro que também pode ser utilizado para boas ações, como, por exemplo, organização social e atividades proveitosas em grupos, também esbarra na lógica do lucro para a qual foram desenhadas, diante do fato de a moderação e o combate ativos contra usos inadequados serem dispendiosos e trabalhosos para as corporações proprietárias. Assim, por mais que exista empenho institucional para regulamentar as redes, tais redes frequentemente resistem ao cumprimento das regulamentações, como se estivessem acima das legislações domésticas dos países.</p>

<p>Recentemente, a Meta foi condenada por uma Corte estadual do Novo México, nos Estados Unidos, a pagar US$ 567 milhões e a alterar o funcionamento de suas plataformas para jovens, após a Justiça considerar que a empresa havia adotado práticas de design que contribuíam para o uso viciante por jovens e falhado na proteção de crianças contra danos em suas plataformas.</p>

<p>No Brasil, uma adolescente de 13 anos em Naviraí/MS foi induzida a transmitir ao vivo atos de automutilação e o próprio suicídio em um servidor da plataforma do Discord, para dezenas de pessoas. Isso levou o Advogado-Geral da União a afirmar que vai ajuizar uma ação civil pública contra o Discord, requerendo a responsabilização e a retirada da plataforma no Brasil por não cumprir as regras de verificação de idade previstas no ECA Digital e nem as recentes alterações no Marco Civil da Internet. O Telegram também está sendo investigado e acusado pelo Ministério da Justiça pelo descumprimento das normas, por não adotar medidas para impedir a circulação de conteúdos criminosos compartilhados em grupos abertos.</p>

<p>Não se pode, portanto, atribuir esses problemas tão somente aos indivíduos, mas também às próprias escolhas de desenho, aos mecanismos de proteção e aos incentivos das plataformas. Hans Jonas, em sua obra “O Princípio da Responsabilidade”, argumentava que a tecnologia moderna não é um instrumento neutro que depende exclusivamente da vontade dos indivíduos que a utilizam, pois cria novas formas de poder que alteram profundamente a relação entre os seres humanos e a experiência vivida, produzindo riscos de grande escala. A responsabilidade, portanto, não pode ser pensada apenas em relação ao uso individual dos instrumentos, mas também em relação às estruturas que eles produzem e aos comportamentos que passam a induzir.</p>

<p>A lógica estrutural dessas plataformas tende a capturar e instigar comportamentos capazes de maximizar a retenção e, consequentemente, o lucro. A presença massiva de brasileiros nesses ambientes significa submeter parcela expressiva da sociabilidade nacional a uma estrutura que, embora possa contribuir em alguma medida para usos socialmente benéficos, como o aprimoramento da inteligência social, do discurso público franco e da divulgação científica, oferece incentivos econômicos muito mais fortes à exploração do medo, do ódio, da fabricação de inimigos existenciais e de outras pulsões autodestrutivas.</p>

<h3 id="ações-de-recusa-e-construção">Ações de Recusa e Construção</h3>

<p>Não estamos, todavia, fadados a nos adequar a esferas digitais de convívio social que não foram projetadas por nós mesmos e acabam por incentivar e lucrar com uma fragmentação na comunicação pública, criando bolhas dentro de seus ambientes.</p>

<p>Infelizmente, não é um processo fácil. As redes sociais não começam a oferecer seus serviços repletas de propagandas de Bets, vendendo verificação, monetizando e incentivando discursos de neonazistas ou privilegiando a disseminação de desinformação por seus algoritmos. A arquitetura dessas redes compreende que os seres humanos desenvolvem hábitos e relações sociais e que, uma vez sedimentadas essas experiências, o ambiente de suas redes se torna mais difícil de ser abandonado. Facebook é o lugar onde muitos amigos e familiares se adicionaram, Instagram se tornou um ponto de encontro de celebridades e pessoas divulgando estilos de vida cativantes, e o antigo Twitter era uma rede muito melhor antes de ser comprado e administrado pelo trilionário incel Elon Musk.</p>

<p>Essas plataformas digitais costumam começar como um agradável jardim murado, atrativo, onde se desenvolve uma sociabilidade proveitosa, até que as regras do jogo comecem a se modificar. Os fortes hábitos e laços afetivos desenvolvidos nesse ambiente permitem às redes submeter seus usuários e criadores de conteúdo, em um momento posterior, a um gradativo processo de maus-tratos, tendo em vista o lucro dos acionistas, processo que Cory Doctorow denominou enshitification (embostificação ou bostificação).</p>

<p>Apenas abandonar tais redes geralmente implica o sentimento de perda de um lar do qual se tem boas recordações e que se tornou tóxico com o tempo. Será que pode melhorar? Será que poderá voltar a ser como antes? Perderei meus contatos, meus seguidores, meus likes, minha turma?</p>

<p>Mas esse sentimento de perda esconde o fato de que a plataforma não é um mundo construído para nós, mas um mundo que nós mesmos construímos dentro de uma esfera de propriedade privada.</p>

<p>A dedicação de tempo e esforço criativo dos usuários nessas redes pode ser descrita como uma das maiores formas contemporâneas de apropriação de trabalho social por grupos privados. Cada meme, cada notícia, cada vídeo, cada foto e cada texto agrega valor à plataforma, enquanto os conteúdos, relações e dados produzidos por essa atividade passam a constituir ativos econômicos que contribuíram para erigir alguns empresários do setor de tecnologia entre os indivíduos mais ricos e poderosos do mundo.</p>

<p>Quando a ausência de moderação eficaz e determinadas formas de extração de lucro das plataformas produzem efeitos destrutivos ao tecido social e entram em conflito com as legislações locais, como no recente caso do Discord, e as autoridades buscam inclusive medidas de bloqueio da rede no território nacional, não é raro observar reclamações de usuários que usam a rede de forma legal, no sentido de que perderão seus contatos, suas relações e atividades da qual dependem inclusive para a sua subsistência financeira.</p>

<p>Mas a causa do problema reside justamente no fato de as plataformas adotarem uma lógica de mercado que produz uma dependência institucional e um estado de natureza digital, que exploram financeiramente. A ausência de portabilidade de identidade, contatos e dados de publicações deve ser compreendida como uma restrição à liberdade dos usuários, uma prática anticompetitiva de retenção de trabalho criativo social, que inclusive serve de instrumentalização da dependência que enraíza em seus usuários contra as autoridades domésticas.</p>

<p>Em outros ramos de atividade econômica isso é impensável. Toda empresa de telefonia que opere no País, por exemplo, é obrigada a fornecer portabilidade de número de linha. Do mesmo modo seria inconcebível uma instituição financeira que se negasse a participar da infraestrutura pública do PIX, ou que retenha para si os investimentos, aplicações e dados dos correntistas, negando a possibilidade de portabilidade e interoperabilidade entre contas de outras instituições financeiras.</p>

