A esfera de Pascal

Por Jorge Luis Borges – Buenos Aires, 1951.

A esfera de Pascal

Talvez a história universal seja a história de algumas metáforas. Esboçar um capítulo dessa história é o fito desta nota.

Seis séculos antes da era cristã, o rapsodo Xenófanes de Colofônio, farto dos versos homéricos que recitava de cidade em cidade, condenou os poetas que atribuíram traços antropomórficos aos deuses e propôs aos gregos um único Deus, que era uma esfera eterna. No Timeu, de Platão, lê-se que a esfera é a figura mais perfeita e mais uniforme, porque todos os pontos da superfície equidistam do centro; Olof Gigon (Ursprang der Griechischen Philosophie, 183) entende que Xenófanes falou analogicamente; o Deus era esferoidal por ser essa forma a melhor, ou menos má, para representar a divindade.

Parmênides, quarenta anos depois, repetiu a imagem (“o Ser é semelhante à massa de uma esfera bem arredondada, cuja força é constante do centro em qualquer direção”); Calogero e Mondolfo entendem que ele intuiu uma esfera infinita, ou infinitamente crescente, e que as palavras transcritas acima têm um sentido dinâmico (Albertelli: Gli Eleati, 148). Parmênides lecionou na Itália; poucos anos antes de sua morte, o siciliano Empédocles de Agrigento urdiu uma laboriosa cosmogonia; há uma etapa em que as partículas da terra, da água, do ar e do fogo integram uma esfera sem fim, “o Sphairos redondo, que exulta em sua solidão circular”.

A história universal seguiu seu curso, os deuses demasiado humanos que Xenófanes atacara foram rebaixados a ficções poéticas ou a demônios, mas afirmou-se que um deles, Hermes Trismegisto, ditara um número variável de livros (42, segundo Clemente de Alexandria; 20.000, segundo Jâmblico; 36.525, segundo os sacerdotes de Thot, que também era Hermes), em cujas páginas estavam escritas todas as coisas. Fragmentos dessa biblioteca ilusória, compilados ou forjados desde o século I1, formam aquilo que recebe o nome de Corpus Hermeticum; em um desses fragmentos, ou no Asclépio, também atribuído a Trismegisto, o teólogo francês Alain de Lille — Alanus de Insulis — descobriu em fins do século XII a seguinte fórmula, que as idades vindouras não esqueceriam: “Deus é uma esfera inteligível, cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma”. Os pré-socráticos falaram de uma esfera sem fim; Albertelli (como, antes, Aristóteles) pensa que falar assim é cometer uma contradictio in adjecto, pois sujeito e predicado se anulam; isso bem pode ser verdade, mas a fórmula dos livros herméticos deixa-nos, quase, intuir essa esfera. No século XIII, a imagem reapareceu no simbólico Roman de la Rose, que a apresenta como sendo de Platão, e na enciclopédia Speculum Triplex; no XVI, o último capítulo do último livro de Pantagruel referiu-se a “essa esfera intelectual, cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma, que chamamos Deus”. Para a mente medieval, o sentido era claro: Deus está em cada uma de suas criaturas, mas nenhuma O limita. “O céu, o céu dos céus, não te contém”, disse Salomão (I Reis 8, 27); a metáfora geométrica da esfera deve ter parecido uma glosa dessas palavras.

O poema de Dante preservou a astronomia ptolomaica, que durante mil e quatrocentos anos regeu a imaginação dos homens. A terra ocupa o centro do universo. É uma esfera imóvel; em torno dela giram nove esferas concêntricas.

As sete primeiras são os céus planetários (céus da Lua, de Mercúrio, de Vênus, do Sol, de Marte, de Júpiter, de Saturno); a oitava, o céu das estrelas fixas; a nona, o céu cristalino, também chamado Primeiro Móvel. Este é rodeado pelo Empíreo, que é feito de luz. Toda essa laboriosa máquina de esferas ocas, transparentes e giratórias (um dos sistemas requeria cinquenta e cinco) chegara a ser uma necessidade mental; De Hipothesibus Motuum Coelestium Commentariolus é o tímido titulo que Copérnico, negador de Aristóteles, deu ao manuscrito que transformou nossa visão do cosmos. Para um homem, para Giordano Bruno, a ruptura das abóbadas estelares foi uma libertação. Este proclamou, na Ceia das Cinzas, que o mundo é o efeito infinito de uma causa infinita e que a divindade está próxima, “pois está dentro de nós mais ainda que nós mesmos estamos dentro de nós”. Procurou palavras para explicar o espaço copernicano aos homens e em uma página famosa estampou: “Podemos afirmar com certeza que o universo é todo centro, ou que o centro do universo está em toda a parte e a circunferência em nenhuma” (Da Causa, do Princípio e da Unidade, V). Isso foi escrito com exultação em 1584, ainda à luz do Renascimento; setenta anos depois, não restava nem um reflexo desse fervor, e os homens sentiram-se perdidos no tempo e no espaço. No tempo, porque, se o futuro e o passado são infinitos, não haverá realmente um quando; no espaço, porque, se todo ser equidista do infinito e do infinitesimal, tampouco haverá um onde.

Ninguém está em algum dia, em algum lugar; ninguém sabe o tamanho de seu rosto. No Renascimento, a humanidade acreditou que chegara à idade viril, e assim o declarou pela boca de Bruno, de Carnpanella e de Bacon. No século XVII acovardou-a uma sensação de velhice; para se justificar, exumou a crença em uma lenta e fatal degeneração de todas as criaturas, por obra do pecado de Adão. (No quinto capítulo do Gênesis consta que “todos os dias de Matusalém foram novecentos e setenta e nove anos”; no sexto, que “havia gigantes sobre a terra naqueles dias”.) O primeiro aniversário da elegia Anatomy of the World, de John Donne, lamentou a vida brevíssima e a estatura mínima dos homens contemporâneos, que são como as fadas e os pigmeus; Milton, segundo a biografia de Johnson, temeu que o gênero épico já fosse impossível na terra; Glanvill entendeu que Adão, “medalha de Deus”, desfrutou de uma visão telescópica e microscópica; Robert South famosamente escreveu: “Um Aristóteles não foi mais que escombros de Adão, e Atenas, os rudimentos do Paraíso”. Naquele século desanimado, o espaço absoluto que inspirou os hexâmetros de Lucrécio, o espaço absoluto que para Bruno fora uma libertação, foi um labirinto e um abismo para Pascal. Este abominava o universo e desejaria adorar a Deus, mas Deus, para ele, era menos real que o abominado universo. Deplorou que o firmamento não falasse, comparou nossa vida à de náufragos em uma ilha deserta. Sentiu o peso incessante do mundo físico, sentiu vertigem, medo e solidão, e expressou-os em outras palavras: “A natureza é uma esfera infinita, cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma”. O texto é assim publicado por Brunschvicg, mas a edição crítica de Tourneur (Paris, 1941), que reproduz as rasuras e vacilações do manuscrito, revela que Pascal começou a escrever effroyable: “Uma esfera terrível, cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma”.

Talvez a história universal seja a história da vária entonação de algumas metáforas.