<p>Assim, a ação de Recusa exige um processo que vai além dos esforços individuais, demandando institucionalidade estatal; envolve compreender que não precisamos submeter nossas atividades criativas e nossas relações a uma estrutura privada, e que a tecnologia e a interface digital disponibilizadas para essa troca não justificam a apropriação privada do trabalho e das relações que nós mesmos produzimos. Essa lógica se liga aos princípios de interoperabilidade e de portabilidade dos dados e das identidades digitais. Se uma rede social se “embostifica” ao ponto de não haver um mínimo de salubridade, por que se deve admitir que a migração para outra rede importe na perda dos seguidores, do conteúdo criado e das próprias relações construídas, sobretudo quando, muitas vezes, um criador de conteúdo depende de suas redes sociais para garantir a sua subsistência?</p>

<p>Essa institucionalidade estatal, contudo, não significa abandonar os meios digitais e as tecnologias, mas construir novos modelos de institucionalidade e reintroduzir estatalidade como antídoto à lógica de mercado que produz e reproduz esse estado de natureza digital.</p>

<p>Entre as regulamentações que os Estados nacionais discutem, talvez uma das mais relevantes seja a obrigatoriedade da adoção de protocolos abertos que permitam a interoperabilidade entre redes e aplicações, viabilizando a liberdade de migrar a identidade, o conteúdo e as relações construídas. Cabe ressaltar que, em países como o Brasil, isso não é algo inovador, mas um objetivo basilar, embora frequentemente esquecido, da disciplina do uso da internet, conforme se verifica no artigo 4º do Marco Civil da Internet (Lei n. 12.965/2014):</p>

<blockquote><p>Art. 4º A disciplina do uso da internet no Brasil tem por objetivo a promoção:
I – do direito de acesso à internet a todos;
II – do acesso à informação, ao conhecimento e à participação na vida cultural e na condução dos assuntos públicos;
III – da inovação e do fomento à ampla difusão de novas tecnologias e modelos de uso e acesso; e
<strong>IV – da adesão a padrões tecnológicos abertos que permitam a comunicação, a acessibilidade e a interoperabilidade entre aplicações e bases de dados.</strong></p></blockquote>

<p>Um exemplo empírico demonstra que tais princípios não são uma mera possibilidade teórica. No âmbito da Comissão Europeia, o Digital Markets Act (DMA), em seu artigo 7º, estabeleceu obrigações de interoperabilidade para os serviços de mensagem dos chamados <em>gatekeepers</em> – que devem abrir suas redes, possibilitando que outros provedores de serviços de mensagem possam solicitar sua interoperabilidade. A regulamentação já produziu mecanismos de comunicação direta entre diferentes serviços e vem sendo implementada progressivamente, incluindo conversas em grupo e, futuramente, chamadas de áudio e vídeo.</p>

<p>Embora a extensão dessas regras às redes sociais das Big Techs tenha sido considerada prematura pela Comissão Europeia, o debate regulatório aponta para a superação da prática anticompetitiva de estabelecer jardins murados que causam dependência institucional, garantindo aos indivíduos a liberdade de escolher as condições técnicas e institucionais da própria sociabilidade e de não permanecerem presos às plataformas de agentes que descumpram as normas legais de moderação, proteção social da infância e adolescência e combate à desinformação.</p>

<p>É nesse sentido que vêm sendo desenvolvidos protocolos abertos e interoperáveis, como o ActivityPub e o AT Protocol, utilizado pelo Bluesky. O primeiro já sustenta uma rede federada mais madura, embora a portabilidade integral de identidades, conteúdos e relações entre servidores ainda apresente limitações práticas. O segundo foi concebido desde o início com a portabilidade de contas como uma de suas características fundamentais, permitindo migrar uma identidade e seus dados entre diferentes servidores, embora sua arquitetura e seu ecossistema ainda estejam em desenvolvimento. Cabe ressaltar que a própria Meta, sem qualquer obrigação legal, desenvolveu um meio de interoperabilidade parcial entre o Threads e o Fediverso, mostrando a viabilidade técnica de medidas do tipo.</p>

<p>É aqui que fica mais claro o aspecto de Construção da atividade de recusa. Ela não se restringe à construção normativa e jurídica, mas se articula com a investigação, a experimentação e o desenvolvimento tecnológico de protocolos abertos. Por mais que o ActivityPub seja um protocolo mais maduro e descentralizado, o AT Protocol constitui atualmente um importante laboratório experimental: além de ser um protocolo aberto, possui dezenas de desenvolvedores, fora da empresa do Bluesky, criando novas soluções, aplicações e servidores PDS. Essa experimentação revela, na prática, que padrões abertos e interoperáveis para identidades, histórico, posts, contatos e dados não são uma ideia distante, mas uma possibilidade tecnológica concreta.</p>

<p>O Brasil pode e deve dar um passo à frente da União Europeia ao estabelecer a efetivação do art. 4º, IV, do Marco Civil, vedando o cercamento das identidades e determinando que as plataformas sociais adotem um padrão aberto que permita a interoperabilidade e a portabilidade.</p>

<p>Convido vocês, portanto, ao engajamento na construção de uma normatividade pública que caminhe de mãos dadas com o incentivo aos desenvolvedores dos protocolos públicos, abertos e suas aplicações, para que tenhamos mais agência sobre a arquitetura de nossas redes e o nosso debate público deixe de ser moldado pelos incentivos que uma corporação oferece a um jovem do Sri Lanka, que nem sabe o que está em jogo. Trata-se de Soberania Digital, ou, se me permitem, descolonização digital.</p>

<hr>

<p>Comentários e críticas são sempre bem-vindos.
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      <guid>https://infosec.press/sirius/big-techs-autonomizacao-e-recusa-construtiva</guid>
      <pubDate>Tue, 11 Aug 2026 01:10:14 +0000</pubDate>
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      <title>Ortodoxia Marxista e Ambiguidade Histórica</title>
      <link>https://infosec.press/sirius/ortodoxia-marxista-e-ambiguidade-historica</link>
      <description>&lt;![CDATA[Transformar o marxismo em catecismo talvez seja uma ótima forma de produzir militantes disciplinados, mas é uma péssima forma de compreender a realidade.&#xA;!--more--&#xA;Recentemente rolou um debate contra o chamado &#34;marxismo ocidental&#34; no meio webcomunista. Alguns influenciadores marxista-leninistas ou maoistas tendem a tratar marxismo ocidental como sinônimo de Escola de Frankfurt. Menosprezar a escola de Frankfurt já seria um problema por si só, porque implica descartar autores como Adorno ou Marcuse como se não tivessem nada a oferecer ao pensamento marxista. Mas a simplificação é ainda mais grave.&#xA;&#xA;O marxismo ocidental nunca foi apenas a Escola de Frankfurt. Nele encontramos autores tão diversos quanto Lukács, Gramsci, Korsch, Sartre, Merleau-Ponty, até Althusser e Poulantzas, e vários outros que procuraram recuperar aspectos da dialética de Marx que haviam sido empobrecidos pelas leituras mais ortodoxas do marxismo do século XX (cada um ao seu próprio jeito e de formas diferentes). Reduzir toda essa tradição a uma caricatura &#34;identitária&#34;, &#34;culturalista&#34; ou &#34;acadêmica&#34; é demonstrar desconhecimento da própria história do pensamento marxista.&#xA;&#xA;É inclusive irônico porque se nem mesmo os autores da escola de Frankfurt são totalmente coesos e concordam entre si, quando ampliamos para o “marxismo ocidental” fica pior ainda, pois há autores que tecem várias críticas e discordam em vários aspectos entre si. Uma categoria criada para descrever uma tradição intelectual extremamente diversa acaba sendo utilizada por alguns influenciadores como instrumento de demarcação ideológica, criando um “nós” e um “outros” dentro do próprio marxismo, transformando em suspeitos todos aqueles que se recusam a identificar marxismo com a ortodoxia soviética ou maoista.&#xA;&#xA;Parte do problema está na transformação de Materialismo e Empiriocriticismo, de Lenin, em uma espécie de catecismo filosófico. Muitos marxistas heterodoxos viram nessa obra um retorno a formas de materialismo anteriores não apenas a Marx, mas também à revolução filosófica promovida por Kant e Hegel. O conhecimento aparece ali como um espelhamento cada vez mais preciso de uma realidade objetiva, e o marxismo tende a ser apresentado como a ciência capaz de revelar as leis fundamentais da história.&#xA;&#xA;A partir daí, não é difícil incorrer numa visão mecanicista do devir histórico, na qual o futuro já estaria inscrito nas estruturas do presente e a vitória do proletariado apareceria não como uma possibilidade política a ser construída mas como o desfecho inevitável de um processo governado por leis históricas.&#xA;&#xA;Mais tarde, nos Cadernos Filosóficos, Lenin realiza uma retomada muito mais rica da dialética hegeliana que se afasta significativamente do mecanicismo presente em Materialismo e Empiriocriticismo. O problema é que a tradição marxista-leninista posterior frequentemente combinou esse reencontro com Hegel a uma filosofia da história excessivamente confiante em suas próprias conclusões. A dialética deixou de ser um método para compreender contradições abertas e passou a funcionar, muitas vezes, como garantia antecipada do triunfo histórico do proletariado.&#xA;&#xA;É justamente contra essa tentação que boa parte do marxismo ocidental se insurgiu. Lukács, Gramsci, Sartre, Merleau-Ponty e mesmo autores da Escola de Frankfurt insistiram, cada um à sua maneira, que a história não entrega garantias antecipadas. A práxis política ocorre em um mundo contingente, ambíguo e imprevisível. Não existe ponto de vista privilegiado fora da história a partir do qual possamos enxergar seu destino final.&#xA;&#xA;Talvez seja exatamente isso que incomode tanto certos setores do webcomunismo. A ideia de que a política exige julgamento, revisão constante dos próprios pressupostos e responsabilidade pelos resultados concretos da ação é muito menos confortável do que a crença de estar marchando inevitavelmente em direção a uma vitória já inscrita nas leis da história. A primeira posição exige reflexão crítica permanente e a segunda oferece a segurança psicológica da certeza doutrinária.&#xA;&#xA;O &#34;marxismo ocidental&#34; vira sinônimo de &#34;desvio burguês/acadêmico&#34; para que a ortodoxia não precise lidar com questões difíceis.&#xA;&#xA;Para Marx, como se pode observar inclusive nesse vídeo do Gustavo Machado, a “totalidade” dialética não é um molde pronto, que você aplica à realidade, para explicá-la à força, é um horizonte que se reconstrói na busca por compreender a síntese de múltiplas determinações em movimento e serve para nos lembrar de olhar para as conexões ocultas e para o movimento do real, não para engessar o mundo em uma verdade imutável.&#xA;&#xA;Minha preocupação é que essa deturpação produza militantes mais preocupados em defender verdades prontas do que em compreender a realidade concreta. Isso, na história, pode até ter se mostrado uma potência para comover as pessoas a fazer revolução, guerra e matar com convicção, como um meio justificado para se atingir esse fim histórico glorioso e inevitável. Mas a dialética de Marx é muito mais que colocar a dialética de Hegel de cabeça para baixo. A dialética marxista não possui a confiança hegeliana de que a história possa encontrar sua reconciliação final em uma totalidade plenamente realizada.&#xA;&#xA;Formar pessoas politicamente nesses moldes cria pessoas impermeáveis à experiência, guiadas por uma paixão de nostalgia dessa totalidade absoluta e já conquistada, tornando-as incapazes de refletir sobre suas práticas e ações políticas. Sobre isso, deixo o que considero uma avaliação brilhante de Sartre sobre esse tipo de pessoa, que no caso foi associado ao antissemita, ao fascista, mas também se aplica a fundamentalistas de qualquer espectro político:&#xA;&#xA;  O homem sensato busca gemendo, sabe que seus raciocínios são apenas prováveis, que outras considerações hão de pô-los em dúvida; nunca sabe muito bem onde vai; está &#34;aberto&#34;, pode passar por vacilante. Mas há pessoas que se sentem atraídas pela permanência da pedra. Querem ser maciças e impenetráveis, não querem mudar: aonde as conduzirá a mudança? Trata-se de um temor original de si próprio e de um temor da verdade. E o que as amedronta, não é o conteúdo da verdade, que nem sequer suspeitam, porém a própria forma do verdadeiro, este objeto de indefinida aproximação. É como se suas próprias existências estivessem eternamente em sursis. Mas desejam existir ao mesmo tempo e incontinenti. Não desejam opiniões adquiridas, querem-nas inatas; como têm medo do raciocínio, querem adotar um modo de vida em que o raciocínio e a busca exerçam tão somente um papel subordinado, em que jamais se procure exceto aquilo que já se encontrou, em que a gente só se torne aquilo que já era. E para tanto só há a paixão. Apenas uma forte prevenção sentimental pode dar uma certeza fulgurante, apenas ela pode manter o raciocínio à margem, apenas ela pode permanecer impermeável à experiência e subsistir durante toda uma vida.&#xA;&#xA;Essa paixão doutrinária mais parece um escudo dogmático, prevenindo práticas, investigações e até material reflexivo que contradiga o marxismo adotado como canônico: se a realidade contradiz a linha do partido ou a “lei histórica”, pior para a realidade!&#xA;&#xA;Se você se interessa pelo marxismo, se se compreende como socialista ou comunista, meu conselho é que não limite seu horizonte de percepção. Não exclua de sua vida fontes literárias tratadas como não oficiais. Ninguém vai tomar sua carteirinha de marxista porque você decidiu ampliar seus estudos. Recomendo que leia autores do marxismo seja ocidental, soviético, oriental, inclusive não apenas os marxistas, leia inclusive filósofos e autores não-marxistas, tudo o que permita que você amplie seus horizontes.&#xA;&#xA;As obras de Marx estão repletas de textos literários de Honoré de Balzac. Marx adorava Balzac. Embora fosse politicamente conservador, monarquista e profundamente nostálgico da aristocracia francesa, conseguiu retratar as transformações sociais de seu tempo com uma profundidade que o próprio Marx admirava.&#xA;&#xA;Merleau-Ponty, em “As Aventuras da Dialética”, ao resgatar o conceito de totalidade no jovem Lukács, constata que mesmo as distorções ideológicas revelam o real:&#xA;&#xA;  Até mesmo os fantasmas têm um significado e exigem interpretação, pois sempre aparecem no contexto de uma relação vivida com a realidade social e, portanto, não são coisas mentais e opacas, separadas do resto. Ao contrário, como as expressões faciais ou a fala, carregam consigo um significado oculto que os desmascara; não escondem algo a menos que o revelem.&#xA;&#xA;e&#xA;&#xA;  a literatura nunca expressa os postulados de uma única classe, mas sim o encontro e, se necessário, o contraste com os outros: é, portanto, sempre um reflexo do todo, mesmo que a perspectiva de classe a distorça.&#xA;&#xA;Merleau-Ponty e Lukács (pelo menos o de 1923, do História e Consciência de Classe), concordam que a dialética histórica não é impermeável à experiência. Nenhuma experiência histórica deve ser descartada de antemão por razões doutrinárias. Até os erros e derrotas precisam ser compreendidos como momentos do processo histórico: &#34;O falso é um momento do verdadeiro, simultaneamente falso e não falso.&#34;&#xA;&#xA;Essa atenção a experiência permite que o Marxismo seja plural e atento às conjunturas e movimentos sociais distintos. Não concordo com o uso do marxismo soviético como receituário do marxismo para o contexto histórico do Brasil atual… Isso é antimarxista em alguma medida, visto que Marx, no 18 Brumário, já explicava que não devemos conjurar espíritos do passado a fim de encenar um momento distinto da história venerando revolucionários do passado como se tivessem uma receita pronta e acabada:&#xA;&#xA;  Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem por livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com as quais se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar a si mesmos e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, eles conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestados os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de encenar a nova cena da história mundial nesse disfarce venerável e nessa linguagem emprestada.&#xA;&#xA;Sei que soa muito mais fácil angariar uma militância engajada a dotando de certezas… É realmente mais difícil convidar pessoas a fazer uma revolução falando: “Vamos nos unir para construir o novo, o futuro é incerto, nossa vitória não está garantida, mas vale a pena o risco por essa causa”, mas dentro de uma análise concreta dos movimentos reais da história, é isso o que temos. O sistema que durante décadas se apresentou como a realização histórica inevitável do marxismo acabou implodindo por dentro. A União Soviética se dividiu e a Rússia foi revertida à economia de mercado de uma forma repentina, traumática, que causou danos relevantes ao seu tecido social e a de parceiros, como Cuba.&#xA;&#xA;A China caminhou para uma forma peculiar de capitalismo de Estado ou, para seus defensores, de socialismo de mercado, na qual coexistem planejamento estatal, grandes empresas públicas e uma poderosa classe capitalista privada (inclusive com uma expressiva classe de bilionários privados operando segundo as dinâmicas tradicionais da acumulação capitalista). A classe gerencial chinesa, a burocracia estatal, tem mais autonomia em relação a classe dominante capitalista e maior capacidade de planejamento, de coordenar o desenvolvimento estratégico do País, em relação a todos os outros estados-nações sob o modo de produção capitalista.&#xA;&#xA;O que eu poderia dizer para o marxismo das possibilidades, é que embora o socialismo não seja uma certeza histórica, seja uma possibilidade, mesmo que experiências socialistas plurais, prolíficas e diferenciadas marxistas sejam derrotadas, o empenho da militância em criar o novo não é em vão.&#xA;&#xA;Um humilde exemplo que sempre ofereço e tento lembrar, que escapa totalmente do marxismo soviético canônico, é a da pequena municipalidade da Viena Vermelha no período entre Guerras, como consta do Livro V, da história do Marxismo, de Hobsbawm.&#xA;&#xA;Os austromarxistas fizeram uma leitura brilhante de seu contexto histórico e das possibilidades políticas que se abriam com a recente ampliação do sufrágio. Por meio das vias eleitorais, conquistaram o governo municipal de Viena e desenvolveram uma forma criativa de gestão socialista que transformou profundamente a cidade. A tributação progressiva e os programas sociais ergueram, em pouco mais de uma década, durante o período entre guerras, um verdadeiro monumento ao socialismo democrático.&#xA;&#xA;Milhares de trabalhadores foram retirados de cortiços insalubres e passaram a ter acesso a moradias de qualidade inédita para a época. Conjuntos habitacionais como o Karl-Marx-Hof permanecem de pé e continuam cumprindo sua função social até hoje. Ao mesmo tempo, a Viena Vermelha expandiu o acesso à saúde pública, às creches, à educação e a diversas outras políticas sociais, antecipando iniciativas que mais tarde se difundiriam por diferentes países europeus.&#xA;&#xA;Após a derrota da experiência austromarxista diante do avanço do austrofascismo, e depois da anexação da Áustria pelo nazismo, muitos poderiam imaginar que aquela experiência havia desaparecido completamente da história. No entanto, após a derrota do regime nazista, a Constituição austríaca (cuja elaboração contou também com a participação dos austromarxistas) foi restabelecida, e muitas das instituições, políticas públicas e conquistas sociais da Viena Vermelha continuaram presentes na vida urbana vienense.&#xA;&#xA;A experiência da Viena Vermelha tornou-se uma importante referência para diversas políticas sociais implementadas na Europa do pós-guerra, especialmente nas áreas de habitação, saúde e planejamento urbano.&#xA;&#xA;A história não precisa garantir o triunfo inevitável do socialismo para que a luta por transformações sociais valha a pena. O simples fato de que algo novo possa surgir, alterar a experiência humana e permanecer vivo para além de seus criadores já é razão suficiente para agir.&#xA;&#xA;#Marxismo #Dialética #MarxismoOcidental #Filosofia #História #MaterialismoHistórico&#xA;&#xA;---&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;Comentários e críticas são sempre bem-vindos.&#xD;&#xA;Mastodon · Matrix (@sirius:nope.chat)]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><strong>Transformar o marxismo em catecismo talvez seja uma ótima forma de produzir militantes disciplinados, mas é uma péssima forma de compreender a realidade.</strong>

Recentemente rolou um debate contra o chamado “marxismo ocidental” no meio <a href="https://www.youtube.com/watch?v=sJazCh8Ed0M" rel="nofollow">webcomunista</a>. Alguns influenciadores marxista-leninistas ou maoistas tendem a tratar marxismo ocidental como sinônimo de Escola de Frankfurt. Menosprezar a escola de Frankfurt já seria um problema por si só, porque implica descartar autores como Adorno ou Marcuse como se não tivessem nada a oferecer ao pensamento marxista. Mas a simplificação é ainda mais grave.</p>

<p>O marxismo ocidental nunca foi apenas a Escola de Frankfurt. Nele encontramos autores tão diversos quanto Lukács, Gramsci, Korsch, Sartre, Merleau-Ponty, até Althusser e Poulantzas, e vários outros que procuraram recuperar aspectos da dialética de Marx que haviam sido empobrecidos pelas leituras mais ortodoxas do marxismo do século XX (cada um ao seu próprio jeito e de formas diferentes). Reduzir toda essa tradição a uma caricatura “identitária”, “culturalista” ou “acadêmica” é demonstrar desconhecimento da própria história do pensamento marxista.</p>

<p>É inclusive irônico porque se nem mesmo os autores da escola de Frankfurt são totalmente coesos e concordam entre si, quando ampliamos para o “marxismo ocidental” fica pior ainda, pois há autores que tecem várias críticas e discordam em vários aspectos entre si. Uma categoria criada para descrever uma tradição intelectual extremamente diversa acaba sendo utilizada por alguns influenciadores como instrumento de demarcação ideológica, criando um “nós” e um “outros” dentro do próprio marxismo, transformando em suspeitos todos aqueles que se recusam a identificar marxismo com a ortodoxia soviética ou maoista.</p>

<p>Parte do problema está na transformação de Materialismo e Empiriocriticismo, de Lenin, em uma espécie de catecismo filosófico. Muitos marxistas heterodoxos viram nessa obra um retorno a formas de materialismo anteriores não apenas a Marx, mas também à revolução filosófica promovida por Kant e Hegel. O conhecimento aparece ali como um espelhamento cada vez mais preciso de uma realidade objetiva, e o marxismo tende a ser apresentado como a ciência capaz de revelar as leis fundamentais da história.</p>

<p>A partir daí, não é difícil incorrer numa visão mecanicista do devir histórico, na qual o futuro já estaria inscrito nas estruturas do presente e a vitória do proletariado apareceria não como uma possibilidade política a ser construída mas como o desfecho inevitável de um processo governado por leis históricas.</p>

<p>Mais tarde, nos Cadernos Filosóficos, Lenin realiza uma retomada muito mais rica da dialética hegeliana que se afasta significativamente do mecanicismo presente em Materialismo e Empiriocriticismo. O problema é que a tradição marxista-leninista posterior frequentemente combinou esse reencontro com Hegel a uma filosofia da história excessivamente confiante em suas próprias conclusões. A dialética deixou de ser um método para compreender contradições abertas e passou a funcionar, muitas vezes, como garantia antecipada do triunfo histórico do proletariado.</p>

<p>É justamente contra essa tentação que boa parte do marxismo ocidental se insurgiu. Lukács, Gramsci, Sartre, Merleau-Ponty e mesmo autores da Escola de Frankfurt insistiram, cada um à sua maneira, que a história não entrega garantias antecipadas. A práxis política ocorre em um mundo contingente, ambíguo e imprevisível. Não existe ponto de vista privilegiado fora da história a partir do qual possamos enxergar seu destino final.</p>

<p>Talvez seja exatamente isso que incomode tanto certos setores do webcomunismo. A ideia de que a política exige julgamento, revisão constante dos próprios pressupostos e responsabilidade pelos resultados concretos da ação é muito menos confortável do que a crença de estar marchando inevitavelmente em direção a uma vitória já inscrita nas leis da história. A primeira posição exige reflexão crítica permanente e a segunda oferece a segurança psicológica da certeza doutrinária.</p>

<p>O “marxismo ocidental” vira sinônimo de “desvio burguês/acadêmico” para que a ortodoxia não precise lidar com questões difíceis.</p>

<p>Para Marx, como se pode observar inclusive nesse vídeo do <a href="https://www.youtube.com/watch?v=1kcnVAN1W2U" rel="nofollow">Gustavo Machado</a>, a “totalidade” dialética não é um molde pronto, que você aplica à realidade, para explicá-la à força, é um horizonte que se reconstrói na busca por compreender a síntese de múltiplas determinações em movimento e serve para nos lembrar de olhar para as conexões ocultas e para o movimento do real, não para engessar o mundo em uma verdade imutável.</p>

<p>Minha preocupação é que essa deturpação produza militantes mais preocupados em defender verdades prontas do que em compreender a realidade concreta. Isso, na história, pode até ter se mostrado uma potência para comover as pessoas a fazer revolução, guerra e matar com convicção, como um meio justificado para se atingir esse fim histórico glorioso e inevitável. Mas a dialética de Marx é muito mais que colocar a dialética de Hegel de cabeça para baixo. A dialética marxista não possui a confiança hegeliana de que a história possa encontrar sua reconciliação final em uma totalidade plenamente realizada.</p>

<p>Formar pessoas politicamente nesses moldes cria pessoas impermeáveis à experiência, guiadas por uma paixão de nostalgia dessa totalidade absoluta e já conquistada, tornando-as incapazes de refletir sobre suas práticas e ações políticas. Sobre isso, deixo o que considero uma avaliação brilhante de Sartre sobre esse tipo de pessoa, que no caso foi associado ao antissemita, ao fascista, mas também se aplica a fundamentalistas de qualquer espectro político:</p>

<blockquote><p>O homem sensato busca gemendo, sabe que seus raciocínios são apenas prováveis, que outras considerações hão de pô-los em dúvida; nunca sabe muito bem onde vai; está “aberto”, pode passar por vacilante. Mas há pessoas que se sentem atraídas pela permanência da pedra. Querem ser maciças e impenetráveis, não querem mudar: aonde as conduzirá a mudança? Trata-se de um temor original de si próprio e de um temor da verdade. E o que as amedronta, não é o conteúdo da verdade, que nem sequer suspeitam, porém a própria forma do verdadeiro, este objeto de indefinida aproximação. É como se suas próprias existências estivessem eternamente em sursis. Mas desejam existir ao mesmo tempo e incontinenti. Não desejam opiniões adquiridas, querem-nas inatas; como têm medo do raciocínio, querem adotar um modo de vida em que o raciocínio e a busca exerçam tão somente um papel subordinado, em que jamais se procure exceto aquilo que já se encontrou, em que a gente só se torne aquilo que já era. E para tanto só há a paixão. Apenas uma forte prevenção sentimental pode dar uma certeza fulgurante, apenas ela pode manter o raciocínio à margem, apenas ela pode permanecer impermeável à experiência e subsistir durante toda uma vida.</p></blockquote>

<p>Essa paixão doutrinária mais parece um escudo dogmático, prevenindo práticas, investigações e até material reflexivo que contradiga o marxismo adotado como canônico: se a realidade contradiz a linha do partido ou a “lei histórica”, pior para a realidade!</p>

<p>Se você se interessa pelo marxismo, se se compreende como socialista ou comunista, meu conselho é que não limite seu horizonte de percepção. Não exclua de sua vida fontes literárias tratadas como não oficiais. Ninguém vai tomar sua carteirinha de marxista porque você decidiu ampliar seus estudos. Recomendo que leia autores do marxismo seja ocidental, soviético, oriental, inclusive não apenas os marxistas, leia inclusive filósofos e autores não-marxistas, tudo o que permita que você amplie seus horizontes.</p>

<p>As obras de Marx estão repletas de textos literários de Honoré de Balzac. Marx adorava Balzac. Embora fosse politicamente conservador, monarquista e profundamente nostálgico da aristocracia francesa, conseguiu retratar as transformações sociais de seu tempo com uma profundidade que o próprio Marx admirava.</p>

<p>Merleau-Ponty, em “As Aventuras da Dialética”, ao resgatar o conceito de totalidade no jovem Lukács, constata que mesmo as distorções ideológicas revelam o real:</p>

<blockquote><p>Até mesmo os fantasmas têm um significado e exigem interpretação, pois sempre aparecem no contexto de uma relação vivida com a realidade social e, portanto, não são coisas mentais e opacas, separadas do resto. Ao contrário, como as expressões faciais ou a fala, carregam consigo um significado oculto que os desmascara; não escondem algo a menos que o revelem.</p></blockquote>

<p>e</p>

<blockquote><p>a literatura nunca expressa os postulados de uma única classe, mas sim o encontro e, se necessário, o contraste com os outros: é, portanto, sempre um reflexo do todo, mesmo que a perspectiva de classe a distorça.</p></blockquote>

<p>Merleau-Ponty e Lukács (pelo menos o de 1923, do História e Consciência de Classe), concordam que a dialética histórica não é impermeável à experiência. Nenhuma experiência histórica deve ser descartada de antemão por razões doutrinárias. Até os erros e derrotas precisam ser compreendidos como momentos do processo histórico: “O falso é um momento do verdadeiro, simultaneamente falso e não falso.”</p>

<p>Essa atenção a experiência permite que o Marxismo seja plural e atento às conjunturas e movimentos sociais distintos. Não concordo com o uso do marxismo soviético como receituário do marxismo para o contexto histórico do Brasil atual… Isso é antimarxista em alguma medida, visto que Marx, no 18 Brumário, já explicava que não devemos conjurar espíritos do passado a fim de encenar um momento distinto da história venerando revolucionários do passado como se tivessem uma receita pronta e acabada:</p>

<blockquote><p>Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem por livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com as quais se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar a si mesmos e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, eles conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestados os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de encenar a nova cena da história mundial nesse disfarce venerável e nessa linguagem emprestada.</p></blockquote>

<p>Sei que soa muito mais fácil angariar uma militância engajada a dotando de certezas… É realmente mais difícil convidar pessoas a fazer uma revolução falando: “Vamos nos unir para construir o novo, o futuro é incerto, nossa vitória não está garantida, mas vale a pena o risco por essa causa”, mas dentro de uma análise concreta dos movimentos reais da história, é isso o que temos. O sistema que durante décadas se apresentou como a realização histórica inevitável do marxismo acabou implodindo por dentro. A União Soviética se dividiu e a Rússia foi revertida à economia de mercado de uma forma repentina, traumática, que causou danos relevantes ao seu tecido social e a de parceiros, como Cuba.</p>

<p>A China caminhou para uma forma peculiar de capitalismo de Estado ou, para seus defensores, de socialismo de mercado, na qual coexistem planejamento estatal, grandes empresas públicas e uma poderosa classe capitalista privada (inclusive com uma expressiva classe de bilionários privados operando segundo as dinâmicas tradicionais da acumulação capitalista). A classe gerencial chinesa, a burocracia estatal, tem mais autonomia em relação a classe dominante capitalista e maior capacidade de planejamento, de coordenar o desenvolvimento estratégico do País, em relação a todos os outros estados-nações sob o modo de produção capitalista.</p>

<p>O que eu poderia dizer para o marxismo das possibilidades, é que embora o socialismo não seja uma certeza histórica, seja uma possibilidade, mesmo que experiências socialistas plurais, prolíficas e diferenciadas marxistas sejam derrotadas, o empenho da militância em criar o novo não é em vão.</p>

<p>Um humilde exemplo que sempre ofereço e tento lembrar, que escapa totalmente do marxismo soviético canônico, é a da pequena municipalidade da Viena Vermelha no período entre Guerras, como consta do Livro V, da história do Marxismo, de Hobsbawm.</p>

<p>Os austromarxistas fizeram uma leitura brilhante de seu contexto histórico e das possibilidades políticas que se abriam com a recente ampliação do sufrágio. Por meio das vias eleitorais, conquistaram o governo municipal de Viena e desenvolveram uma forma criativa de gestão socialista que transformou profundamente a cidade. A tributação progressiva e os programas sociais ergueram, em pouco mais de uma década, durante o período entre guerras, um verdadeiro monumento ao socialismo democrático.</p>

<p>Milhares de trabalhadores foram retirados de cortiços insalubres e passaram a ter acesso a moradias de qualidade inédita para a época. Conjuntos habitacionais como o Karl-Marx-Hof permanecem de pé e continuam cumprindo sua função social até hoje. Ao mesmo tempo, a Viena Vermelha expandiu o acesso à saúde pública, às creches, à educação e a diversas outras políticas sociais, antecipando iniciativas que mais tarde se difundiriam por diferentes países europeus.</p>

<p>Após a derrota da experiência austromarxista diante do avanço do austrofascismo, e depois da anexação da Áustria pelo nazismo, muitos poderiam imaginar que aquela experiência havia desaparecido completamente da história. No entanto, após a derrota do regime nazista, a Constituição austríaca (cuja elaboração contou também com a participação dos austromarxistas) foi restabelecida, e muitas das instituições, políticas públicas e conquistas sociais da Viena Vermelha continuaram presentes na vida urbana vienense.</p>

<p>A experiência da Viena Vermelha tornou-se uma importante referência para diversas políticas sociais implementadas na Europa do pós-guerra, especialmente nas áreas de habitação, saúde e planejamento urbano.</p>

<p>A história não precisa garantir o triunfo inevitável do socialismo para que a luta por transformações sociais valha a pena. O simples fato de que algo novo possa surgir, alterar a experiência humana e permanecer vivo para além de seus criadores já é razão suficiente para agir.</p>

<p><a href="/sirius/tag:Marxismo" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Marxismo</span></a> <a href="/sirius/tag:Dial%C3%A9tica" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Dialética</span></a> <a href="/sirius/tag:MarxismoOcidental" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">MarxismoOcidental</span></a> <a href="/sirius/tag:Filosofia" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Filosofia</span></a> <a href="/sirius/tag:Hist%C3%B3ria" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">História</span></a> <a href="/sirius/tag:MaterialismoHist%C3%B3rico" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">MaterialismoHistórico</span></a></p>

<hr>

<p>Comentários e críticas são sempre bem-vindos.
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      <guid>https://infosec.press/sirius/ortodoxia-marxista-e-ambiguidade-historica</guid>
      <pubDate>Tue, 21 Jul 2026 22:52:14 +0000</pubDate>
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      <title>Espanto filosófico do futebol</title>
      <link>https://infosec.press/sirius/espanto-filosofico-do-futebol</link>
      <description>&lt;![CDATA[Haaland, Messi e Mbappé !--more--&#xA;Após as atuações de gala de Mbappé, Messi e Haaland por suas seleções, com dois gols do francês contra Senegal, um hat-trick do argentino diante da Argélia e dois gols do norueguês contra o Iraque, resolvi fazer algumas ponderações futebolístico-filosóficas, ao estilo do futebol filosófico do Monty Python.&#xA;&#xA;Messi, Mbappé e Haaland encarnam a exemplaridade atlética máxima em suas seleções. Na visão de Sloterdijk, que propõe uma ordem antropotécnica, eles seriam os &#34;aristocratas do esforço&#34; no topo da acrópole competitiva global. Mas acho que o treino e o esforço explicam nossa admiração em apenas uma dimensão. &#xA;&#xA;O Messi do hat-trick de ontem, por exemplo, já não depende tanto do vigor físico; ele é como uma entidade incorporada ao campo, dotada de uma percepção das possibilidades que excede a dos demais, exibindo uma graça que escapa à pura força e agilidade do Haaland ou Mbappé. &#xA;&#xA;Tenho a teoria de que o futebol cativa tantas pessoas porque indivíduos assim convertem a superação humana numa plasticidade sublime, uma potência que comove, arrebata e causa espanto. Isso se manifesta nos gritos de espanto da torcida, com um sonoro &#34;- OOoooooohhh&#34; coletivo, quando esses craques atravessam as linhas de defesa ou quando um Messi encontra um passe invisível para os demais, produzindo uma ruptura momentânea nos limites do que julgavam possível. &#xA;&#xA;Os espectadores na arquibancada experimentam algo próximo do espanto filosófico: &#34;como isso foi possível?&#34; E Sócrates, segundo Platão, já nos lembrava que a filosofia nasce justamente da nossa capacidade de se espantar (thauma). &#xA;&#xA;#Futebol #Filosofia #Antropotécnica #Estética #Sublime&#xA;&#xA;---&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;Comentários e críticas são sempre bem-vindos.&#xD;&#xA;Mastodon · Matrix (@sirius:nope.chat)]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://www.band.com.br/_next/image?url=https%3A%2F%2Fimg.band.com.br%2Fimage%2F2026%2F06%2F17%2Fhaaland-messi-e-mbappe-brilharam-no-mesmo-dia-33440.png&amp;w=1080&amp;q=75" alt="Haaland, Messi e Mbappé"> 
Após as atuações de gala de Mbappé, Messi e Haaland por suas seleções, com dois gols do francês contra Senegal, um hat-trick do argentino diante da Argélia e dois gols do norueguês contra o Iraque, resolvi fazer algumas ponderações futebolístico-filosóficas, ao estilo do futebol filosófico do Monty Python.</p>

<p>Messi, Mbappé e Haaland encarnam a exemplaridade atlética máxima em suas seleções. Na visão de Sloterdijk, que propõe uma ordem antropotécnica, eles seriam os “aristocratas do esforço” no topo da acrópole competitiva global. Mas acho que o treino e o esforço explicam nossa admiração em apenas uma dimensão.</p>

<p>O Messi do hat-trick de ontem, por exemplo, já não depende tanto do vigor físico; ele é como uma entidade incorporada ao campo, dotada de uma percepção das possibilidades que excede a dos demais, exibindo uma graça que escapa à pura força e agilidade do Haaland ou Mbappé.</p>

<p>Tenho a teoria de que o futebol cativa tantas pessoas porque indivíduos assim convertem a superação humana numa plasticidade sublime, uma potência que comove, arrebata e causa espanto. Isso se manifesta nos gritos de espanto da torcida, com um sonoro “– OOoooooohhh” coletivo, quando esses craques atravessam as linhas de defesa ou quando um Messi encontra um passe invisível para os demais, produzindo uma ruptura momentânea nos limites do que julgavam possível.</p>

<p>Os espectadores na arquibancada experimentam algo próximo do espanto filosófico: “como isso foi possível?” E Sócrates, segundo Platão, já nos lembrava que a filosofia nasce justamente da nossa capacidade de se espantar (thauma).</p>

<p><a href="/sirius/tag:Futebol" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Futebol</span></a> <a href="/sirius/tag:Filosofia" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Filosofia</span></a> <a href="/sirius/tag:Antropot%C3%A9cnica" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Antropotécnica</span></a> <a href="/sirius/tag:Est%C3%A9tica" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Estética</span></a> <a href="/sirius/tag:Sublime" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">Sublime</span></a></p>

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<p>Comentários e críticas são sempre bem-vindos.
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      <guid>https://infosec.press/sirius/espanto-filosofico-do-futebol</guid>
      <pubDate>Wed, 17 Jun 2026 17:47:11 +0000</pubDate>
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      <title>Animais artificiais</title>
      <link>https://infosec.press/sirius/animais-artificiais</link>
      <description>&lt;![CDATA[Destruição de Leviatã -gravura de Gustave Doré&#xA;!--more--&#xA;Outro dia desses estava lendo “homo bolsonarus” do Renato Lessa (disponibilizado de graça na rede) e uma das coisas que acho instigante no texto é a concepção de que o bolsonarismo é uma instituição. &#xA;&#xA;Lessa fala sobre como Hobbes observou a capacidade humana de produzir “animais artificiais”, que são as instituições. &#xA;&#xA;Nem todo animal artificial que criamos, por certo, precisa ser necessariamente uma besta perversa. Também é possível ver uma luta entre estes constructos animais (mas não no estilo duelo Pokemon). Inclusive estamos assistindo na atualidade as instituições oficiais do Judiciário e PGR (antes leniente sob o comando de Augusto Aras) combatendo a besta bolsonarista.&#xA;&#xA;Mas deixando de lado a atenção principal do texto do professor, o bolsonarismo, o que mais gostei foi a dica final, de que podemos criar outras instituições! E acrescento que nossos animais artificiais não necessitam ser estatais. &#xA;&#xA;O Poder Central é expressivo, mas também é limitado, uma instituição precisa mesmo é ter um “discurso forte”, capaz de reunir as pessoas em torno de convicções e crenças sólidas.&#xA;&#xA;Este fediverso, por exemplo, é a infraestrutura de uma instituição, de um animal artificial que criamos. Não é estatal, não criamos um Leviatã, nem é um passarinho ou uma borboleta, de propriedade capitalista. Alguns de nós chamam de mastodonte, mas sabemos que é maior que isso.&#xA;&#xA;Nesse caso específico, ademais, nós, que alimentamos nosso bichinho, precisamos tornar esse discurso mais forte para dar mais consistência às crenças que sustentam essa instituição (informação, diálogos, comunicação públicas, abertas, descentralizadas, etc.).&#xA;&#xA;Quando o bolsonarismo alcançou o Poder Executivo (além de parcela relevante das cadeiras do Congresso) por certo ele ganhou mais força e foram quatro anos sofridos, com direito a uma pandemia mundial para a besta fazer mais vítimas…&#xA;&#xA;Mas só conseguiu alcançar o executivo por ser uma instituição forte, independentemente do Poder Central, que canalizava as emoções e crenças de muitas pessoas! &#xA;&#xA;O poder parcial conquistado com a eleição e ascensão ao executivo federal teve também um aspecto limitador. A estrutura de Separação dos Poderes fez a criatura guinchar de ódio e se queixar que o Judiciário não a deixava desgovernar em paz… Até mesmo o Legislativo exigia muitas emendas e não admitia todas as vontades da besta.&#xA;&#xA;O que gostaria de ressaltar, contudo, é que estas experiências nos mostram que também podemos cristalizar nossas crenças em uma humanidade não alienada, não oprimida, livre do jugo do poder financeiro e da vigilância do capitalismo atual, por meio de novos constructos animais!&#xA;&#xA;Para tanto precisamos de união, cooperação, consenso, diálogo, respeito, técnica politica e, principalmente, praticar a experimentação e a criatividade.&#xA;&#xA;#instituições #fediverso #bolsonarismo&#xA;&#xA;---&#xD;&#xA;&#xD;&#xA;Comentários e críticas são sempre bem-vindos.&#xD;&#xA;Mastodon · Matrix (@sirius:nope.chat)]]&gt;</description>
      <content:encoded><![CDATA[<p><img src="https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/9/9d/Destruction_of_Leviathan.png/1280px-Destruction_of_Leviathan.png" alt="Destruição de Leviatã -gravura de Gustave Doré">

Outro dia desses estava lendo “homo bolsonarus” do Renato Lessa (disponibilizado de graça na rede) e uma das coisas que acho instigante no texto é a concepção de que o bolsonarismo é uma instituição.</p>

<p>Lessa fala sobre como Hobbes observou a capacidade humana de produzir “animais artificiais”, que são as instituições.</p>

<p>Nem todo animal artificial que criamos, por certo, precisa ser necessariamente uma besta perversa. Também é possível ver uma luta entre estes constructos animais (mas não no estilo duelo Pokemon). Inclusive estamos assistindo na atualidade as instituições oficiais do Judiciário e PGR (antes leniente sob o comando de Augusto Aras) combatendo a besta bolsonarista.</p>

<p>Mas deixando de lado a atenção principal do texto do professor, o bolsonarismo, o que mais gostei foi a dica final, de que podemos criar outras instituições! E acrescento que nossos animais artificiais não necessitam ser estatais.</p>

<p>O Poder Central é expressivo, mas também é limitado, uma instituição precisa mesmo é ter um “discurso forte”, capaz de reunir as pessoas em torno de convicções e crenças sólidas.</p>

<p>Este fediverso, por exemplo, é a infraestrutura de uma instituição, de um animal artificial que criamos. Não é estatal, não criamos um Leviatã, nem é um passarinho ou uma borboleta, de propriedade capitalista. Alguns de nós chamam de mastodonte, mas sabemos que é maior que isso.</p>

<p>Nesse caso específico, ademais, nós, que alimentamos nosso bichinho, precisamos tornar esse discurso mais forte para dar mais consistência às crenças que sustentam essa instituição (informação, diálogos, comunicação públicas, abertas, descentralizadas, etc.).</p>

<p>Quando o bolsonarismo alcançou o Poder Executivo (além de parcela relevante das cadeiras do Congresso) por certo ele ganhou mais força e foram quatro anos sofridos, com direito a uma pandemia mundial para a besta fazer mais vítimas…</p>

<p>Mas só conseguiu alcançar o executivo por ser uma instituição forte, independentemente do Poder Central, que canalizava as emoções e crenças de muitas pessoas!</p>

<p>O poder parcial conquistado com a eleição e ascensão ao executivo federal teve também um aspecto limitador. A estrutura de Separação dos Poderes fez a criatura guinchar de ódio e se queixar que o Judiciário não a deixava desgovernar em paz… Até mesmo o Legislativo exigia muitas emendas e não admitia todas as vontades da besta.</p>

<p>O que gostaria de ressaltar, contudo, é que estas experiências nos mostram que também podemos cristalizar nossas crenças em uma humanidade não alienada, não oprimida, livre do jugo do poder financeiro e da vigilância do capitalismo atual, por meio de novos constructos animais!</p>

<p>Para tanto precisamos de união, cooperação, consenso, diálogo, respeito, técnica politica e, principalmente, praticar a experimentação e a criatividade.</p>

<p><a href="/sirius/tag:institui%C3%A7%C3%B5es" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">instituições</span></a> <a href="/sirius/tag:fediverso" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">fediverso</span></a> <a href="/sirius/tag:bolsonarismo" class="hashtag" rel="nofollow"><span>#</span><span class="p-category">bolsonarismo</span></a></p>

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<p>Comentários e críticas são sempre bem-vindos.
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      <pubDate>Mon, 08 Sep 2025 07:39:48 +0000</pubDate>
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